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O Lobo Atrás da Porta – Seu pior Inimigo está logo ali!

Abrindo com longos planos do subúrbio carioca, acompanhados pelos acordes graves, sinistros e furtivos da trilha sonora, O Lobo Atrás da Porta – de Fernando Coimbra – já mostra a que veio. Impossível que o espectador não se sinta situado dentro de um universo realista, onde algo muito, mas muito ruim está para acontecer, apenas adormecido por baixo daquele cenário tão familiar e tão corriqueiro que chega a ser insuspeito. É neste momento que o mundo de Sylvia (Fabiula Nascimento) começa a ser virado do avesso, ao descobrir que sua filha foi entregue a uma desconhecida na saída da creche.

O Lobo Atrás da Porta

Sylvia passa por uma crise no casamento com o fiscal de ônibus Bernardo (Milhem Cortaz) e, a partir do desaparecimento da filha do casal, verdades inconvenientes relutantemente começam a ser apresentadas nos depoimentos à polícia, representada na trama como uma espécie de alter-ego  do público, já que começa a história sem saber de nada e tenta juntar as peças partindo do que lhe é contado. Quando Rosa (Leandra Leal) surge como peça-chave apontando a solução do conflito, é que se percebe que a história tem mais contornos ambíguos e direções erradas do que se supunha e que o relacionamento extra-conjugal de Bernardo é o ponto de ignição da provação que ele e Sylvia precisarão encarar.

Parece, de alguma forma, lembrar Atração Fatal (1987), de Adrian Lyne, onde Michael Douglas e sua família sofreram o diabo nas mãos de uma Glenn Close psicopata, mas a semelhança fica na questão de abordar uma traição e pronto. O Lobo… investe em outro tipo de relação e suas consequências , e a força alcançada deve muito à fantástica atuação de Leandra Leal, certamente o destaque do filme. A composição da personagem Rosa é convincente em todos os sentidos e Leandra trilhou um caminho difícil para qualquer ator que encarna uma personalidade tão complexa, mantendo-se naquela linha moral limítrofe que deixa o público na dúvida. Claro que muito disso é mérito da direção de Fernando Coimbra, conduzindo muito bem os outros integrantes do elenco, que não decepcionam nas sutilezas ou nos extremos.

Leandra Leal fantástica em O Lobo Atrás da Porta

Leandra Leal fantástica!

Reforçando a ambiguidade e os aspectos sombrios de Rosa e Bernardo, a bela fotografia das cenas dos encontros entre os dois, num cenário claustrofóbico e pouco iluminado, faz questão de indicar que essa relação só faz trazer à tona algo de perverso que ambos já carregavam e que se revelaria mais cedo ou mais tarde. O roteiro, também escrito por Coimbra, desenvolve um jogo de pistas, reais ou não, que ao final recompensa o espectador mais atento, pois este perceberá que as informações contidas em determinados diálogos tinham uma importância maior do que aparentavam, de alguma forma apontando o desfecho daquela história. Entretanto, os personagens do filme caminham para a resolução da trama em uma trajetória tão verossímil que chega a assustar. Não é surpresa que o diretor/roteirista tenha se inspirado em um caso real, ocorrido na década de 1960.

 

Bastante premiado dentro e fora do Brasil, O Lobo Atrás da Porta é mais um representante do nosso cinema que mostra que é possível alcançar prestígio fugindo do lugar comum. Longe da suposta segurança do investimento em roteiros que exploram misérias de qualquer tipo e uma violência cotidiana mais explícita, Fernando Coimbra construiu sua narrativa ancorada nos fundamentos de um filme de suspense sem apelações, onde existe a preocupação de construir de forma coerente a psicologia dos personagens, assim como os desdobramentos de suas ações. Como cinema de gênero, ainda há o que lapidar em termos narrativos, falando exclusivamente sobre a questão de capturar e manipular as emoções do público, mas a dedicação de todos os envolvidos é evidente, o que compensa eventuais faltas e anima plateias cada vez mais interessadas em produtos nacionais.

Eu acho que o caminho é esse…

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