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Okja – A fábula infantil do diretor Bong Joon-Ho!

Okja não sabe que história deseja contar

Fábulas infantis sempre foram uma maneira poderosa de abordar temas espinhosos sob aparências mais cartunescas (leia-se inocentes), de forma a fazer com que as crianças vislumbrem algumas das coisas que constituirão parte da vida adulta, além, claramente, de ensiná-las a mudar aquilo que, de acordo com as pessoas mais velhas, está “errado” em nossa sociedade. É nessa tradição literária – e também cinematográfica – que o sul-coreano Bong Joon-Ho, cineasta acostumado a misturar fantasia com crítica social, busca inserir o seu novo longa-metragem, Okja (idem), produção original da Netflix. No entanto, o resultado fica muito aquém do intencionado.

Crítica de Okja, produção original da Netflix

Okja

Roteirizado pelo próprio diretor e o jornalista Jon Ronson, o filme conta a história da jovem Mija (Ahn Seo-Hyun). Vivendo com o avô depois de ter perdido os pais, ela passa os seus dias vagando por florestas ao lado do seu animal de estimação, a super porca produzida em laboratório que dá nome à obra. Porém, a sua vida sofre um forte abalo quando descobre que Okja foi criada somente para participar de uma seleção feita pela empresa alimentícia Mirando e ser abatida, eventualmente, num matadouro. Agora, ela fará de tudo para impedir que os planos da corporação chefiada pela fria Lucy Mirando (Tilda Swinton, de Doutor Estranho) se concretizem.

Em Okja, há uma confusa mistura de intenções. Às vezes, parece que Bong Joon-Ho deseja criticar coisas como o mau-trato de animais e abordar conflitos do tipo natureza x cidade. Quando se concentra nisso, em relação ao primeiro aspecto, o filme, inteligentemente, se coloca no ponto certo da discussão, uma vez que se restringir a comentários como “se alimentar de animais é anti-ético” é raso demais para ser levado a sério. No que diz respeito ao segundo aspecto, a narrativa do longa atinge o seu ápice. Logo depois de um prólogo extremamente expositivo e desnecessário, o diretor acerta o passo e estabelece, com muita competência, a relação da protagonista com a super porca. Em questão de minutos, o espectador já está torcendo pelos dois personagens.

E, apesar de não deixar claras quais são as capacidades intelectuais de Okja (não dá para saber os limites de sua inteligência), o primeiro ato é essencial para contrastar com o restante da história, que se desenrola em centros urbanos, como Seul e Nova York, e, assim, propor uma reflexão sobre as consequências da interferência humana na natureza.

Todavia, na maior parte do tempo, a impressão é de que o cineasta está criticando toda a indústria alimentícia e, através dela, o capitalismo ianque. Dessa maneira, embora os personagens caricatos sejam condizentes com essa visão de Mundo unilateral, a produção afunda num comentário infantil, típico de quem não entende as complexidades da nossa existência (não é irônico pensar que se não fosse o capitalismo, Bong Joon-Ho não teria a tecnologia responsável por dar vida ao seu filme?).

Crítica de Okja, produção original da Netflix

Porém, essa indecisão temática é apenas uma das visíveis inseguranças do roteiro. Uma das que mais chama atenção tem a ver com a caracterização dos personagens. De todos que povoam a história, a protagonista é a melhor desenvolvida. Único ser normal num universo tomado por figuras caricatas, ela é o ponto de apoio do público (se ficasse claro que estamos vendo aquele mundo por seus olhos, o filme seria perfeito, mas não é isso o que acontece). Os outros personagens, por sua vez, nunca têm as suas composições exageradas completamente abraçadas pelo roteiro. Bong Joon-Ho não sabe se constrói caricaturas ou desenvolve psicologicamente os seus personagens

Há vários instantes destinados a mostrar um outro lado de suas personalidades, mas essa complexidade é simplesmente abandonada. Em certo momento, por exemplo, Jay, o gentil ativista interpretado Paul Dano, explode num rompante de raiva e soca o personagem do ator Steven Yeun. A pergunta que fica é a seguinte: será que ele tem esses ataques constantemente? Será que a sua personalidade é violenta? Não dá para saber, pois o filme não se preocupa em aprofundar a questão. A mesma coisa acontece com Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal, cujo último filme lançado foi o maravilhoso Animais Noturnos) e Lucy Mirando. Em determinados instantes, eles parecem ter uma humanidade por trás das ações vilanescas, mas, novamente, tudo isso é descartado. Por fim, vale lembrar que, no segundo ato, também há uma indecisão sobre o foco da narrativa, que, indevidamente, dá muito tempo em tela ao grupo dos ativistas, quase deixando a protagonista em segundo plano.

Personagens ruins, boas atuações

Contudo, se os personagens são sabotados pelo roteiro indeciso de Bong Joon-Ho e Ronson, ao menos, eles têm a sorte de virem à luz através das boas interpretações do elenco. Tilda Swinton consegue transmitir com destreza as inseguranças de Lucy (o aparelho nos dentes é uma ótima sacada) e a frieza de Nancy, irmã gêmea da personagem; Paul Dano, ao mesmo tempo que transforma Jay num sujeito carismático e íntegro, passa a sensação de que pode explodir emocionalmente a qualquer momento ; e Ahn Seo-Hyun é sólida o suficiente para carregar a história. O único destaque negativo fica por conta de Gyllenhaal, que abusa do overacting e faz do seu personagem não um ser detestável e, sim, insuportável.

Crítica de Okja, produção original da Netflix

Já do ponto de vista técnico, Okja é irrepreensível. O CGI usado para criar os super porcos é impressionantemente real (prestem atenção nos gestos e olhares das criaturas), e a concepção estética do diretor e a sua equipe dão verossimilhança ao universo futurístico em que a trama se desdobra. Além disso, há duas cenas nas quais o talento de Bong Joon-Ho surge com opulência: a perseguição nas ruas e no shopping, em que os zooms, movimentos de câmera e a comicidade trazem à mente gags típicas de desenhos animados, e o momento em que Mija descobre que Okja será levada embora (percebam como ele usa o som do vento e a movimentação das folhas para aumentar o impacto da cena).

Com um terceiro ato excessivamente pesado e tendo, no final, uma comparação envolvendo campos de concentração nazistas que é inteiramente descabida, Okja falha porque não consegue se decidir sobre o tipo de narrativa que deseja ser. O caráter de fábula infantil é bem sucedido – méritos da construção feita no primeiro ato, que garante a simpatia do espectador pela protagonista e a criatura até os créditos finais -, mas quando tenta dar tridimensionalidade aos personagens e apresentar uma crítica ao capitalismo (filtrado pela indústria alimentícia), não consegue atingir a mínima profundidade. Muito pouco para as intenções ambiciosas de seu diretor.

(Se você é fã de Bong Joon-Ho, não esqueça de ler a crítica de  Expresso do Amanhã.)

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