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Thimbleweed Park – Uma ode aos clássicos point and click!

Thimbleweed Park recria o espírito de uma época mais tranquilo dos games

Embora jogos no estilo visual novel estejam cada vez mais encontrando seu espaço no mercado ocidental – especialmente após o sucesso da Telltale no segmento – os adventure point and click clássicos ao estilo Lucas Arts, como The Dig e The Secret of Monkey Island, parecem cada vez mais escassos, especialmente em lançamentos de qualidade.

Num mundo cada vez mais dinâmico, faz sentido que a escolha de intercalar ações simples com a tomada de decisões baseada na leitura de falas curtas – muitas com limite de tempo – roube a cena do tipo de puzzle que deixa o jogador perdido com um item na mão, explorando vezes sem conta o cenário, sem saber como ou onde usa-lo para progredir na história.

thimbleweed park

Essa jogabilidade anos 90, que levou muitos de nós ao quase desespero por temer jamais descobrir o desfecho de enredos e personagens aos quais já estávamos apegados, retorna em Thimbleweed Park, através de uma história improvável, que transborda carisma e instiga a curiosidade desde o primeiro momento.

Desenvolvido pelo estúdio Terrible Toybox, pertencente aos ex funcionários da Lucas Arts Ron Gilbert e Gary Winnick, o jogo é um sucessor espiritual do clássico Maniac Mansion, desenvolvido em pixel art, com características que de cara nos fazem lembrar de suas origens. Não apenas o modelo side scroller, o roteiro de qualidade e escolhas primorosas de voice acting se apresentam como características centrais da obra, mas o próprio plot, capaz de criar e manter uma forte sensação de mistério, homenageia seu antecessor.

Um noir divertido

Numa cidade bastante peculiar, onde o non sense é parte natural da vida, uma dupla de detetives encontra um corpo jogado no esgoto do sombrio parque Thimbleweed – e dá início à investigação do crime.

Brincando de ironizar as limitações do passado, temos aqui personagens que se repetem propositalmente como o xerife da cidade e o legista, que além de partilhar a mesma skin, tem inclusive o mesmo nome, apenas com uma pequena alteração gráfica que declara a intenção de parodiar uma época onde recursos desse tipo se faziam presentes mesmo em jogos de maior orçamento.

Uma vez iniciada a jornada, as interações do jogador são as mais básicas: Um inventário que vai se preenchendo com itens coletados pela cidade  – e cuja finalidade precisa ser descoberta e as opções de mexer em objetos – abrir portas e conversar com os NPCs, que são figuras bem construídas e complexas, que concentram grande parte do valor do game.

Entre eles temos uma dupla de encanadores que aparece fantasiada de pombos, sempre soltando piadas ácidas sobre os moradores da cidade; um fantasma depressivo, que terá papel central na investigação devido a sua habilidade de atravessar paredes; e uma adolescente nerd que, junto com um palhaço inicialmente hostil e irônico, irá protagonizar uma subtrama aparentemente independente.

A ideia dos sub plots denuncia a genialidade dos roteiristas, pois há momentos em que eles parecem se afastar do propósito do game, nos fazendo questionar sua inserção, e seguir apenas pela diversão que proporcionam.

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Porém, com atenção – e pode parecer dispensável dizer isso – mas sim, é um game para se dedicar integralmente, sem as pequenas interrupções que não existiam nos anos 90, como redes sociais e smarthphones. Tudo se liga para o jogador que tem boa memória, e decide embarcar na investigação incorporando a ideia de ser um dos protagonistas.

Essa mudança de estilo de vida, aliás, é mencionada na tela inicial do game, em tom bem-humorado, ao oferecer as opções de modos casual e difícil. A primeira oferece uma experiência acessível ao jogador que desconhece o que era gastar horas perdido no mapa, para finalmente precisar pedir ajuda a amigos e familiares para resolve-lo, numa época em que o Google ainda não era uma realidade.

Ela possibilita uma experiência fluida e sem frustrações, com dicas a serem acessadas pelo aparelho telefônico e até um itinerário para cada personagem, que vem disfarçado de bloco de notas. Seu preço, no entanto, é uma experiência mais pobre, pois ao subtrair alguns puzzles e descobertas, parte dos diálogos cativantes também ficam restritos ao jogador que se arrisca no hard mode. Esse sim, oferece a experiência definitiva, que irá agradar aos amantes de um bom desafio, ao mesmo tempo que permite 100% de aproveitamento do conteúdo.

Mantém o interesse do jogador de maneiras simples

Ao contrário da maioria dos jogos com diferentes modos de dificuldade, aqui não há curva de aprendizado. Cada modo fornece sua própria experiência e o casual não serve como preparação para a maior dificuldade. É tudo por sua conta e risco, como no passado. Fica claro na descrição que é dessa forma que o jogo foi pensado originalmente, uma vez que recompensa nossa angústia com mais humor e conhecimento dos personagens – que o jogador simplesmente não vai querer deixar para trás depois de conhecer.

Apesar de dividida em 5 atos, a exploração é um tanto aberta. Isso permite que nós alteremos eventos, muitas vezes acidentalmente, através da resolução de puzzles que só iriam se revelar mais adiante, abrindo um leque de múltiplos finais. E embora esse modelo não agrade a todos, a equipe teve o cuidado de adicionar pequenos bônus a cada novo playthrough, como novos diálogos, itens e interações que embora breves, provocam agradáveis surpresas, e renovam a expectativa sobre como será o novo desfecho. E a maioria deles é fato relevante, fazendo valer uma nova jogada sem decepções, até por se tratar de um game curto.

Thimbleweed Park oferece uma verdadeira viagem no tempo, ao se declarar disposto a reviver uma jogabilidade ultrapassada pela indústria, e mesmo assim capaz de nos deixar fascinados com a beleza e inteligência de seus detalhes do começo ao fim.

Surpreendente, emocionante e engraçado na medida certa, o enredo misterioso não permite que se fale muito a seu respeito, sob pena de arruinar o foco de uma experiência tão forte e imersiva a ponto de nos permitir acreditar num bem-sucedido futuro para a Terrible Toybox em sua missão de reviver o auge do nicho point and click.

Curte um point and click? Você conhece os trabalhos da Amanita Design??

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