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Silenciados – Uma chance rara de ouvir as verdadeiras vítimas!

Silenciados dá voz a um grupo marginalizado na cultura brasileira

Dando seguimento a um tipo de artigo que foi ao ar na semana passada, com a matéria sobre o documentário Desarmadosque consiste em apresentar ao público projetos que têm enfrentado dificuldades de distribuição, desta vez, pudemos assistir, em sessão organizada dentro da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), à nova produção do cineasta brasileiro Daniel Moreno, Silenciados.

Depois do sucesso de seu último filme, o documentário Reparação, o diretor, juntamente com a sua equipe, decidiu direcionar a atenção e  câmera para os dramas enfrentados por pais cujos filhos foram assassinados por delinquentes em crimes de latrocínio e homicídio doloso.

Entrevista com Daniel Moreno, diretor do documentário Silenciados.

Filmado em um preto e branco contrastado e dramaticamente intenso, através de uma lógica visual que vai aproximando a câmera dos rostos a partir do momento em que os relatos vão ficando cada vez mais íntimos, o filme vai na contramão do costume de mostrar a sociedade brasileira da perspectiva dos bandidos e, em um ato de bravura e coragem, dá voz às verdadeiras vítimas desses crimes hediondos: os pais e parentes que perderam os seus entes queridos.

Aliás, essa foi uma das maiores preocupações dos realizadores. A literatura e o cinema brasileiros estão repletos de criminosos que praticam atos desumanos e que, em uma suavização feita através da caneta dos escritores e das lentes dos cineastas, se transformam em figuras passíveis de empatia. Mas, nunca temos a chance de nos aproximar da dor sentida por pessoas que tiveram parentes retirados do convívio familiar pelas mãos ensanguentadas desses criminosos. No entanto, Silenciados está aí para acabar com essa tendência monstruosa.

Disponível atualmente como uma minissérie de quatro episódios (que podem ser locados através deste link), o documentário também se transformou num longa metragem para ser exibido nos cinemas. Financiado inteiramente pelos próprios realizadores, o projeto foi um trabalho de amor e cada um dos seus frames deixam isso muito claro para o espectador.

Assim como fizemos com Lion Andreassa, o diretor de Desarmados, entrevistamos com exclusividade o cineasta por detrás deste importante projeto. Na conversa, falamos sobre o tema do documentário, os tipos de financiamento existentes no país e a atual situação do cinema brasileiro.

Entrevista com Daniel Moreno, diretor do documentário Silenciados.

Daniel Moreno, diretor de Silenciados.

Entrevista com Daniel Moreno

Formiga Elétrica: Qual foi a origem do projeto Silenciados?

Daniel Moreno: Eu e a minha equipe temos como princípio o de fazer filmes que possam realmente tocar o maior número de pessoas possível. Nós sabíamos que o tema deste documentário não era muito abordado no cinema nacional. Os filmes feitos no nosso país falam muito de criminalidade e justiça, mas quase nunca do ponto de vista de um familiar vítima da violência. Aliás, há uma longa tradição no cinema nacional de fazer obras a partir da perspectiva do criminoso. Vendo isso e tendo em mente que há muitas histórias a serem contadas, afinal de contas, esses casos de violência se repetem num número avassalador, nós fomos atrás de um número pequeno, mas representativo desses casos e demos voz às pessoas para que as suas histórias de lamento e superação ficassem registradas e disponíveis para as gerações futuras.

 

FE: Assistindo ao documentário, eu lembrei de ter visto recentemente nos noticiários alguns dos casos abordados. Como aconteceu a seleção dessas pessoas?

DM: Como nós não poderíamos nos deslocar para muito longe, decidimos por entrevistar pessoas de São Paulo. Na verdade, um caso foi levando ao outro. No início, me comovi com uma história que li no Facebook sobre uma garotinha que foi assassinada pelo primo. A partir daí, eu fui sendo levado a outras histórias, ou seja, uma mãe chamava a outra. Portanto, não foi algo planejado. E esta é uma das coisas que mais gosto sobre os registros documentais: não acho que dê para começar a realizar um documentário tendo em mente um formato e limites definidos. Isso funciona mais para longas de ficção. Sendo assim, o projeto começou a andar com as próprias pernas e foi ganhando um forma que não tínhamos planejado previamente.

 

FE: Todas as pessoas que vocês abordaram aceitaram participar do documentário imediatamente ou existiu alguma dificuldade?

DM: Pensando sobre esse assunto, percebi algo curioso: todas as vítimas mostradas no filme foram assassinadas por homens. A nossa equipe de filmagem era inteiramente formada por homens. Mas, dos nove familiares entrevistados, sete eram mulheres, e nenhuma me conhecia diretamente. Portanto, foi um voto de confiança que elas me deram. E em nenhum momento eu senti desconfiança ou reserva. Nós fomos tratados de uma maneira muito generosa e carinhosa por todas essas pessoas. Eu só tenho agradecer a elas. Este projeto só ganhou vida graças ao apoio irrestrito que tivemos dessas famílias.

 

FE: O documentário foi filmado em preto e branco. Vocês partiram de alguma influência para fazer essa opção?

DM: As pessoas têm uma memória afetiva do preto e branco. Os documentários mais pungentes da história foram filmados com essa estética. Além disso, é um dos recursos visuais mais impactantes e dramáticos que existe. Como nós queríamos atingir o público emocionalmente, essa escolha pareceu correta.

 

FE: Silenciados é, ao mesmo tempo, um longa e uma minissérie. Como isso aconteceu?

DM: No início, nós não tínhamos ideia do formato que o projeto iria ter. Como trabalhamos sem editais e leis de incentivos, gostamos de gozar da liberdade de ver até onde as nossas ideias nos levam. Depois de um tempo, percebemos que tínhamos material para um longa e uma série. Então, pensamos em editar no formato de um longa para que ele pudesse ser exibido nos cinemas, numa sala ou auditório, mas também em dividir em quatro partes para ter todas as histórias completas. Assim, conseguimos chegar nessas duas versões.

 

Entrevista com Daniel Moreno, diretor do documentário Silenciados.

 

Fe: Agora, quais são os seus planos de distribuição?

DM: A distribuição é um problema eterno da indústria cinematográfica brasileira e, evidentemente, ele não se resolve com a intervenção estatal. Porque se isso fosse suficiente, ele já já estaria resolvido desde o governo do Getúlio Vargas. Dos anos 30 até os dias de hoje, você tem essa situação. E, nesse meio tempo, só ocorreu intervenção estatal na intenção de resolver o problema da distribuição. Não é preciso ter estudado cinema para perceber que não é assim que se soluciona essa questão. Além dessa situação que é natural ao cinema brasileiro, o Silenciados também enfrenta o problema de não estar chancelado pela máquina de produção e distribuição de filmes subsidiado pelo Estado. Hoje, essa máquina se auto sustenta. Isso significa o seguinte: tem-se muita injeção de dinheiro público e esse alto investimento leva a um excesso de oferta de produtos. Como a oferta é maior do que a procura, há um problema de exibição dentro dessa máquina, ou seja, o próprio sistema não consegue encontrar espaço para exibir a quantidade de filmes que ele mesmo produz. Então, uma obra que está fora desse sistema enfrenta uma dificuldade dobrada. Silenciados não foi rejeitado por nenhuma distribuidora porque ele sequer foi visto por elas. Não é preciso ir muito longe para enxergar um problema sério nisso.

 

FE: Essa é uma regra que se aplica a quase todos os tipos de mercado. Como o Cinema também é uma indústria, isso acaba por prejudicá-la?

DM: Com certeza. Como o Estado está a todo momento intervindo, o equilíbrio entre a oferta e a procura nunca acontece. Se o Estado deixasse que as pessoas fossem atrás de um produto por conta própria e o os realizadores fizessem a mesma coisa com o tipo de filmes que querem vender, nós teríamos no país uma indústria muito mais rentável e saudável. Caso a situação atual fosse como a que eu acabei de descrever, um documentário como Silenciados teria uma vida dentro do circuito. Mas, na situação atual, ele perde espaço para um filme, provavelmente, um outro documentário, que não atrai nenhum tipo de interesse por parte do público. Porém, como o mercado é regido por essa máquina que faz filmes para ela mesma, sem que o espectador participe do processo, ele acaba lançando filmes que geram públicos risíveis de quinhentas a mil pessoas. Um filme como Silenciados poderia atingir uma audiência muito maior.

 

FE: Se atraem poucas pessoas, por que esses filmes continuam a ser produzidos?

DM: Juntando, tem-se um bilhão e meio para a produção de filmes, e esse dinheiro precisa ser escoado para produção e distribuição. A verdade é que há uma relação pequena entre a procura do público e a facilidade que um sujeito tem de conseguir dinheiro para viabilizar. Provavelmente, o Brasil é um dos maiores países em que pessoas de fora da indústria cinematográfica viram diretores de Cinema. Aqui, jornalistas, psicanalistas, professores de filosofia e outros que viram cineastas da noite para o dia. Isso também acontece porque essas pessoas têm uma rede de contatos dentro dessa máquina de distribuição de dinheiro público, fazendo com que elas realizem e distribuam um filme independentemente do seu conteúdo. No fim de tudo isso, o gosto, ou a preferência do público, não tem poder algum nas decisões tomadas.

 

FE: Mas como é possível saber quais são as preferências do público?

DM: O cineasta polonês Andrzej Wadja, que sofreu muito com a censura socialista, achava que, por seus filmes serem financiados com dinheiro público, eles tinham de ser uma resposta para o povo, isto é, fiéis às suas aspirações, preferências e inquietações. No caso do cinema brasileiro, ainda que se aceite que os filmes sejam lastreados pelo dinheiro público, o mínimo que os realizadores tinham de ter como princípio de conduta é de fazer filmes que, de alguma maneira, reflitam o povo que está financiado essa produção. Mas, infelizmente, não é isso o que acontece.

 

FE: Voltando ao tema da distribuição, qual é sua opinião sobre as plataformas digitais?

DM: Eu tenho restrições a essa tendência moderna de digitalizar o Cinema. A ampla digitalização acabou atrapalhando a produção e distribuição de filmes. Antigamente, nos anos 1950, a cópia de um filme tinha um valor intrínseco a ela. A grande indústria – que muitos, erroneamente, enxergam como opressora – estava interessada em exibir as suas obras apenas nas melhores salas. Assim, tinha-se uma grande quantidade cinemas que, para ter uma programação, exibiam filmes independentes. Agora, quando se tem a digitalização, a grande indústria domina toda a situação, se massificando o produto mainstream e aniquilando o espaço para produções mais baratas.

 

FE: Quais são as suas considerações gerais sobre os filmes feitos atualmente no Brasil?

DM: No Brasil, há dois tipos de filmes: as comédias que são chanchadas e faturam bastante e as outras obras com pouca aceitação do público. Mas o grande problema é que, nesses dois tipos de filmes, a produção é muito cara. No primeiro caso, não há necessidade de gastar tanto em comédias que podiam ser realizadas com menos dinheiro. E, no segundo, devido à baixa procura, para serem viabilizados, os filmes também deviam ser feitos com um orçamento bem menor. De um lado ou de outro, o que se tem é um investimento maior que o necessário.

 

Aos interessados, a minissérie já está disponível no YouTube. Caso o leitor tenha interesse em acompanhar o trabalho de Daniel Moreno, é só acessar seu site. E, para aqueles desejam saber mais sobre Silenciados, é só visitar a página do documentário no Facebook.

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  • Raphael Souza

    Teve filmes recentes rentáveis, ou seja, se pagavam como o filme de drama sobre corporação, que teve a continuação e se pagou também. Só que uma andorinha apenas não faz o verão.

    • Miguel Forlin

      É verdade, Raphael. Esse tipo de coisa precisa existir cada vez mais no Brasil.