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Caminho de Formiga #04 – Onde o herói moderno quer chegar?

Tempos modernos pedem um herói moderno

O homem moderno é um ser questionador. Suas concepções de herói moderno precisam seguir essa tendência. Esse personagem agora se pergunta se quer ser um herói, e não como se tornar um. E tudo isso começa no Iluminismo.

Como vimos no CdF#03, que você pode ler aqui, o conceito do herói clássico vinha do padrão moral regido pelos deuses. Era deles que partiam todas as definições do bem e do mal, e ao homem restava tentar adquirir conhecimento, para então se colocar mais próximo do panteão. O Herói era alguém que era guiado pelo Divino.

Com o Iluminismo e a queda do conceito teocrático, temos uma mudança no design do herói. Ele não era mais alguém que buscando ser parecido com os Deuses, e sim aquele que se ilumina por mérito próprio. O homem seria sua própria luz.

Mas para questionar a autoridade do divino era preciso primeiro quebrar o padrão de perfeição idealizada pelos gregos. Não podíamos mais idolatrar o perfeito, o inalcançável. Tínhamos que começar a nos entender por humanos falhos, e transformar isso no novo padrão.

herói moderno

Walter White, mencionado anteriormente no Caminho de Formiga, é um exemplo recente de anti-herói.

Estava criada a era do anti-herói. Um personagem que não se põe em marcha por que algo ou alguém o diz que deve, e sim porque sente que é o correto segundo seus próprios dogmas.

A moralidade imoral

O antigo herói se pautava pelo conceito da moral. E a moral era ditada por regras que não partiam dele, mas de ancestrais que a passavam de geração em geração moldando algo que, mesmo que incompreensível ou invisível, era a verdade, pois alguém há muito tempo atrás disse que era.

O herói moderno nasce pelo questionamento do que lhe foi passado como regra. Ele não entende o porquê de ter que seguir ordens de alguém que nem mesmo está lá. Ele é alguém que escolhe ser imoral, ou seja, conhece a moral, mas não a segue. E isso não passa incólume.

Esse personagem que questiona o que é “certo” também sofre por isso. Pois ele não está preparado para a responsabilidade de formar o novo padrão. Como substituir o que é divino pelo que é humano, se ele mesmo não se sente capaz de dirigir sua vida sem Deus?

Por isso, o anti-herói sempre está em conflito. Ele não se sente perfeito. É uma peça quebrada na engrenagem que parecia perfeita. A angústia, a dúvida, a culpa, o erro, o pecado são características humanas e estão presentes nele. Por isso o anti-herói não procura a perfeição dos deuses – ele quer tentar aceitar que é falho.

O exemplo de Onde os Fracos Não tem Vez

Em Onde os fracos não tem vez (No country for old men, 2007), filme dos irmãos Coen, temos uma comparação interessante entre o herói clássico e o moderno. E ainda teremos uma evolução desse personagem: o não-herói.

O delegado Bell, interpretado por Tommy Lee Jones, é a definição do herói clássico. Um homem que vive pela moral, um conceito que ele conhece bem, uma vez que toda sua linhagem é de delegados, e que tem totalmente definido para si o conceito do bem e do mal. Esse homem não se questiona quanto ao que acredita, mas percebe que esse conceito não define mais o mundo.

Llewelyn Moss, o caçador que não consegue matar um animal com um rifle, pobretão, que vive em um trailer e não consegue ter sucesso, retrata a situação social do “white trash” americano. Representado por Josh Brolin, este personagem é a concepção do anti-herói ou herói moderno.

herói moderno

Llewelyn Moss!

Ele foi criado dentro das regras da sociedade, mas não se encaixa nelas. Se pergunta por que deve seguir regras em que não pode alcançar o sucesso. Para esse homem, que vive numa corda bamba entre o certo e o errado, a maior dúvida é se aquilo que ele faz vale a pena. Ele sabe que é um crime, mas tenta achar uma forma de justifica-lo dentro da moral que lhe foi ensinada.

O terceiro elemento apresentado é o não-herói. O assassino Chigurh, magistralmente interpretado pelo espanhol Javier Barden, é algo novo. Um homem que é amoral.

Não é que ele procure justificar seus atos – ele simplesmente não se pauta por regras vindas de outras pessoas. Mas também não é que ele não tenha regras. Percebemos isso quando ele usa uma moeda para decidir destinos. Suas regras são únicas, e criadas por ele. Nesse conceito, ele sobrepõe a antiga moral por uma nova, sem herança da antiga.

Ele não é um herói moderno por que não busca a perfeição divina; mas também não é um anti-herói, pois não tenta entender a falibilidade de ser humano. Ele é seu próprio e novo Deus, e irá substituir o velho pelo seu novo.

Mas falaremos disso em outra ocasião. Obrigado por ler até aqui, e se quiser ver os outros artigos pode clicar neste link. E se quiser perguntar algo ou dar sua opinião pode fazer isso nos comentários. Até o próximo mês com mais um Caminho de Formiga.

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