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A Terra Vermelha – Os problemas dos agrotóxicos!

A Terra Vermelha esquece de ser Cinema

A Terra Vermelha (La Tierra Roja) busca usar a linguagem cinematográfica para transmitir uma mensagem importante sobre saúde pública. Há muito tempo é discutido se o Cinema deve ser uma ferramenta de protesto ou até mesmo se é uma arte intelectual. Será que a sua linguagem deve se restringir somente a produzir uma experiência sensorial, emotiva e sem nenhum caráter de contestação? Essa é uma discussão complexa que terá de ficar para outra hora. O que não pode acontecer, de maneira alguma, é travestir um manifesto político na forma de história e esquecer de realizar um filme durante o processo, como o faz Diego Martínez Vignatti neste seu novo longa.

Filme Terra Vermelha

Também escrito pelo diretor, juntamente com Melanie Delloye e Nicolas Sáad, o roteiro conta a história do belga Pierre (Geert Van Rampelberg). Trabalhando no coração das matas sul-americanas, em algum lugar entre a Argentina e o Uruguai, ele é encarregado de derrubar e pulverizar as árvores que serão usadas por uma papeleira local. No entanto, quando descobre que o uso de agrotóxicos está comprometendo a saúde daqueles que moram nas imediações mais próximas, não sabe se opta pela resignação completa ou se faz algo a respeito, como se juntar aos manifestantes.

A mensagem de A Terra Vermelha é clara: os agrotóxicos são venenos perigosos. Frente ao constante uso dessa substância, mesmo com as suas consequências sendo amplamente conhecidas, emitir um comentário sobre o assunto é sempre relevante. Mas será que o Cinema é o melhor meio para se fazer isso? Pode até ser, desde que os elementos básicos que constituem a sua linguagem sejam respeitados. Coisas como história, técnica narrativa e personagens não podem ser deixados de lado e,menos ainda, obliterados pela importância do conteúdo que está sendo transmitido. Antes de ser um meio para algo, arte é linguagem.

Sendo assim, para que o seu filme atingisse o âmago do espectador, Vignatti devia ter eliminado o romance entre o protagonista e Ana, a ativista interpretada por Eugenia Ramírez, pois, do jeito que está, é evidente que o relacionamento entre os dois é uma motivação maniqueísta; investido mais na ambiguidade dos desmatadores, afinal, logo depois de reconhecer que eles geram empregos e são importantes para a economia da região, o filme os transforma em seres unidimensionais, tornando a história um embate infantil entre bons moços e vilões; e deixado de fora as cenas de rugby, uma vez que não contribuem quase nada para a narrativa.

Filme Terra Vermelha

 

É um filme ou um documentário?

Já tecnicamente, o cineasta devia ter se decidido pelo documentário ou a abordagem ficcional. A forma como a trama é narrada indica que a intenção do diretor era se apropriar de uma história de amor fictícia para mostrar eventos reais, porém, a linguagem vai na direção oposta, e a fotografia completamente chapada, a impressão de um desprendimento técnico e a maneira com que o filme está muito próximo da realidade apontam para uma certa ambição documental. Como quase os todos filmes que decidem trilhar caminhos parecidos, em nenhum momento, essas duas vertentes funcionam.

Ao não fazer essas coisas, Diego Martínez Vignatti impediu que A Terra Vermelha encontrasse um ponto de equilíbrio entre sua forma e conteúdo. Produções recentes como Eu, Daniel Blake eprincipalmente, Z – A Cidade Perdidaforam mais bem-sucedidas na tarefa. Não adianta ter o sentimento certo se quase nada no filme se sustenta pelos seus próprios méritos. Já que era para ser assim, em vez de fazer um longa metragem, era preferível que o diretor se juntasse aos manifestantes e fosse protestar dentro do campo político. Tanto o seu tempo quanto o nosso seriam melhor gastos.

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