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Lady Bird: A Hora De Voar – Celebração do medíocre!

Lady Bird: A Hora De Voar é uma ode aos espíritos medíocres

Há duas maneiras de se olhar para Lady Bird: A Hora De Voar (Lady Bird): a primeira analisa o filme a partir do seu sucesso estrondoso (unanimidade entre os críticos e várias indicações nas principais premiações da indústria). Nesse modo de análise, o resultado mais interessante que se pode obter é um diagnóstico de como os adolescentes e adultos da atualidade reagem a determinados personagens e histórias. Já a segunda é uma avaliação isolada da obra, o método crítico por excelência, ou seja, o julgamento de um filme por aquilo que ele é, independentemente do ambiente criado ao redor.

Crítica de Lady Bird: A Hora de Voar

Lady Bird: A Hora de Voar

Partindo dele, nota-se que não há justificativa cinematográfica para o sucesso do longa, muito menos para as declarações de ódio que rotineiramente acompanham as obras de arte demasiadamente elogiadas. Afinal de contas, tudo neste longa-metragem de Greta Gerwig é medíocre. São conflitos medíocres vividos por personagens medíocres em um filme medíocre. Sendo assim, a única reação possível é a total indiferença. Alguns dos poucos elementos que se destacam são as atuações do talentoso elenco (Tracy Letts, de Indignação, surpreende como o pai com depressão) e a química entre Laurie Metcalf e Saoirse Ronan, mãe e filha, respectivamente.

De resto, quase nada chama atenção. Nos quesitos estético e técnico, as escolhas dos realizadores se revelam pouco inspiradas. Se, por um lado, a iluminação naturalista de Sam Levy (cujo trabalho de maior expressão é a fotografia em preto e branco de Frances Ha) mostra Sacramento como um lugar simples e sem vida (o que é condizente com o desejo que a protagonista tem de fugir da cidade), por outro lado, cria uma narrativa modorrenta e visualmente monótona na qual nenhuma emoção é transmitida por luzes, sombras ou pela composição dos quadros.

Isso piora com o trabalho de Gerwig, uma vez que a pobreza vista no seu primeiro longa também dá as caras nesta segunda empreitada. À exceção dos travellings laterais que revelam as casas e ruas que compõem as paisagens dos bairros (recurso que, no entanto, é empregado em excesso) e dos planos de conjunto que reúnem Ronan e Metcalf mesmo quando elas estão brigando (o que serve para estabelecer o elo emocional entre as duas), tanto os enquadramentos quanto a mise-en-scène não dizem nada sobre a dinâmica entre as personagens e a posição de poder gozada por cada uma delas.

Crítica de Lady Bird: A Hora de Voar

Dramas menores e conflitos inexistentes

Essa indigência, por sua vez, é completamente assistida pelo roteiro da cineasta, o qual, apesar de conter alguns diálogos eficientes do ponto de vista cômico, encara a trajetória da protagonista com uma total ausência de intensidade dramática (os cortes abruptos da montagem contribuem para esse problema). Nenhum acontecimento recebe a atenção devida. O ensinamento católico, por exemplo, é um mero detalhe do texto, já que em nenhum momento ele aparece como algo capaz de ajudar ou atrapalhar a vida de Lady Bird. Isso também vale para a subtrama desnecessária envolvendo a melhor amiga (Beanie Feldstein) e para a descoberta de algo relacionado a um dos seus namorados (Lucas Hedges, de Manchester À Beira-Mar), revelação rapidamente abandonada por Gerwig e que não gera a menor consequência.

Do outro lado da moeda, existe o falso conflito principal. Analisando friamente, não há nenhum problema entre a protagonista e a sua mãe. Fica claro desde o início que as duas se amam e as discussões que têm são uma mera contingência oriunda da fase pela qual Lady Bird está passando, mas como a diretora não tinha quase nada em mãos, a não ser um coming of age muito distante dos melhores títulos sobre o assunto, ela precisa transformar simples batalhas verbais em cenas dramáticas. Eventualmente, tudo acaba se revelando um jogo de cartas marcadas decepcionante e ilusório (o título do filme nasce da vontade da protagonista de voar para longe da cidade natal).

Isso também acontece porque a protagonista é, sob todas as perspectivas, vazia. A mãe interpretada por Metcalf até consegue apresentar certa honradez, principalmente na forma como luta para manter a família saudável e blindada diante de qualquer problema. Já Lady Bird não consegue mostrar uma qualidade sequer. Não há nada em sua personalidade que seja atraente. É uma personagem seca, intelectualmente limitada e que pouco se importa com as coisas que acontecem à volta. Aos seus olhos, tudo é visto com um cinismo infantil, do qual é impossível para o espectador retirar algo de valor.

Crítica de Lady Bird: A Hora de Voar

Dessa maneira, Lady Bird: A Hora De Voar é tão descartável e esquecível quanto a maioria das comédias adolescentes lançada anualmente nos cinemas. Se parece mais artística ou autoral é porque Gerwig, amplamente amparada nas táticas do seu “mestre”, o fraco Noah Baumbach (diretor de Mistress America e do supracitado Frances Ha), é inteligente o suficiente para preencher a superfície com falas espertinhas, uma ironia debilitada, um visual típico dos filmes indies norte-americanos e uma nostalgia nada crível. Porém, mal sabe ela que essas características não afastam o seu filme da mediocridade, mas, pelo contrário, o aproximam perigosamente.

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    Eu quase gostei da crítica, mesmo discordando completamente dela. Afinal, o rapaz responsável sustenta seus adjetivos explicando-os no filme.

    Agora… é complicado você, ser humano brasileiro, falante de português, com uma cara de seus 20 e tantos anos, qualificado profissionalmente em outra área, não crítico oficial de cinema vir afirmar veemente que, por meio do “método crítico por excelência”, este filme é medíocre.

    Isso é assumir que existe uma verdade absoluta, quando… não, não há.

    Dois críticos e duas críticas, com as mesmas qualificações profissionais, mesmas características físicas, mesmos pontos de partida sociais, formados e formadas pelas mesmas escolas, instituições e referências podem discordar entre si.

    Primeiramente, qual é esse método? Até porque, “crítica” é um conceito muito geral. Muito. Há várias maneiras de fazer.

    Crítica técnica? Técnica do quê? Direção? Roteiro? Iluminação? Atuação? Fotografia? Montagem? Maquiagem?

    Narrativa? Copio e colo: narrativa em qual aspecto? Direção? Roteiro? Iluminação? Atuação? Fotografia? Montagem? Maquiagem?

    Escolhido o aspecto, qual tipo de narrativa? (Linear, não linear; lenta, rápida;)

    Pulando tudo isso, esse método crítico por excelência é estado unidense? Francês? Japonês? Iraniano? Brasileiro? Alemão? É…

    Sabe… durante muito tempo, tremer a câmera foi amador. Hoje, pode ser para emular um ponto de vista; para emular ansiedade; para emular destruição; para emular nervosismo… Pode ser simplesmente por ser: o filme é de orçamento baixo, as pessoas querem algo mais “real”, no sentido de uma escola como Dogma 95, que odiava a maneira americana de se fazer cinema. Especificamente, Hollywood.

    Porque… ok. Eu entendo os incômodos na crítica. Como disse no começo do meu texto, discordo.

    Todos os conflitos me tiveram tamanho suficiente.

    Mãe e Filha se amam e têm discussões “oriundas da idade da protagonista”. Ok. … isso não é um problema real?

    Pro autor, pode não ser. Pra mim, claramente é.

    As duas convivem 24/7. Não só discordam na maneira de ver o mundo, como exigem condutas e resultados direta e indiretamente sob suas respectivas perspectivas de como aquela relação deveria ser: a mãe, quer uma filha responsável. Que entenda sua situação financeira, não queira farrear além do economicamente viável e trabalhe/estude para ter um futuro. A filha quer ser amiga da mãe, curtir o momento, viver uma vida que seu status financeiro não permite.

    Isso é um problema sim. Isso gera conflito sim. Isso não só é problema em um filme, mas é também na vida real. Tanto de famílias ricas, quanto de pobres. Problemas de relação e convivência humana.

    Como o autor quer me convencer de que ele tem um “método crítico por excelência” desconsiderando um problema desses?

    O que ele diria de Ohayo, então? Um filme sobre dois irmãos que fazem um voto de silêncio até os pais comprarem uma televisão para eles. Filme que discute a vida em sociedade, fofocas, jogo de poder entre pais e filhos, lealdade, imaturidade, fanatismo ideológico (dos pais que, em plena década de 50, juram que a tv lobotomizará os filhos…).

    Complicado. Todos os outros conflitos, pra mim, são mais do que suficiente. E escritos de maneira a deixar um subtexto para as mais atentas:

    quando Lady Bird pede desculpas ao pai por sentir vergonha de sua família, ele consegue ânimo para ir procurar um emprego.

    O irmão? Tanto critica a irmã, mas faz o mesmo: vive um estilo que não gosta para agradar sua namorada. Pois teme que se ele não for igual a ela, ela o deixará (The Lobster, rs). E pouco importa o que aconteceu com a namorada. Ela teve seu papel cômico, seu papel para uma personagem secundária e para a protagonista: quando elogia a mãe de Lady Bird, fazendo-a refletir sobre suas impressões familiares.

    A melhor amiga? Desilusão com o professor. Com pouquíssimas opções, quase perde a única amiga.

    O primeiro amor? Tem uma questão que o impossibilita de ficar com a protagonista. Quando ela descobre, raiva. Mesmo sendo ela progressista. Quando para pra pensar e acalmar o coração, quando o vê chorar na frente dela, entende o drama do menino. E vê que não há culpa ali, somente uma má sorte dela.

    Isso se estende pra personagem do Thimotée e afins.

    Portanto, assim: achou meia bomba? Medíocre? Uma merda? Ok. Só não puxa falácia de autoridade não, fera.

    Não existe “o método crítico por excelência”. Existem os métodos. Existem as pessoas. Existem as verdades.

    Você querer defender a sua, massa. Você querer manipular sua audiência dizendo que “sabe a maneira absoluta de julgar um filme”, bem zoado.