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10 Clássicos da Antiguidade que você precisa tirar da sua estante e ler!

Da antiguidade, sim, mas que permanecem tão atuais quanto nunca

Quem de nós, amigo leitor, não tem aquela pilha colossal de livros esperando para serem lidos – se é que vão – algum dia? A gente mal sabe por onde começar. Mas se você quiser, ao mesmo tempo, expandir seu conhecimento, sair um pouco da sua zona de conforto e, claro, se divertir, os clássicos da antiguidade são um bom lugar para começar a diminuir sua pilha.

Eles com certeza estão ali, em algum canto, bem no fundo da sua pilha, guardados para situações como a pior das tempestades, e quando a internet não está funcionando. Mas dê uma chance para a velha guarda – esses livros são alguns dos melhores trabalhos da ficção, história, filosofia e teatro do Ocidente. Afinal, eles sobreviveram a pelo menos 2.500 anos de críticos.

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Das estranhas palavras por trás dos mitos gregos que nos deslumbravam quando crianças, até os salões privados de antigos imperadores, passando por pioneirismos como debates políticos, pedagógicos e até mesmo proto-feministas, os gregos e romanos ainda podem muito bem surpreender o cidadão contemporâneo.

Sim, esses escritos foram extremamente importantes no desenvolvimento da literatura ocidental – o que é bacana, mas para chegar a uma lista como essa eles tiveram que ser genuinamente interessantes de se ler. Você pode expandir seus horizontes e ainda se divertir. Ou ao menos ter algo realmente impressionante para desfilar no busão e no metrô.

Ah sim, e como a gente não dá ponto sem nó, se você não tiver algum desses, em cada título nós deixamos uma sugestão de tradução boa, por um preço decente. Agradeça-nos depois.

1 – A Odisseia, de Homero

Muitas pessoas estão mais familiarizadas com a Ilíada do mesmo autor – particularmente por conta da abominação de Wolfgang Petersen, o filme Tróia. Mas também pelas lendárias estratégias usadas na guerra, aí incluso o mais lendário migué de todos os tempos, o cavalo pensado por Odisseu (também chamado de Ulisses) para os troianos.

O fato é que a jornada desse mesmo guerreiro e rei de volta para sua terra, Ítaca, é mais do que simplesmente um extensão dessa primeira história, e também mais do que simplesmente uma aventura excitante e sangrenta. Seus personagens são transformados em porcos e cegam ciclopes, mas o poema também impõe grandes questionamentos sobre as motivações humanas.

O que significa amadurecer na Grécia Clássica, como no caso do filho de Odisseu, Telêmaco? Odisseu está realmente dizendo a verdade quando narra seus sucessos? A terrível carnificina que ele executa sobre os pretendentes da diligente Penélope é justificada?

As respostas cabem a nós.

2 – Poemas, de Horácio

Pense em alguém com uma vida agitada. Quinto Horácio Flaco viveu durante um dos períodos mais conturbados – mas ao mesmo tempo gloriosos – de um dos maiores impérios que o planeta já viu. Ele ficou do lado dos assassinos de Júlio César quando eclodiu a Guerra Civil em Roma; mas pouco depois ficou ao lado de seu sobrinho, Otaviano, quando esse prevaleceu sobre o Segundo Triunvirato.

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Horácio!

Suas motivações, no geral, eram simples – apreciador da beleza e da paz, Horácio abominava conflitos, e isso se reflete na sua poesia naturalista e quasi-pacifista – alguns doxógrafos apontam até mesmo influências da filosofia epicurista sobre seus poemas.

Isso implicou na recusa de Horácio em escrever sobre a glória e surgimento – tarefa que coube ao seu colega e contemporâneo, Virgílio, que aparecerá mais embaixo nessa lista. A obra de Horácio se divide em Sátiras, Epístolas, Odes e Epodos. Infelizmente, pouco chegou até o nosso tempo. Mas o que chegou, dá uma medida de seu talento.

3 – Hipólito, de Eurípedes

Hipólito é considerada umas das tragédias menores de Eurípedes, e no geral menos conhecida do que Medéia, As Troianas ou Orestéia. Mas isso não diminui em nada sua potência. Hoje pouco encenada, ela aguarda ser redescoberta – uma obra que fala ao nosso tempo com temas como misoginia, culpa e laços familiares partidos.

Hipólito é um anti-herói virginal e devotado à deusa da caça, Artemis. Mas, como deixado bastante claro por um macabro e assustador discurso feito pela deusa do amor, Afrodite, logo no início da tragédia, ele está destinado a um fim terrível por alimentar o amor de um mortal por uma deusa.

Essa peça é simplesmente um dos melhores exames sobres como pessoas e suas ações raramente se encaixam em um modelo maniqueísta de “certo e errado”, sendo todos – e ao mesmo tempo ninguém – culpados pela tragédia.

4 – Antígona, de Sófocles

Uma das três peças que compõem a moderna Trilogia Tebana – moderna, pois Sófocles pensou os três textos em trilogias distintas, mas este, junto com Édipo Rei e Édipo em Colono, foram os que chegaram até nós.

A tragédia de Antígona é um dos mais simbólicos exames da relação entre indivíduos, sociedades e Estado. Sustentado por temas como desobediência civil, conflitos entre gêneros e laços familiares, a tragédia de Antígona começa quando esta enterra seus irmãos derrotados em batalha – traidores da sua cidade de Tebas – contra as ordens do Rei.

Mais um dia feliz no teatro ateniense – mas uma leitura necessária. Se o amigo leitor tem alguma dúvida disso, dê uma olhada nessas mulheres refugiadas da Síria interpretando o texto em toda sua potência – e tenha um vislumbre do porquê obras como essa atravessarem eras.

5 – Lisístrata, de Aristófanes

Uma comédia particularmente influente oriunda do século V A.C., seu autor é um dos mais famosos autores satíricos e cômicos da história. No texto, a heroína Lisístrata lidera as mulheres de Atenas em um protesto que envolve uma greve de sexo em escala municipal, até que os líderes (homens) estabeleçam uma paz definitiva com Esparta.

É um fato que você com certeza já ouviu alguma história parecida, afinal, mesmo Spike Lee alegou que esse texto chegou a ser uma influência para seu recente Chi-Raq. É um fato também que a comédia grega pode parecer bizarra para nós, mas é impossível não se conectar ao texto. Ignore as piadas internas políticas (na maior parte sobre como políticos homens são efeminados e ou vulgares).

A genialidade da história fala por si própria.

6 – A República, de Platão

Uma obra de brilhantismo ímpar, e provavelmente um dos livros mais influentes da história humana, A República é um breve resumo do que pensava uma das maiores mentes que já caminharam sobre esse pálido ponto azul. Abarcando temas como justiça, organização política e social, educação, moralidade, artes e beleza, não há quase nada que Platão não tenha examinado no seu texto seminal.

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Como se não bastasse, ainda existe aqui um exercício estilístico que torna A República uma obra a parte de sua época – ao mesmo tempo em que se trata de uma reflexão filosófica, ainda existe uma centelha de ficção, com Sócrates, narrando em primeira pessoa, a construção de uma cidade perfeita e governada apenas pelos mais sábios.

Uma utopia que antecipa em séculos uma proto-ficção científica, levantando debates entre seus leitores se realmente se trata de uma utopia intelectual – ou uma terrível distopia fascista, onde os desprivilegiados intelectuais são deixados para trás.

A medida da influência e importância dessa obra pode ser estabelecida através de uma das alegorias contidas nela – o famigerado Mito (ou Alegoria) da Caverna. Ensinada por 11 entre 10 professores de filosofia, deixe um pouco seu ranço das aulinhas da escola de lado, e aprecie toda a potência de uma metáfora de 2.400 anos que ainda é perfeitamente aplicável para nossa própria sociedade.

7 – Eneida, de Virgílio

Lembra que nós dissemos que Otaviano Augusto, primeiro imperador de Roma, tinha encomendado um poema para Horácio, que este recusou? Bem, Virgílio aceitou. E compôs um épico rivalizado somente, talvez, pelos de Homero.

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Eneias, imortalizado na tela de Filippo Falciatore!

Embora em sua época fosse essencialmente uma propaganda política, ela o é de dar inveja até mesmo a Goebells. É impossível não ler Eneida e não celebrar toda a glória da Cidade Eterna. Contando a história de sobrevivência de Eneias, um dos príncipes de Tróia que resistiram ao massacre grego, o poema celebra a lenda de Roma como uma cidade que começou do nada para conquistar o mundo – o que, a despeito do caráter mítico do texto, não deixa de ter um fundo conceitual de verdade.

A nota curiosa é que Virgílio terminou de escrever a obra, mas não a considerava “pronta”. Fato é que, quando este adoeceu, ele pediu para que o texto fosse destruído por dois amigos – que, para nossa imensa felicidade, se recusaram a aquiescer ao pedido. Afinal, sem ele, provavelmente não teríamos outros petardos da história literária como Orlando Furioso, O Paraíso Perdido e – particularmente importante para nós, lusófonos – Os Lusíadas.

8 – Cartas a Lucílio, de Sêneca

Sêneca é outro que viveu uma vida intensa. Afinal, ter sido imperador regente de Roma enquanto era, concomitantemente, tutor de ninguém menos que Nero é tarefa para poucos. Pense duas vezes antes de reclamar que seu trabalho anda te dando dor de cabeça de novo.

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Lúcio Aneu Sêneca!

Não à toa, Sêneca era praticante da filosofia estoica – que pregava o desapego as coisas materiais e a vida em conformidade com a natureza. Só com esse nível de calma e tranquilidade internas para suportar o turbilhão no qual ele se viu envolto.

No fim de sua vida, exilado em “prisão” domiciliar como governante da Sicília por Nero (maldito ingrato – mas o que se esperaria desse cara, certo?), Sêneca se dedicou a escrever 124 cartas para seu discípulo, Lucílio, explicando os fundamentos da filosofia estoica – ao mesmo tempo, oferecendo reflexões preciosas sobre a natureza da vida humana, do tempo, da política e de inúmeras outras coisas necessárias para se viver uma vida plena. Todas belamente bem escritas, com um tom sempre gentil, como se ele estivesse falando não apenas com seu estudante, mas também conosco.

Curiosamente, talvez seja esse o caso. A maior parte dos historiadores e filósofos concorda que Sêneca compôs, na verdade, um trabalho de ficção, com Lucílio sendo um interlocutor abstrato, a exemplo do que Platão fazia em seus textos. Se é este o caso ou não, a obra de Sêneca permanece brilhante e acalentadora da mesma forma.

9 – Metamorfoses, de Ovídio

Uma explosão eufórica de história interconectadas sobre mudança e transformações, do ponto de vista de um dos mais pioneiros e inovadores artistas de todos os tempos. Talvez essa seja uma descrição apropriada para essa obra. A opus máxima desse autor romana, Metamorfoses foi – e permanece sendo – um dos melhores e mais belos acessos ao mundo do mito clássico. Eu sei, você passou batido quando seu professor te mandou ler isso. Agora deixe de ser bobo, e volte lá.

E talvez você descubra porque essa obra inspirou tantos artistas do Renascimento a trazer de volta a beleza e as cores ao mundo – o que significa, além de tudo, que Metamorfoses estende sua influência para múltiplas áreas da cultura.

Muitas das histórias são bastante macabras até – com filhas se apaixonando por seus pais, e amantes traindo um ao outro. Mas trata-se apenas daquele espírito clássico, pré-cristão, onde existia uma outra moralidade, e a metáfora era mais importante do que a palavra em si. Talvez por si, ela permaneça tão apreciável, mesmo na atualidade.

10 – Satíricon, de Petrônio

Uma verdadeira metralhadora de críticas sociais do seu período, o Satíricon atira para todos os lados da sociedade romana de sua época – e acerta em quase todos. O momento mais emblemático da obra é, certamente, o Banquete de Trimalquião – onde um sujeito que pode ser muito bem descrito como um “novo-rico” contemporâneo é detonado pelos seus pares, por conta de seus péssimos gostos.

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Interessante é notar que, por se tratar de uma observação bastante aproximada de uma sociedade de classes divididas como era Roma no século I D.C., o Satíricon é um livro que pode muito bem ser usado para zombar dos patéticos conflitos de classes que a própria sociedade brasileira vive hoje – conflito que os mais esclarecidos sabem muito bem que são alimentados também por quem sofre com eles, como a famigerada e abobalhada “classe média”.

A despeito das questões políticas, a comédia de Satíricon é um show à parte. A quantidade e qualidade de comida que se consome é, ao mesmo tempo, mítica e revoltante. Os episódios narrados estão em sintonia híbrida, ou seja, passagens cômicas são intercaladas com outras trágicas de forma natural e harmônica.

O narrador parte do retrato puramente zombeteiro da cena para narrar uma desgraça, articulando-se por meio de expressões solenes, artifícios retóricos, da mesma forma que se apresentam palavras do idioma popular, às vezes vulgares demais. Passagens maliciosas, baixas, descritas e acobertadas por um fantástico domínio da arte retórica por parte de Encólpio, o narrador-personagem, que se mantém ao mesmo tempo fiel e avesso à retórica.

 

E aí, amigo leitor? Gostou da nossa lista? Não se esqueça de comentar e compartilhar! Agora ponha sua toga, encha uma taça com seu melhor vinho e vá ler!

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  • Zé Márcio

    Satíricon estrategicamente colocada por ultimo, ou seja: O Cara lê as nove anteriores e fica com aquela sensação de que a antiguidade era muito superior aos nossos dias. Aí vem o Encólpio e diz que, na verdade, a humanidade é a mesma merda “desde sempre”. Parabéns pela lista e pelo trabalho que vocês desenvolve aqui no Formiga. Sinceros votos de vida longa.

    • Raphael Ranieri

      Não negamos nem confirmamos sua dedução hahaha! Mas pense que Hipólito e Antígona também não mostram o melhor lado da humanidade…
      Obrigado pelo elogio gentil e pelo comentário, Zé! Fique conosco! Um grande abraço!