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Splatoon 2 – Coisas que só a Nintendo sabe fazer!

Splatoon 2, apesar de ter problemas, honra a tradição da Nintendo de oferecer o máximo de diversão possível

Podemos dizer sem exageros que o primeiro Splatoon foi uma verdadeira revolução no universo dos jogos multiplayer, especialmente se tratando de shooters. Lançado em maio de 2015 para Wii U, o jogo trazia um novo olhar para um gênero que muitos consideravam desgastado além de qualquer possibilidade de renovação.

splatoon

Com um visual alegre e cartunesco que nos remete as atrações do canal Nickelodeon e a inconfundível originalidade da Nintendo, o resultado foi uma identidade única capaz de atrair o interesse de jogadores de todas as idades, e mais que isso, mantê-los presos ao game e as suas atualizações por toda vida útil do console e mesmo além dela, visto que seus servidores estão ativos e com salas cheias até hoje. Isso numa geração em que conteúdos on line, mesmo os elaborados por empresas com anos de experiência no assunto, tendem a cair no esquecimento em poucos meses após seu lançamento.

Diante de tamanho fenômeno era natural que o anúncio de uma sequência para o Switch apenas dois anos depois despertasse, além de empolgação, certa desconfiança dos fãs quanto a possibilidade da Nintendo repetir a proeza e conseguir entregar um game maduro o bastante num intervalo tão curto de tempo.

Seguindo a mesma progressão que o tempo real, Splatoon 2 se passa exatamente dois anos após o primeiro e embora traga uma série de mudanças na cidade de Inkopolis, como um hub modernizado, novas lojas e bandas, a mais notória sem dúvida é a ausência das Squid Sisters Callie e Marie. E aqui entra a deixa para uma campanha single player sobre a qual muitos mistérios e promessas foram lançados nos meses que antecederam o lançamento do jogo.

Logo ao chegar na cidade o jogador verá Marie desaparecer diante de um bueiro, curiosamente vestida com roupas típicas japonesas. Ao segui-la, descobrimos que o Great Zapfish está novamente desaparecido, e com ele sua irmã Callie. Com uma duração de aproximadamente seis horas, que pode se estender até o dobro disso caso o jogador busque 100% dos colecionáveis, a aventura não chega a se justificar em nenhum aspecto, e só consegue frustrar aqueles que acompanharam por meses as pequenas deixas da Nintendo nos instigando a esperar por um conteúdo mais robusto e cheio de surpresas.

Com os mesmos conceitos do primeiro jogo, onde momentos de plataforma se alternam com a necessidade de pintar o cenário e jogar tinta nos inimigos para progredir, nenhum dos cinco mundos, com seus vários estágios, empolga. E pior, não é visível nem mesmo um esforço aparente da Nintendo para que isso aconteça.  É fato que o core de Splatoon gira em torno do multiplayer, porém partiu da empresa insinuar um conteúdo elaborado, e criar toda uma aura de complexidade em torno do sumiço de Callie e do que teria motivado o afastamento das irmãs em primeiro lugar.

No entanto, conforme o jogo avança não demoramos a notar que a extrema simplicidade e falta de desafio do primeiro título se repetem, apesar da introdução de novas armas e de um level design melhorado. Em termos de gameplay, a sequência repete o erro do primeiro jogo ao  oferecer uma jogabilidade com soluções totalmente diversas das que serão utilizadas on line. Dessa forma os novatos que esperam se ambientar primeiro com a realidade do jogo na segurança da campanha, se descobrem igualmente perdidos ao enfrentar oponentes reais.

Sobre o desenvolvimento do plot, de tão raso pouco pode-se dizer sem rapidamente chegar no terreno dos spoilers.  A presença de Sheldon desde o começo do jogo nos dá a impressão de que esse personagem será melhor explorado, mas assim como a relação entre as irmãs, todas as ideias de aprofundamento são falsas, e chegamos no último chefe com uma desconfortável sensação de lacunas não preenchidas. E por falar em chefe, assim como no primeiro jogo, eles salvam o single player, novamente revelando um elenco de figuras extremamente criativas e engraçadas, embora não tão surpreendentes quanto as de Splatoon 1.

Proposta que surpreende

O grande mérito da experiência individual de Splatoon 2 é sem dúvida o roteiro. As falas de Marie enquanto nos orienta não apenas são hilárias ao seguir os acontecimentos padrão do jogo, como também acompanham as decisões tomadas pelo jogador. Caso entremos num estágio para buscar colecionáveis logo após sair dele, por exemplo, ela nos repreende com frases ácidas sobre perfeccionismo e instiga a seguir adiante. Esse foi de fato o único elemento que me estimulou a seguir com a campanha, e mesmo tentar novas abordagens afim de ouvir as críticas da personagem ao meu modo de jogar, a despeito da total ausência de uma evolução que a justificasse como sequência.

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Como já mencionado, é no multiplayer que o jogo brilha e tem seu potencial revelado. Novamente investindo na formula de partidas rápidas, com duração de três minutos, não há outra palavra além de viciante para definir a experiência. Divididos em dois times de quatro jogadores, nossa missão não é matar os adversários, mas sim deixar o máximo possível do cenário pintado com a cor de nossa equipe, e quando a tinta de cada arma acaba, é na forma de uma lula que mergulhamos nela para nos reabastecer, bem como para tentar evitar ataques adversários.

Dita assim, a proposta pode soar boba e mesmo infantil, mas a verdade é que uma vez iniciada a jogatina, torna-se quase impossível não emendar diversas partidas seguidas, e descobrir com surpresa que jogamos várias horas ao final de uma sessão que deveria ser rápida. E embora o time vencedor ganhe um número maior de pontos, a derrota não tem o peso de desestimular os iniciantes, pois no final todos recebem uma quantidade justa de xp. Não por acaso, alcancei o nível 10 em meu primeiro dia com o game e a partir daí já pude participar do modo rankeado, onde uma maior habilidade se faz necessária.

Nesse modo ao invés de vencer por pintar a maior parte do cenário, temos modalidades mais tradicionais em jogos de mapa, como o conhecido Tower Control e as Splat Zones, que fazem os times disputarem por quem controla a maior parte de apenas alguns pontos específicos do mapa.

Em ambos os modos a diversão é garantida e não há elogios que bastem ao analisarmos o conteúdo oferecido por si. Porém, assim como falado em relação a campanha não há como ignorar que se trata de uma sequência e novamente pouco é oferecido para valida-la como tal.

As armas, assim como os acessórios e roupas comprados nas lojas são quase os mesmos do primeiro jogo, em geral contando apenas com pequenas modificações em habilidades secundarias. O mesmo vale para os oito mapas, todos muito divertidos e bem planejados, mas em sua maioria reaproveitados.

E já que estamos falando de uma sequência em um novo sistema, mais moderno e capaz de suportar evoluções não apenas de gameplay, mas referentes a tecnologia que todo game on line demanda para fluir sem interrupções que comprometam o entretenimento, é preciso mais uma vez apontar a insistência da Nintendo em se manter atada a velhas limitações.

A busca por partidas, por exemplo, começa com um prazo de 120 segundos para que oito jogadores sejam encontrados, da qual não há como desistir sem fechar o aplicativo. Mais de uma vez me vi presa nessa tela porque o jogo “esqueceu” de seguir a busca após encontrar apenas dois ou três players e tive que esperar o tempo limite se esgotar, pois fechar o aplicativo implica ver novamente toda a abertura das novas apresentadoras, Pearl e Marina, antes de ter a chance de jogar.

Também no que diz respeito a troca de armas e acessórios, a situação chega quase a ser absurda para os dias atuais. Não bastasse o tempo natural de espera para fechar a sala, é preciso sair do lobby para alterar o seu set, e só então voltar para encarar a contagem desde o começo. E quanto ao chat de voz, esse recurso lançado pela empresa em forma de aplicativo para celulares e tablets é tão truncado e pouco funcional, que poderia render um artigo só para analisa-lo em todas as suas risíveis falhas. Se bem que o recurso sequer foi lançado no Brasil, e como não está disponível nas lojas de aplicativos nacionais, força aqueles que tem grupos de amigos a usar recursos como Skype e Discord para elaborar suas estratégias.

Outra dinâmica inexplicável é a troca de mapas, que acontece a cada duas horas e tira todos os jogadores das salas montadas, inclusive dos lobbys fechados entre amigos. Não bastasse o fato de jogar em apenas dois cenários por um período tão longo, quando a variedade permitiria um melhor planejamento, nos vemos simplesmente “caindo” dos esquemas de jogo já montados para ter que recomeçar do zero em função da troca.

Lags constantes e falhas de conexão, especialmente em horários de pico e nas duas Splatfests que participei até agora, sendo uma delas anterior ao lançamento, também são constantes. Servidores despreparados para o número imenso de jogadores que a empresa sabia que iria alcançar podem levar a quedas tão sequenciais que acabamos por ser banidos, pois não bastasse a inabilidade da Nintendo em montar um ambiente on line estável, tais desconexões são entendidas pelo game como rage quits e nos punem com cinco minutos de suspensão.

O salmão garante a diversão

Após a necessidade de apontar tantos pontos negativos num game de tanto valor, resolvi fechar o texto com o que considero a maior adição desse título, a que mais se aproxima de fazê-lo merecer ser chamado de sequência: o modo Salmon Run.

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Embora ele só apareça em forma de evento em determinados horários, trata-se do tipo de inovação que caracteriza a Nintendo como a grande desenvolvedora que é. Aqui temos a chance de jogar de forma cooperativa com quatro amigos ou com jogadores randômicos, no modo freelance contra uma horda de peixes para roubar seus ovos. É exatamente isso. Tão politicamente incorreto quanto divertido, o jogo nos faz lutar contra uma variedade de chefes chamados Salmonid, cujos pontos fracos variam de uma cauda sensível a tiros, compartimentos que explodem com bombas de tinta, ataque corpo a corpo e até mesmo um peixe que se apresenta já na frigideira, nos dando a chance de atirar em sua cauda enquanto ele é frito.

Dividido em três rounds, cada um com uma meta de ovos a ser coletada para que a partida seja finalizada com sucesso, a dificuldade do modo vai se tornando brutal a partir de um certo nível de avanço, o que não chega a ser um problema, já que a diversão e o delicioso caos das partidas cresce na mesma proporção.

O trabalho em equipe nesse modo foi particularmente bem planejado, pois cada jogador pode carregar apenas um ovo até a cesta de coleta, e as armas são distribuídas aleatoriamente no modo freelancer, forçando mesmo grupos que não se conhecem a trabalharem juntos para aproveitar o potencial de cada uma contra inimigos específicos.

Além do que não basta coletar todos os ovos, é preciso ter pelo menos um membro do time vivo até o final do tempo de jogo, nos fazendo sempre buscar a localização de nossos parceiros e salva-los quando necessário.

Embora conte apenas com um mapa, que se expande ou diminuiu a cada partida, forçando o jogador a elaborar novas táticas não só de combate, mas de fuga, Salmon Run oferece o tipo de desafio que faz o jogador querer se aprimorar e mesmo perdendo, sempre tentar “só mais uma vez” a vitória.

Com uma apresentação visual mais polida e elaborada que o primeiro jogo, trilha sonora empolgante no multiplayer e a força da jogabilidade intuitiva que o consagrou desde os tempos do Wii U, Splatoon 2 é sem dúvida um jogo fantástico, digno de se tornar novamente um ícone no Switch.

Embora muitas falhas tenham sido apontadas, nenhuma delas chega nem perto de superar a magia que só a Nintendo é capaz de oferecer em seus títulos. No entanto – e justamente por isso – a empresa estabeleceu ao longo dos anos patamares de expectativa e qualidade muito altos, que costuma atingir e superar na maioria de seus lançamentos, o que não é o caso aqui.

Caso fosse um relançamento “deluxe” apenas para preencher a lacuna do título no Switch, como aconteceu com Mario Kart 8, o resultado seria adequado. Já como sequencia recebemos o tipo de conteúdo requentado que normalmente se espera de empresas mais comerciais e menos idealistas que a Big N.

Daí o contradição de saber que tenho em mãos uma das experiências mais empolgantes do console e ao mesmo tempo me sentir desapontada por ela não passar de mais do mesmo, ainda que isso deixe de importar a partir do momento em que começo uma sessão e mergulho nessa diversão pura e despretensiosa da qual tanto sentia falta desde a morte do Wii U.

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