Home > Cinema > Funcionário do Mês – Pastelão à Italiana!

Funcionário do Mês – Pastelão à Italiana!

Funcionário do Mês

No título original de seu último trabalho (Quo Vado?), o roteirista e ator Checco Zalone faz alusão à passagem do evangelho apócrifo em que o apóstolo Pedro pergunta para Jesus Cristo, após a ressurreição, onde ele estava indo (Quo Vadis?). Batizado por aqui como Funcionário do Mês, o filme foi dirigido por Gennaro Nunziante – parceiro habitual do comediante e co-roteirista do longa – e mostra Checco (sim, o personagem tem o mesmo nome do seu intérprete) como um funcionário público extremamente feliz, com um emprego medíocre em uma repartição pública da província onde mora.

A relação com a frase do evangelho faz todo sentido a partir da reviravolta na vida do protagonista. A rotina muda quando um ministro em ascensão realiza uma grande alteração na legislação trabalhista, que anula os cargos desnecessários a fim de desburocratizar os diversos setores públicos. Neste momento, alguns permanecem com a estabilidade, como os casados, inválidos e idosos, mas Checco, que era solteiro e morava com os pais, precisa decidir entre assinar uma demissão voluntária, se privando da rotina e do conforto com o qual já está acostumado, ou a transferência para um local distante. Ele opta pela transferência e começa a ser remanejado para lugares longínquos, violentos e até para o Polo Norte, sempre arranjando uma forma de se adaptar, tudo para não perder as regalias garantidas pela estabilidade.

Funcionário do Mês

A história é recheada de clichês (como a série de infortúnios pelos quais o protagonista e seu carismático guia de viagem passam e a reação dos pais dele à uma nova realidade) e possui algumas piadas que perdem o contexto para os estrangeiros. Ainda assim, tem pontos interessantes, como a dinâmica entre Zalone e seu interesse amoroso, a pesquisadora Valéria, vivida pela atriz Eleonora Giovanardi, bem como a interação entre ele e a responsável pelas demissões, Dra. Sironi, interpretada por Sonia Bergamasco, uma mulher bonita, mas de grande frieza e que se vê vencida em seu próprio jogo. O núcleo infantil, composto pelos filhos de Valéria, cada um de uma idade e nacionalidade, é bem integrado ao elenco adulto, apesar do pouco espaço em cena.

O filme, a maior bilheteria da história do cinema italiano, se resume a um pastelão que, ora parece acelerado, ora lento demais nas resoluções dos conflitos, sempre tentando arrancar do espectador uma risada fácil, que nem sempre vem – e quando vem, é uma mistura de surpresa e vergonha alheia. Em um determinado momento, abre-se mão da narrativa tradicional por um número musical protagonizado pelo próprio protagonista, onde ele assume sua persona humorística e musical com mais veracidade do que seu lado ator de cinema. A explicação fica muito mais clara pelo uso desse recurso, mesmo sendo esta uma passagem estranha ao ritmo que a história possui. A música, La Prima Repubblica, inclusive, está disponível tanto no YouTube quanto no aplicativo Spotify.

Funcionário do Mês

É interessante notar que há muita semelhança entre a lei trabalhista italiana e a CLT brasileira. Fala-se em licenças remuneradas, 13° salário, estabilidade do servidor público e demissões voluntárias, o que, na atual conjuntura, reflete a realidade e certamente irá seduzir o público brasileiro. Como entretenimento, vai levar muitos às salas de cinema e vai divertir bastante. O foco do filme, porém, é mostrar exclusivamente a jornada de redenção do protagonista, de homem acomodado e sem anseios a uma pessoa mais civilizada e com perspectivas, sem muita reflexão para o que significa ter ou não estabilidade e direitos assegurados ou sobre a honestidade dos políticos, seja na Itália pós-Berlusconi ou no Brasil pré-impeachment.

Funcionário do Mês

Checco Zalone ainda é desconhecido do grande público brasileiro, mas poderá se tornar uma figura humorística expressiva, dependendo do sucesso de Funcionário do Mês. Seu humor de riso fácil e pouca necessidade de reflexão por parte do espectador é bem familiar do brasileiro. É o divertir por divertir e não há nenhum demérito nisso. Mas o motivo de toda a história (o comodismo do funcionário público e as condições trabalhistas para profissionais nesta categoria) poderia render um roteiro melhor construído.

Já leu essas?
Elder Fraga premiado melhor diretor por curta baseado em Shakespeare!
Crítica de Uma Razão Para Viver
Uma Razão Para Viver – Estreia frustrada de Andy Serkis na direção!
Crítica de Liga da Justiça
Liga da Justiça – Joss Whedon é o membro mais valioso da equipe!
O filme da Liga da Justiça no Formiga na Cabine
Liga da Justiça no Formiga na Cabine!