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Star Wars Turco – Picaretagem em nível galáctico!

Star Wars Turco, primeiro e único!

Ah, Turquia… Rapidamente, o que vem à cabeça quando se fala em cinema turco? Pela localização do país, entre Ásia e Europa, alguém sem conhecimento específico sobre o assunto poderia intuir que as produções de lá tivessem aquela pegada lenta e intimista, própria dos europeus. Talvez algo parecido com Bergman. Confesso que não sou qualificado para falar da produção deles, e pode até ser que tenham grandes filmes – por que não? O ponto é que a expressão ”cinema de arte” não poderia estar mais longe do assunto deste artigo.

No início da década de 1980 foi dada largada a um ciclo bastante curioso no cinema turco, que consistia numa fórmula simples. A ideia era copiar os blockbusters de Hollywood, mas da forma que era possível com os recursos à mão, ou seja, ROUBANDO cenas e trilhas sonoras de vários filmes diferentes, editando tudo sem muito critério ou bom gosto. Esse surto psicótico gerou versões de E.T. , O Exorcista, Superman  e outros, mas o mais célebre representante  deste movimento é o mito Dünyayi Kurtaran Adam, de 1982batizado nos EUA como The Man Who Saves The World, mas carinhosamente apelidado de Star Wars Turco (veja também esta notícia sobre ele).

(Conheça outras produções ruins que tentaram lucrar na onda de Star Wars…)

Star Wars Turco

Bela pose…

Antes de abordar a história (?), cabe uma breve consideração sobre esse filme. Imagine Cid Moreira e Dedé Santana como heróis espaciais, em um quadro de uma hora e meia de Hermes e Renato… Com essa descrição e muito esforço você consegue visualizar algo ridiculamente inesquecível, mas assistindo logo percebe que a coisa vai muito, muito além.  Depois de uma apresentação de créditos que parece ter sido pintada a mão sobre um pano preto, em meio a filmagens de algum documentário sobre a corrida espacial, porém misturadas com cenas do Star Wars de 1977, uma narração explica que a humanidade começou a “era espacial” chegando à Lua, e acabou alcançando a “era galáctica” tempos depois.

Os terráqueos, sob ataque de um inimigo implacável, o Mago, criaram uma camada feita de moléculas do cérebro humano e força de vontade (!) em volta do planeta para protegê-lo. A única coisa capaz de atravessar a tal camada é uma arma feita de …. UM CÉREBRO HUMANO E FORÇA DE VONTADE (!!).  Sim, uma criança de cinco anos pensaria em algo melhor, e eu nem citei que os trechos surrupiados de Star Wars estão com a imagem esticada, o que fez a Estrela da Morte virar um ovo.

Ainda na sequencia inicial, somos apresentados à dupla explosiva de heróis, os tais sósias de Cid e Dedé, onde eles audaciosamente pilotam seus caças espaciais. Não existe absolutamente NADA de cenas no espaço feitas especialmente para esse filme. TUDO foi tirado do filme de George Lucas. Para disfarçar um pouco, a edição coloca as Tie Fighters imperiais como as naves dos mocinhos, e as X-Wings e demais naves rebeldes como dos vilões. Como se isso fizesse a mínima diferença… Os cockpits filmados consistem nos atores usando um capacete bem básico com alguns adereços, uma tela atrás deles com as cenas roubadas projetadas e o malandrão atuando como se estivesse interagindo com aquilo.

Detalhe: quando os pilotos anunciam uma manobra de subida ou descida, eles apenas levantam ou abaixam o tronco para simular o movimento da nave. Veja a imagem:

No Star Wars Turco, isso é a cabine de um acaça espacial...

Na concepção deles, isso é a cabine de um caça espacial…

 

No Star Wars Turco, isso é a cabine de um acaça espacial...

Malandrão, hein?

Isso tudo já teria feito Ed Wood corar, mas as mentes doentias por trás disso não haviam nem começado. Derrubados em um planeta estranho, os dois protagonistas são obrigados a mostrar suas habilidades em artes marciais quando atacados por cavaleiros com uma horrível fantasia de esqueleto. As coreografias são dignas de um filme dos Trapalhões, com direito a câmera acelerada, se bem que aqui a edição é muito pior. Falando em lutas, depois de cerca de meia hora, já somos brindados com a cena do treinamento, na qual os guerreiros se fortalecem ao som de uma trilha famosa chupada. Vale a pena conferir esses três minutos de pura cara de pau!

Entre as trilhas “emprestadas”, ao longo do filme temos Caçadores da Arca Perdida, 007 Contra o Foguete da Morte, Flash Gordon  e mais algumas que nem é necessário citar, pois já deu para sentir o nível.

Star Wars Turco e seu design de produção. E essa espada?

E essa espada?

Encurtando a história, nem adianta tentar explicar qual é o lance desse planeta em que eles caíram, nem o motivo do vilão, o Mago, estar ali. Basta saber que para aproveitar as paisagens locais, enfiaram uma ideia qualquer, tão esdrúxula quanto as anteriores, sobre tribos de Israel e filmaram dentro de alguma mesquita. Ainda existe ali um cérebro humano guardado como tesouro, que o vilão quer usar para destruir a proteção da terra, e uma espada que parece de festa infantil. Além disso, os capangas do Mago são um show à parte, pois vão de múmias de papel crepom com garras de cartolina, passando por monstros felpudos de pelúcia rosa, até alienígenas com máscaras piores que as da Rua 25 de Março – referência paulistana do comércio de fantasias – numa tentativa deplorável e vergonhosa de imitar a famosa cena da cantina de Mos Eisley, em Star Wars.

Star Wars Turco. Sem comentários...

Sem comentários…

Quem é o responsável por isso?

Cüneyt Arkin, o Cid Moreira, além de protagonista, ocupou a função de roteirista- na falta de definição melhor- da gambiarra. Em atividade até hoje, esse senhor difícil de adjetivar já soma inacreditáveis 284 créditos como ator, 28 como diretor e 17 como roteirista. Como é complicado descobrir muito mais de uma carreira como essa, eu suponho, ou pelo menos quero crer, que entre suas pérolas mais recentes ele tenha deixado de lado os papéis de lutadores durões, mas não duvido que exista algum filme em que ele, com mais de setenta anos, ainda arrisque pontapés desajeitados e saltos sobre-humanos.

Guardadas as devidas proporções, Arkin é uma espécie de Chuck Norris turco, com vários filmes policiais, de ninjas e outros que desafiam a classificação de gênero. Suas caras e bocas são um complemento e tanto nessa e outras produções. Será que o Tarantino arrumaria um papel para ele? Veja só sua performance em outro filme que exemplifica  esse modelo turco de cinema:

Cüneyt Arkin, o homem por trás do Star Wars Turco. Caras e bocas a serviço de um grande roteiro!

Cüneyt Arkin: Caras e bocas a serviço de um grande roteiro!

Enfim, quem reclama dos filmes trash e mockbusters, cópias baratas de blockbusters da produtora The Asylum, deve urgentemente assistir ao Star Wars Turco. Tenho certeza que isso mudará os parâmetros de qualquer julgamento. Quase esqueço de citar que, inacreditavelmente, existe uma continuação disso, feita em 2006, com o instigante título de The Son of The Man Who Saves The World. Adivinhe quem é o ator principal? Olha só o trailer, que interessante:

Como nenhum texto do mundo poderia fazer justiça a uma obra tão singular, fique agora com esse estupendo petardo cinematográfico, esse exemplar fílmico soberbamente tosco. The Man Who Saves The World COMPLETO, infelizmente sem legendas, mas isso não ajudaria muito mesmo. Não se esqueça de deixar um comentário agradecendo! Com certeza, o cinema turco e outros “derivados “ da saga espacial marcarão presença por aqui em um futuro próximo.

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    • Daniel Fontana

      De fato!!!

  • Meodeos!

    • Daniel Fontana

      Atualizar essa seção é psicologicamente muito exaustivo…