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O Sol é Para Todos – Quando um clássico gera outro clássico!

Em 1960 era publicado um livro épico – O Sol é Para Todos – transformado em um filme igualmente marcante

Se você pesquisar sobre listas de filmes mais importantes do século XX, seja qual for a fonte (desde que séria), muito provavelmente você se deparará com O Sol É Para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962, Robert Mulligan). Se você pesquisar sobre listas de livros mais importantes do século XX, seja qual for a fonte (desde que séria), muito provavelmente você se deparará com o Sol É Para Todos (To Kill a Mockingbird, 1960, Harper Lee).

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Cena de O Sol é Para Todos, baseado na obra de Harper Lee!

O Sol É Para Todos, o livro, única obra publicada em vida pela norte-americana Nelle Harper Lee, ganhou, em 1961, o Prêmio Pulitzer, maior honraria dos EUA (e, consequentemente, do mundo) para literatura e jornalismo naquele país, trazendo reconhecimento mundial para a autora. O Sol É Para Todos, o filme, teve oito indicações ao Oscar (ganhou três), cinco para o Globo de Ouro (também garantiu três), concorreu a competição principal no Festival de Cannes e a uma série de outras premiações mundo afora.

Livro ou filme, se você estiver diante de O Sol É Para Todos, você estará frente a uma das obras mais relevantes para o debate social da história recente, além de um dos raríssimos exemplos de experiência muito bem sucedida de transição de literatura para cinema. Ambos com produções acessíveis ao grande público. Acessibilidade essa, simbolizada pela singela narrativa de Jean Louise “Scout” Finch, uma simpática garota de seis anos e seu arguto olhar sobre temas extremamente complexos para sua idade – e para qualquer outra idade.

Mas, além dessa facilidade de linguagem, o que torna essa obra tão importante e fascinante? Uma análise detalhada pode ser feita por diversos prismas, dos mais óbvios aos mais subjetivos, porém vamos aqui chamar a atenção apenas para alguns fatores-chaves que sobre porque a verdadeira arte nunca se torna obsoleta.

Racismo

Entre os anos 1950 e 1960, os EUA viviam uma realidade social muito complexa. Pujança econômica pós-Segunda Guerra Mundial, crescente temor frente a Guerra Fria com a União Soviética, escândalos políticos e a proliferação de políticos populistas locais no interior, avivaram a sempre acesa chama do patriotismo norte-americano, sustentado por valores morais e sociais tipos como padrões do american way of life.

Entenda-se por isso, o modelo de família branca, de classe média, cristã e escolarizada. Preconceitos enraizados nessa sociedade tida como básica desde o fim da guerra civil quase cem anos antes afloraram e frutificaram até tornarem-se demanda pública. Sobretudos nos estados do sul do país, cuja elite rural ainda não aceitava a absorção da comunidade negra na sociedade após o fim da escravidão em 1865, começaram a surgir políticas de segregação racial como forma de ressaltar os valores norte-americanos.

Movimentos racistas passaram a ter apoio popular a até ter membros eleitos para cargos públicos. Leis estaduais passaram a liberar a proibição de que negros dividissem espaço com brancos em universidades, escolas, igrejas, restaurantes, lojas ou qualquer espaço público cujos frequentadores assim considerassem. Assim, antes do surgimento de movimentos de esquerda antirracismo dos anos 1960, e de líderes como Martin Luther King e Malcon X, o racismo passou a ser visto como algo “aceitável” pela maioria da sociedade.

Foi nesse cenário que Harper Lee escreveu e publicou seu O Sol É Para Todos. Em 1960, os movimentos e debates contra as políticas racistas no país ainda estavam em sua gênese e restritos a grupos de interesse, embora artistas e líderes populares já se aventurassem a questionar o tema publicamente. Na obra, o racismo é tema central, mas nem de longe o único, e tratado com a delicadeza e cuidado que os temos exigiam.

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A capa original do livro

Com inteligência ímpar, uma escritora branca e de classe média retrata uma sociedade típica das pequenas cidades do interior, frente a uma situação que a forma se posicionar, expondo tristemente seus sentimentos preconceituosos antes mesmo de qualquer reflexão. Na história, o advogado Atticus Flinch, respeitado na região, é convocado a defender um homem negro acusado de estuprar uma jovem branca. Mesmo diante de muitas evidências da inocência do acusado, Atticus sabe estar diante de uma causa perdida, cuja maior dificuldade está muito mais no interior das pessoas envolvidas do que nos fatos do crime.

Harper Lee é muito hábil ao retratar assunto tão espinhoso. A escritora, de forma genial, resolve colocar toda frieza do caso sob o olhar de uma criança de seis anos, a espivetada Scout Finch, filha de Atticus, ainda não contaminada pelo veneno do preconceito. Com sua ingenuidade e inocência, Scout constrange toda sociedade de leitores que corrobora o comportamento dos personagens. Mas não se engane, essa abordagem não é feita de forma panfletária ou militante, muito ao contrário. Scout trata do assunto de forma muito sensível, muito mais focada na admiração pelo trabalho do pai do que por qualquer ideal pessoal inexistente em sua tenra idade.

Essa sutileza da abordagem do assunto pode ser um dos segredos do sucesso de O Sol É Para Todos. Scout, na verdade, ao narrar a história, tenta apenas contar um pouco sobre seu processo de crescimento durante alguns dos mais importantes anos de sua vida. O caso de racismo que vivenciou é apenas parte desse processo. Com isso,  Harper Lee mostra como o veneno é aplicado em doses homeopáticas ao fazer parte do cotidiano das pessoas e muitas vezes usado como argumento de justiça e estabilidade social.

No filme, devido a falta de espaço (infelizmente, a versão para o cinema perde muito com isso) essa abordagem é feita de forma mais direta. Enquanto no livro o assunto em questão é diluído em meio a uma série de outros acontecimentos e ocupa, se somado, pouco mais que um terço da obra, no filme a questão é o ponto central, ocupando quase todo o curso do roteiro. Quase, porque o livro tem tantos pontos importantes que não poderiam ficar de fora de qualquer adaptação que se preze. Mas o discurso de Gregory Peck como Atticus, na parte final do filme, é um dos mais importantes textos da história do cinema.

Antes de O Sol é Para Todos, poucos filmes haviam se aventurado a debater a questão racial, sendo que muitos já haviam defendido viés depois interpretado como preconceituoso. Nas décadas de 1960 e 1970, o assunto explodiu no cenário político norte-americano e do mundo e na esteira do sucesso do filme de 1962 surgiram clássicos que abertamente denunciavam a segregação no dia a dia das famílias americanas, como o maravilhoso Adivinhe Quem Para Jantar (Gess Who’s Comming to Dinner, Stanley Kramer, 1967).

Além do racismo

Apesar do tema que o tornou célebre, O Sol é Para Todos é uma obra que vai muito além da crítica social. É basicamente, uma história de crescimento e perda da inocência, mas não de forma dramática ou imperiosa, mas singela e comovente. A trama está repleta de simbolismos sobre a ruptura da pureza, a começar pelo próprio título original em inglês: To Kill a Mockingbird = Matar um Rouxinol. A frase é dita uma única uma vez tanto no filme quanto no livro, ocupando apenas alguns minutos em um e algumas linhas no outro, mas que sintetiza a complexidade do Mal: por que se mataria um rouxinol, uma ave que nada faz além de cantar e ser bonita?

O texto faz ecos a clássicos americanos sobre crescimento, como Tom Sawyer  e As Aventuras de Huckleberry Finn (Mark Twain) e Mulherzinhas (Louisa May Alcott), fazendo uso de alguns chavões sobre o assunto, como o microcosmo da cidade pequena sob olhar infantil. Mas isso nada impede o surgimento de personagens magníficos repletos de personalidade e psicologia e longe de maquineísmos fáceis. Crianças podem ser preconceituosas, mesmo quando repletas de boas intenções. Homens duros podem ter seu momento de perdão, mesmo que isso não amenize um caráter venenoso. Vítimas podem não ser tão inocentes e vilões podem não ser tão maus.

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Scout Finch!

O livro relata três anos da vida de Scout Finch e sua família. No período, ela faz e desfaz amigos, vive aventuras típicas da idade e para alguém que se recusa a ser a menininha do grupo, perde pessoas queridas, faz birra, vivencia os mistérios da infância, destila acidez, doçura e cresce. É fantástica a relação dela com o irmão, com vive uma cumplicidade indestrutível, apesar das muitas brigas. Sua visão do pai (palavra essa não usada pela personagem), é perspicaz na sua inocência ao analisar as decisões tomadas pelo chefe da casa frente as dificuldades que surgem. A Scout do último capítulo não é a mesma do primeiro. Nem o leitor.

No filme, os três anos do livro se transformam em três meses e todas as transformações vividas pela personagem são condensadas para concentrar-se na trama central do julgamento. Nesse ponto, o longa metragem se distancia do impresso, tornando-se uma obra independente e mais política. Quando analisados em comparação, o filme faz o leitor sentir muita falta de conteúdo, mas a produção em película é sucesso na adaptação para o objetivo a que se propõe.

Harper Lee

No livro, Harper Lee brilha solitária como um sol de verão. Filha de advogados e pertencente a uma família de classe média alta, nasceu em 1926 no Alabama, um dos estados de maior presença racista nos EUA (local de origem da famigerada Ku Klux Klan). Apesar do que poderiam surgir os mais tendenciosos, sua origem social não a isolou dos problemas de onde vivia. Em 1949, se mudou Nova York, onde trabalhou como auxiliar de companhias aéreas enquanto tentava engatar a carreira de escritora.

Lá, conheceu e tornou-se amiga de Truman Capote, um dos mais ilustres representantes do chamado jornalismo literário, autor do clássico moderno À Sangue Frio, que interpretava de maneira peculiar a visão do autor sobre seu ideal de justiça e que para muitos teve influência de Lee. Capote dedicou a obra para amiga, sem, contudo, reconhecer maior contribuição.

No final dos anos 1950, Lee apresenta a várias editoras um manuscrito sobre racismo e injustiça nos sul dos Estados Unidos durante a grande depressão dos anos 1930. Apenas a editora J.B.Lippincott & Co aceita publicá-lo, mas exige uma série de alterações. Nascia então o livro que ano seguinte receberia o prêmio máximo da palavra escrita no país.

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Harper Lee!

Tímida e discreta, Haper Lee torna-se de uma hora para outra celebridade nacional. Opta, então, por uma vida reclusa, com poucas aparições em público e raras entrevistas, nas quais sempre alegava surpresa sobre o sucesso de seu único livro. Afeita a badalações, foi condecorada durante toda a vida por toda sorte de premiações, sendo a última a Medalha Presidencial da Liberdade, entregue pelo presidente George W. Bush em 2007, durante cerimônia oficial na Casa Branca.

Dizia nunca mais querer publicar outra obra (apesar de ter tentado escrever várias vezes) e, de fato, passou quase toda sua vida sendo considerada escritora de um livro só. Até que, em 2015, surge um certo Vá, Coloque um Vigia, uma suposta continuação de seu maior clássico e que desconstruía a imagem heroica de seus personagens.

Obra de qualidade inferior, a publicação foi acusada de ter sido feita a revelia da autoria, com então 89 anos de idade e com limitações para tomar as próprias decisões. O livro seria apenas fruto de manuscritos feitos por Lee em diferentes experiências literárias ao longo vida, sem nunca ter sido planejado para o público no formato em que foi lançado. Harper Lee morreria um ano depois sem ver o imbróglio resolvido.

No cinema, um grande time

Nem só de roteiro vive um grande filme. O Sol É Para Todos, reuniu um elenco brilhante, encabeçado pelo astro Gregory Peck e um time infantil de primeira linha e a cuidadosa direção de Robert Mulligan, responsável por belas produções, como Houve uma vez no Verão/Verão de 42 (1970). Seus filmes são muitas vezes conduzidos por personagens que confrontam o senso comum ao questionarem o que seria verdadeiramente correto, como a clássica professora do emblemático Subindo por Onde se Desce (1967).  Mulligan conseguiu captar a sutileza da obra de Lee, ao lançar um delicado e condizente com o universo infantil de Scout Finch.

Do elenco infantil, infelizmente, pouco surgiu. Apesar do sucesso e o carisma de seus personagens, Mary Badhan (Scout Finch) e Phillip Alford (Jem Finch), não  seguiram longa carreira no cinema, restringindo-se a pequenos papeis na televisão. Já o estreladíssimo Robert Duvall fazia aqui segundo papel, ainda irrisório, embora fundamental para o desfecho da trama.

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Robert Duvall em ação!

Broke Peters, no papel de Tom Robbins, o pobre réu acusado injustamente, não é exatamente a performance ideal para peso psicológico que seu personagem exige, seguindo carreira em filmes populares mas de qualidade duvidosa.  Na verdade, todos os coadjuvantes merecem atenção, embora a contribuição deles na telona seja pouco significante, quando comparada ao seus papeis na obra impressa.

O cinema sempre teve introjeção popular muito mais forte que a literatura, e Gregory Peck já era um ator muito conhecido do grande público por papeis heroicos em filmes como As Neves do Kilimanjaro (Henry King, 1952), Moby Dick (John Houston, 1956) e Os Canhões de Navarone (J. Lee Thompson, 1960).  Sua performance espetacular (talvez a melhor de sua carreira) reforçou a mensagem reflexiva do enredo.

A soma do talento de Peck, uma direção caprichada com o roteiro de Lee levaram Atticus Finch a ser considerado, em 2003, o maior herói do cinema mundial, pelo prestigiado American Film Institute (AFI), a frente de figuras como Indiana Jones (Os Caçadores da Arca Perdida, 1982) e James Bond (O Satânico Dr. No, 1962).

Em um ano, o filme foi indicado a 16 prêmios internacionais, dos quais ganhou 10. Gregory Peck garantiu o dele como melhor ator no Oscar e no Globo de Ouro de 1963. Não ganhou o Oscar de melhor filme daquele ano, perdendo para Lawrance da Arabia (Lawrance of Arabia, David Lean, 1962), mas ganhou de Roteiro Adaptado e Trilha Sonora.

O Sol é Para Todos, é um dos raros casos que tanto leitores quanto espectadores apreciam as duas obras. Campeão de público e crítica, não é toa que Clark Kent, o Superman, várias vezes citou nos quadrinhos que este era tanto seu filme quanto seu livro favorito. Um clássico que gerou outro clássico, cujas ressonâncias vão muito além do rápido consumo, como toda boa arte deve ser. Uma obra que o tempo não envelheceu e que, tristemente, permanece ainda muito atual. Observe bem se o que você toma como justo e natural não é justamente o extremo oposto disso.

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