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Mifune, o último samurai – Dez filmes necessários do ator!

Toshiro Mifune permanece sendo um dos maiores atores que já existiram

No dia 24 de Dezembro de 1997, falecia em decorrência de complicações relacionadas ao mal de Alzheimer uma das maiores lendas da história do cinema. Toshiro Mifune (1920-1997) é um daqueles raros artistas que possuíam um talento descomunal, e ainda conseguiam encarnar em si toda a definição de um gênero.

Mais conhecido pelas suas colaborações com outra lenda, Akira Kurosawa, a monumental carreira de Mifune não se resume a elas. Pelo contrário – seu nome consta em créditos de mais de 170 filmes através de quase 50 anos de carreira. Dessa forma, Mifune desfilou seu talento de tal forma que redefiniu gêneros, fossem eles jidaigeki (filmes de época) ou gendaigeki (filmes contemporâneos).

De fato, existem poucos estudiosos e críticos dentro e fora do Japão que não definam a história do cinema nipônico como dividida entre antes da parceria Mifune-Kurosawa e depois da dupla. Os 17 filmes que realizaram juntos não são apenas quase todos clássicos absolutos da sétima arte, mas também alcançaram um inédito sucesso internacional, colocando o cinema do Japão no mapa dos cinéfilos.

Sendo assim, para celebrar a memória e o legado desse monstro sagrado da telona, separamos 10 sugestões de grandes filmes com esse ator para você conferir todo o seu talento. A lista não está em ordem de qualidade ou preferência – só tentamos deixá-la o mais polivalente possível, para que o amigo leitor conheça as inúmeras facetas dessa lenda!

10 – Cão Danado (野良犬 Nora Inu – 1949)

Considerada por muitos a primeira obra-prima de Kurosawa – e considerada por ele mesmo sua primeira obra realmente autoral – Cão Danado é um filme pioneiro em muitos sentidos, além de uma das oportunidades de ver Mifune sem uma espada na mão.

De uma maneira que apenas Kurosawa seria capaz, ele faz uma releitura de um ponto de vista japonês do gênero noir de cinema, dando um ar único a ele; assim como também é considerado um precursor do cinema policial procedural e do gênero de dupla policial. Tá bom ou quer mais?

O filme conta a história de um jovem policial, Murakami (Mifune), que perde sua arma em um ônibus. Quando se descobre que a arma foi usada em um assassinato, Murakami é colocado sob a guarda de um parceiro mais velho, Sato (o lendário Takashi Shimura), para investigar o que aconteceu e onde está a bendita arma.

Para todos os fãs de Riggs e Murtaugh aí fora.

9 – O Anjo Embriagado (醉いどれ天使 Yoidore Tenshi – 1948)

Outro filme pouco lembrado na vasta carreira tanto de Mifune quanto Kurosawa – o que é um erro tremendo. O Anjo Embriagado é um filme pioneiro em muitos sentidos. Marca o início de uma série de encontros lendários – é o primeiro filme de Mifune com Kurosawa como diretor e Takashi Shimura como companheiro de set. O filme é considerado extremamente importante por críticos e estudiosos do cinema japonês porque apresenta algumas marcas ousadas que eram incomuns e improváveis na época.

Em 1948, ainda eram vigentes algumas regras de censura impostas pelos americanos sobre a produção artística e cultural japonesa, em vista da vitória ianque na Segunda Guerra. Assim, era estritamente proibido zombar da cultura americana em filmes japoneses. Kurosawa, astuto que era, não deixou isso detê-lo, e Anjo Embriagado, sob o véu de um filme de Yakuza, acaba sendo um gande de pastiche e zombaria da cultura americana – muito mais claramente na maneira como Kurosawa usa o jazz no filme.

Na trama, Sanada (Shimura) é um médico alcóolatra em desgraça, que trata um jovem membro da Yakuza, Matsunaga (Mifune), após um tiroteio. Após diagnosticar o jovem com tuberculose, os dois iniciam uma elusiva amizade, que será colocada à prova quando o antigo chefe de Matsunaga volta a fazer parte de sua vida.

Sobre Mifune, foi o filme que fez o diretor se encantar pelos talentos do jovem ator. A dinâmica de movimentação, incomum para atores japoneses, e a rápida composição de expressões – ainda mais incomum – fez com que Kurosawa percebe-se que estava diante de alguém único. E, apesar das inúmeras rusgas entre ambos através de suas carreiras, o diretor nunca mais abriu mão de seu grande astro.

8 – Trilogia Musashi (宮本武蔵 Miyamoto Musashi – 1954/56)

O maior ator da história do Japão encarna o maior herói da história do Japão. Uma ideia tão natural que só estava esperando acontecer. Para ficar ainda melhor, só se fosse dirigido pelo maior diretor da história do país. Entretanto, esse é o primeiro filme de Mifune na lista sem Kurosawa no leme. Mas Hiroshi Inagaki também é um tremendo diretor, e entrega uma parceria igualmente excelente com Mifune.

Dividida em três filmes entre 54 e 56, a trilogia de Musashi conta a história do surgimento e ascensão do lendário espadachim – suas amizades e inimizades, seus amores perdidos, os ensinamentos de Takuan e os mitológicos duelos no templo Ichijoji e contra Sasaki Kojiro. Todos eles foram adaptados da histórica reconstituição ficcional de Eiji Yoshikawa.

O filme não é considerado uma unanimidade no Japão – alguns dizem que existem adaptações melhores da vida de Musashi – mas é inegável que a associação de Musashi com a figura de Mifune beira o inevitável. O talento e envergadura do ator compensam qualquer deficiência técnica que o filme possa ter.

7 – Yojimbo/Sanjuro (用心棒 Yōjinbō – 1961/ 椿三十郎 Tsubaki Sanjūrō – 1962)

Mais um que não é um, são dois (ei, vocês não sabem como é difícil escolher só dez filmes desse cara).

Provavelmente o personagem mais emblemático de Mifune – que, curiosamente, não tem nome – e mais uma brilhante parceria com Kurosawa. Um ronin que peregrina aleatoriamente pelo Japão, Sanjuro é um anti-herói, que representa uma espécie de auto-crítica de Kurosawa ao gênero jidaigeki, que frequentemente endeusa a figura dos espadachins.

Ambos os filmes se passam no final do shogunato Tokugawa, quando o país passava por um período de violência e extrema pobreza. Sanjuro representa muito do cinismo e desespero que tomavam conta do país na época – e que, como não poderia deixar de ser, serve como crítica de Kurosawa aos eventos pós-guerra no Japão.

No primeiro filme, Sanjuro chega em uma cidade cujo controle é disputado por duas gangues rivais. Habilidoso com a espada e extremamente astuto, Sanjuro brinca com ambas as facções em benefício próprio; no segundo, ele interfere para colaborar em um plano para derrubar um oficial corrupto.

A curiosidade fica por conta do fato de que o segundo filme, Sanjuro, deveria apresentar um novo protagonista. Mas tamanho foi o sucesso de Yojimbo, que Kurosawa adaptou o roteiro para apresentar o mesmo personagem. A influência de ambos os filmes é colossal – notadamente, Sergio Leone usou ambos os filmes para rodar os clássicos Por um Punhado de Dólares Por uns Doláres a Mais.

6 – Trono Manchado de Sangue (蜘蛛巣城 Kumonosu-jō – 1957)

Uma verdadeira conquista cinematográfica e narrativa. Kurosawa conseguiu a proeza de, apesar da distância histórica, cultural, linguística e estética, produzir uma das melhores adaptações de uma peça de Shakespeare do outro lado do planeta.

A trama é virtualmente a mesma – Lorde Washizu (Mifune), o análogo de Macbeth, recebe uma profecia, e assassina seu rei sob o comando de sua esposa, Asaji (a ótima Isuzu Yamada), para cumpri-la. Entretanto, as coisas não vão como esperado, e o ambicioso general aprende a mais dura lição sobre traição e ganância.

Não dá para resumir uma peça de Shakespeare em um parágrafo, e nem é para isso que estamos aqui. O que o amigo leitor precisa fazer é sentar e assistir essa obra-prima, que entrega toda a potência de uma peça clássica dirigida por um artista colossal e protagonizada por um ator no auge dos seus talentos. A intensidade apresentada por Mifune nessa adaptação dificilmente encontra pares – o bastante para somente ser comparada com atuações de Laurence Olivier.

Ah, Takashi Shimura também está aqui de novo. Não dá pra ficar melhor.

5 – Rebelião (上意討ち 拝領妻始末 Jōi-uchi: Hairyō tsuma shimatsu – 1967)

Outro grande exemplo de como Mifune não dependia de Kurosawa para explorar o máximo de seu talento. Afinal, qualquer grande diretor reconhecia seu talento – e Masaki Kobayashi certamente foi um dos maiores.

Afinal, poucas pessoas entendiam a essência do gênero jidaigeki como Kobayashi. Em que pese que outros diretores eram mais polivalentes, se se quer entender a figura do samurai no cinema, Kobayashi desponta acima de nomes como GoshaInagaki ou mesmo Kurosawa nesse sentido.

A trama é tipicamente novelesca japonesa: Isaburo Sasahara (Mifune) um exímio espadachim, se vê enfrentando a ira de seu clã, quando seu senhor exige que o casamento de filho seja desfeito para satisfazer sua vontade de reorganizar sua linhagem.

Um drama intenso, que mostra as diversas facetas dessa cultura. A interpretação serena de Mifune destoa de seus habituais personagens cheios de expressão, demonstrando que, mesmo sendo um ator japonês atípico, ele pode encarnar quem quiser.

4 – Inferno no Pacífico (Hell in the Pacific – 1968)

Estranhou não haver o título original japonês? Pois bem, nós dissemos que o talento de Mifune extrapolou fronteiras, e Inferno no Pacífico é um dos melhores exemplares – embora isso não tenha sido reconhecido na época, e o filme tenha fracassado nas bilheterias.

Talvez seja o fato de que seja um filme americano tentando humanizar um japonês durante a Segunda Guerra – obviamente, em 1968, as cicatrizes da Guerra do Pacífico ainda estavam bastante abertas. Dessa forma, o filme de John Boorman acabou perdido nas brumas do tempo.

O que é um verdadeiro crime, pois o filme é genial do início ao fim. Ele quase não tem diálogos, pois é estrelado por apenas dois homens – Mifune e o grande Lee Marvin – tentando sobreviver em uma ilha no meio do Pacífico. Inimigos durante a guerra, eles aos poucos aprendem a desmistificar e descontruir a imagem do inimigo demoníaco, entendendo que a necessidade de sobreviver de ambos vem acima de tudo.

Um pequeno estudo sobre a natureza humana, Inferno no Pacífico é um filme à frente de seu tempo, esperando ser redescoberto. Aqui, fazemos nossa parte para isso.

3 – Samurai Assassino ( Samurai – 1965)

Talvez o filme com a trama menos complexa e dramática dessa lista. Em compensação, a pancadaria é da mais alta qualidade. Dirigido pelo ótimo Kihachi Okamoto, o filme é baseado em um evento histórico, quando o lorde Ii Naosuke foi assassinado em frente aos portões Sakurada, no Castelo Edo.

O filme conta a história de Niiro Tsurichiyo (Mifune), o filho ilegítimo de um nobre poderoso, que decide se tornar um habilidoso espadachim para sobreviver na sua condição de marginal social. Ele se une com diversos clãs contra o lorde Naosuke, quando esse faz uma escolha muito pouco popular sobre a herança de poder do shogunato. Nisso, Tsurichiyo se vê pego em uma trama de assassinato que pode mudar a balança de poder.

Mifune está no auge de sua potência física aqui. Os duelos e cenas de ação transmitem um naturalidade que fizeram muitos questionarem se o ator não seria, de fato, até melhor espadachim do que era ator.

2 – Rashomon (羅生門 Rashōmon – 1950)

A aula narrativa suprema, e um dos melhores filmes já feitos. Rashomon é o primeiro filme japonês com amplo reconhecimento internacional, e foi o filme que levou os nomes de Kurosawa e Mifune para o resto do mundo. A única injustiça aqui é que Takashi Shimura, novamente presente, nunca recebeu o mesmo tipo de reconhecimento, apesar de seu incomparável talento.

Um crime aconteceu: um homem foi assassinado. Entretanto, haviam poucas testemunhas. Dessa forma, quando do julgamento, resta àqueles que investigam ouvir as versões de cada um – em um momento sui generis que mistura humor e drama, até mesmo a opinião do morto é ouvida. O que necessariamente ocorre é que existem disparidades e coerências entre cada descrição, e o espectador fica sem saber qual é a verdadeira.

Entretanto, esse é o verdadeiro escopo do filme, sua real natureza filosófica: afinal, o que é verdade? Melhor dizendo, o que é A verdade? Ela existe de fato, ou é um produto do meio e/ou da mente? Rashomon não vai te oferecer respostas – mas certamente irá provocar inúmeras perguntas.

A condução da narrativa em vários momentos, reconstituindo os eventos por diversos pontos de vista, é algo fora do normal. A narrativa flui como se fosse linear e, mesmo indo e voltando, o espectador é plenamente capaz de compreender o que está acontecendo e os questionamentos que são propostos.

E aí, entram, é claro, as atuações. Mifune interpreta Tajomaru, o homem acusado do crime. “Soberba” é pouco para definir o que ele faz – a entrega e a intensidade na construção dos elusivos e tempestuosos rompantes de seu personagem tornam sua interpretação em Rashomon algo digno de ser estudado por qualquer pretenso ator em qualquer lugar do mundo.

Já deu pra entender que Rashomon é um filme necessário na sua estante, né?

1 – Os Sete Samurais (七人の侍 Shichinin no Samurai – 1954)

Richard Wagner falava sobre a gesamtkunstwerk, a “obra de arte total”, aquela que encerra em si elementos sublimes de diversas artes. Se isso existe ou não, não cabe a nós dizer – mas que Os Sete Samurais é um forte candidato, isso é.

Tudo que se pode esperar, desejar, ou apreciar na sétima arte pode ser encontrado aqui. Tecnicamente impecável, narrativamente profundo, com atuações perfeitas, transitando de forma natural e fluida entre praticamente todos os gêneros disponíveis no cinema – talvez somente com exceção do terror/horror. Talvez.

Embora se possa discutir qual é a melhor obra de Kurosawa, é quase impossível dizer que Sete Samurais não atinja o nível máximo em praticamente todos os aspectos de uma obra cinematográfica. Sete Samurais é o tipo do filme que você leva pra ilha deserta, coloca no bunker pro fim do mundo, manda pro espaço pros aliens verem – esse tipo de coisa.

Na trama, sete ronins são contratados por um vilarejo extremamente pobre para defende-los do vindouro ataque de um enorme bando de criminosos. Com poucos recursos e pouco tempo, eles fazem o possível para armar os camponeses e ensina-los a se defenderem. Enquanto permanecem na vila, eles percebem o tamanho do sofrimento da vida campesina, e o quanto da responsabilidade de sua pobreza recai sobre a violência e a opressão da própria classe samurai, a qual um dia eles perteceram.

Mifune interpreta Kukichiyo, um pretenso samurai encrenqueiro e barulhento, que se une aos outros seis – um pouco contra a vontade deles. Kukichiyo é ponto fora da curva – ele representa a crítica contra a classe samurai do ponto de vista dos próprios samurais. Essa ousadia na construção do personagem se reflete na atuação de Mifune – novamente muito intensa, oscilando com naturalidade entre momentos de humor, drama e raiva. O seu plot twist é um dos mais notáveis da história do cinema; uma verdadeira aula narrativa de Kurosawa.

A nota curiosa é que Kurosawa originalmente escreveu o filme para seis samurais – Mifune seria um dos camponeses. Entretanto, a ideia de seis samurais sérios parecia muito chata. Assim, ele tornou Mifune um dos sete, e deu total liberdade criativa para compor seu personagem. Ou seja, toda a genialidade Kukichiyo é a genialidade de Mifune.

Sete Samurais é, e sempre, uma daquelas raras obras atemporais praticamente perfeitas.

Gostou do nosso artigo? Não deixe de curtir, compartilhar e comentar! E não se esqueça, é claro, de assistir mais filmes de Toshiro Mifune. Arigato gozaimassu!

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