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Na Praia À Noite Sozinha – Variações de um mesmo cinema!

Em Na Praia À Noite Sozinha, Hong Sang-Soo segue o seu estilo à risca

Pode não parecer, mas estilo artístico é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que separa os artistas autorais daqueles que operam regradamente sob a régia imperiosa de uma determinada indústria, está constantemente a perigo de se tornar uma fórmula seguida preguiçosamente por sujeitos cansados de evoluírem naturalmente em suas características técnicas ou visão de mundo. No entanto, entre aqueles que se encaixam nessa segunda categoria, há casos como o do coreano Hong Sang-Soo, em que a prática do mesmo tipo de cinema é constantemente iluminada por pequenas variações. Caso duvidem desta última afirmação, Na Praia À Noite Sozinha (Bamui haebyun-eoseo honja) está aí para corroborá-la.

Crítica do sul-coreano Na Praia à Noite Sozinha

Na Praia à Noite Sozinha

Escrito pelo próprio diretor – como é de costume -, o filme narra a história de Young-hee (Min-hee Kim, de A Criada), uma jovem atriz indecisa em relação ao seu futuro amoroso e profissional. Depois de se envolver com um homem casado e ver o relacionamento ruir em razão desse compromisso matrimonial, ela interrompe a carreira momentaneamente e passa os seus dias visitando antigos amigos e vagueando pelas margens praianas de uma cidade litorânea. Todavia, por mais que tente esquecer do antigo amor, se lembra constantemente dos momentos compartilhados pelos dois.

Na Praia À Noite Sozinha é um típico filme de Hong Sang-Soo, com todos os predicados que acompanham essa constatação. Quem teve a oportunidade de conferir alguns dos esforços anteriores do diretor – como o recente Certo Agora, Errado Antes – não terá dificuldade de perceber que o seu novo longa segue a mesma lógica técnica e narrativa: planos gerais que duram vários minutos, poucos cortes, fotografias e atuações naturalistas, movimentos de câmera extremamente calculados e precisos, situações tragicômicas, forte presença de elementos banais e corriqueiros do nosso cotidiano, dramas intimistas e uma crença inabalável de que diálogos fortes e cativantes são a força motora de toda grande história.

Contudo, se a presença reiterada desses elementos não pesa contra o diretor – ao contrário de cineastas como Woody Allen e Terrence Malick (este último com um filme recente, De Canção Em Canção) , por exemplo, que confundiram estilo com repetição, a ponto de reciclarem falas ou imagens de filmes anteriores – é porque Sang-Soo sempre se apoia nas particularidades da história para dar frescor às suas obras. Essa estranha novidade que parece exalar em todos os seus filmes é tão forte que, paradoxalmente, o seu estilo parece se basear tanto na recorrência das mesmas características quanto pela peculiaridade presente em cada um dos personagens e tramas.

Crítica do sul-coreano Na Praia à Noite Sozinha

Na Praia À Noite Sozinha é um drama sobre aparências

Assim, nunca deixa de ser um gozo estético ver como ele nunca molda as histórias de acordo com suas marcas autorais. Pelo contrário. Com um olhar perscrutador, continuamente concebe roteiros sobre os quais a sua técnica se encaixa perfeitamente. É nessa troca – que poderia muito bem ser uma relação de domínio e passividade – que os seus filmes se sobressaem, destacando-se das obras de autores que não encontraram o mesmo ponto de equilíbrio criativo (símbolos desse intercâmbio são o título, cujo tour de force sinaliza as longas conversas entre os personagens, e os abruptos zoom-ins, que funcionam como um foreshadowing das explosões emocionais que encerram certos diálogos).

Necessário, todo esse preâmbulo serve para dizer que a história de Na Praia À Noite Sozinha é o comovente conto de uma garota solitária e presa à superfície da existência por causa de sua beleza. Assim como o cinema, que, ao focar muito na sua perfeição física, potencializa demais a aparência, a vida e os relacionamentos acabaram por fazer a mesma coisa. Os momentos de introspecção são interrompidos pelos gestos de um fã, mulheres ao redor lhe são hostis por sentirem ciúme e inveja e o maior amor de sua vida talvez tenha se envolvido com ela pela mera atração carnal.

Esse destaque é importante para ressaltar a maneira como Hong Sang-Soo, ao narrar essa trajetória única em seus próprios termos, deu uma sobrevida ao seu estilo. É inegável que há uma certa acomodação estética por parte do cineasta. Basta olhar a carreira de outros diretores autorais para notar como existem revoluções estilísticas ao longo dos anos. No entanto, se ele continuar encontrando essas histórias emocionantes e singulares, ninguém poderá dizer que o seu cinema é uma cópia desinteressante de si mesmo.

Na praia à noite sozinha_trailer (estreia Brasil) from Zeta Filmes on Vimeo.

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