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Almoço Nu – Desconstruindo tudo!

Almoço Nu é Indefinível e incompreensível (no sentido consciente)

Vamos supor que você ainda não conheça Almoço Nu (Naked Lunch), ou que já tenha ouvido falar de alguma forma. Neste caso, cabe a mim uma tarefa inglória. O objetivo de qualquer resenha positiva é motivar seus leitores a conferir a obra em questão, certo? Como eu faço isso, se preciso ser honesto e afirmar logo no começo:  “VOCÊ NÃO VAI ENTENDER ESSE LIVRO” ? A situação talvez piore quando eu complementar:  “E ISSO É BOM!”

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Resenha de Almoço Nu, de William S. Burroughs

Almoço Nu

Os que ainda não me abandonaram aqui merecem uma explicação. Antes de partirmos para o livro em si, entre os motivos pelos quais ele deve ser lido, um deles interessa aos fãs de quadrinhos. Grant Morrison se inspirou no modus operandi de William S. Burroughs*, autor de Almoço Nu, em sua fase na Patrulha do Destino.  Uma vez percebido esse processo, você encontrará esses traços em outros trabalhos do escocês.

*(Confira também a resenha da HQ nacional Burroughs)

Também existe o fato de que qualquer obra capaz de chacoalhar o status quo de uma sociedade careta, como a estadunidense, já merece uma espiada. Falando em caretice, pense em um momento em que isso estava no auge, no começo dos anos 1960. Pensou em contracultura? Talvez nenhum outro escritor tenha vivido tão orientado por esta (ausência de) regra quanto Burroughs.

Vida real conturbada, ficção desvairada

Lançado em 1959, Almoço Nu é normalmente considerado como parte do movimento Beat. Jack Kerouac trouxe On The Road ao mundo dois anos antes e continua lembrado como maior expoente desta literatura, mas compará-los é uma tarefa difícil. Resumir o trabalho de Burroughs em uma sinopse é mais ainda.

Em primeiro lugar, os capítulos – ou “rotinas”, como o autor preferiu nomear – não tem uma linearidade ou sentido lógico. As situações que os personagens de Burroughs encaram, entre altas doses de drogas e as aventuras em um submundo homossexual, podem ser lidas em qualquer ordem.  Aliás, até mesmo dentro destas “rotinas” existe um embaralhamento textual cujo propósito será abordado mais à frente.

Sobre as drogas, imagine alucinações narrativas que dão origem a outras drogas ficcionais (uma delas até entrou nesta lista), com efeitos ainda mais bizarros. Quem se esforçar um pouco neste exercício, terá um vago vislumbre do que existe nestas páginas.

Resenha de Almoço Nu, de William S. Burroughs

William S. Burroughs (1914-1997) em 1960.

A carga de absurdo surreal ganha outros contornos quando se descobre que existe um conteúdo autobiográfico ali. No entanto, as autoridades da época que condenaram o texto como apologia ao uso de drogas, entre outras práticas escandalosas, parecem ter ignorado intencionalmente alguns trechos. Burroughs deixa clara a ausência de motivação – a não ser a de continuar se drogando – na vida de um verdadeiro viciado, que ele compara a plantas.

O escritor falava com propriedade. Afinal, em inacreditáveis 83 anos de vida, experimentou absolutamente tudo o que foi possível em matéria de drogas, viciando-se na maioria delas. Os relatos mais pessoais são os mais interessantes, quando ele se mostra entusiasmado com um tratamento de desintoxicação através de apomorfina. Certamente, momentos em que ele escreveu sóbrio ou menos alterado.

William Lee, um dos tipos que circula pelas páginas de Almoço Nu, é alguém facilmente identificável com o próprio autor. Um viciado absolutamente à margem do resto do mundo, encarando qualquer piração em um hedonismo bizarro dentro de uma subcultura gay que nada tem de glamourosa. Muito pelo contrário, afinal, criaturas estranhas aparecem nos antros descritos no livro, em atividades que ninguém em sã consciência gostaria de testemunhar.

Ataque ao establishment, aos sentidos e à linguagem

Lançado hoje, talvez não se tornasse tão relevante, mas a contextualização é sempre importante. Já encostando em seis décadas de existência, esta obra mordeu a bunda do American Way of Life, no auge de uma repressão auto imposta. Apenas cinco anos depois do país viver uma caça às bruxas contra os quadrinhos (episódio comentado neste vídeo).  Burroughs demoliu todos os conceitos de decência e boa conduta vigentes naquele momento.

O ressentimento não é disfarçado. Vindo de uma família tradicional e de posses, ainda que comprometida pela Grande Depressão, o jovem Bill estudou em Harvard. Um modelo de vida tão conservador ativou o gosto desenfreado pelo alternativo e marginal. Apesar de assumidamente atraído por homens, foi casado com Joan Vollmer, por quem se dizia apaixonado. O casal morava no México em 1951, quando o escritor foi preso por matar sua esposa, tentando acertar um tiro em um copo colocado na cabeça dela.

Libertado graças a um sistema carcerário venal, o Tânger, em Marrocos, se torna seu novo refúgio, onde Almoço Nu é concebido.  Entre doses mastodônticas de drogas e as outras atividades marginais pelas quais já era conhecido, Burroughs escreveu freneticamente sem a menor preocupação com estruturas formais. O resultado é uma obra que não existe para ser assimilada como a maioria das pessoas espera. Entregar-se a essa leitura exige a disposição de deixar-se levar pelos sentidos, pura e simplesmente, como se estivéssemos sob o efeito de alguma droga.

Quaisquer interpretações pessoais da obra virão por esta postura (se vierem), sem tentar decifrá-la conscientemente. O motivo disso é que Burroughs buscou desconstruir o próprio conceito da linguagem, evidenciando as limitações da própria* com a fragmentação e rearranjo aleatório. É através disso que ele cunha o termo Interzona, designando uma área de realidade mais profunda, que a maioria das pessoas não enxerga.

*(Algo comentado brevemente na resenha de Desaplanar)

Resenha de Almoço Nu, de William S. Burroughs

Almoço Nu foi adaptado ao cinema por David Cronenberg em 1991, com um resultado que divide opiniões.

A necessidade do questionamento

Genialidade? Loucura? Não importa o veredito do leitor. Impossível ficar indiferente.  Não espere uma experiência facilmente digerível ou qualquer tipo de catarse ao final. Quem já refletiu, em algum momento, sobre linguagem e como ela pode ser uma prisão, precisa conhecer o Dadaísmo textual de William S. Burroughs. A quem nunca pensou nisso, esse é um ótimo momento para começar.

Contra-indicado somente aos excessivamente preocupados com a “decência” e a “moralidade”.

P.S.:  Aos que ainda não conferiram  a adaptação cinematográfica dirigida por David Cronenberg, nojentamente batizada aqui como Mistérios e Paixões, leiam o livro antes.

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