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Lucky – A sorte de um filme leve e sóbrio a respeito do fim!

O filme Lucky traz reflexão leve e sóbria sobre a existência do fim

Pode ser que o leitor leve algum tempo para associar o nome à pessoa. Afinal, John Carroll Lynch é um ator cuja carreira no cinema se consolidou com papeis secundários. Seu rosto, no entanto, é sempre familiar. Mas não será pelo filme Lucky (idem) que passará a ter sua fisionomia mais conhecida, porque aqui ele faz sua estreia atrás das câmeras. E o resultado não é nada decepcionante. No entanto, parte do sucesso dessa estreia pode ser atribuído a quem está diante das câmeras.

Crítica do filme Lucky, com Harry Dean Stanton.

Lucky

Lucky, como é conhecido o protagonista, é interpretado pelo veterano Harry Dean Stanton. Entre dezenas de trabalhos no cinema e na TV, o ator, falecido aos 91 anos em setembro deste ano, também nunca alcançou um estrelato de primeiro time, embora protagonize um dos filmes mais belos da história do cinema: Paris, Texas, de 1984, dirigido por Wim Wenders (do recente Os Belos Dias De Aranjuez).

É a nonagenária idade de Stanton que dá substância à nonagenária idade de Lucky, um homem que vive só, sem mulher nem filhos, em uma pequena cidade no interior dos EUA. Sua rotina diária consiste em exercícios matinais, palavras-cruzadas no restaurante local, programas de TV à tarde e um drinque à noite com velhos conhecidos em um bar. Uma rotina que inclui passar religiosamente em frente a um misterioso portão, xingar em voz alta e seguir adiante. Até que sofre uma queda em casa.

Na clínica, sem ter sofrido maiores danos, recebe o diagnóstico: está velho e, pior, está ficando ainda mais velho. A obviedade cômica dessa constatação impacta profundamente Lucky. De repente, ele é confrontado com a inevitabilidade de sua finitude, apesar da boa saúde que ainda goza.

A morte no horizonte

A dura realidade de encarar a velhice e a certeza da morte se aproximando é o tema sobre o qual Lucky quer se debruçar. A direção de Carrol Lynch busca fazer isso colocando a perspectiva pessoal como um ponto incontornável. Cada um viverá seu fim à sua maneira e isso se chama realidade. É esse o proposto quando, ainda no primeiro ato, o protagonista insiste em explicar às pessoas como o dicionário define a palavra realismo. Com alguma filosofada de almanaque, diz que a realidade é sempre algo individual, nunca sendo a mesma para todos.

Crítica do filme Lucky, com Harry Dean Stanton.

Certa ironia dessa perspectiva em relação ao realismo é encontrada na participação do diretor David Lynch. Ele faz o personagem Howard, um homem quem está sofrendo com o desaparecimento de seu cágado de estimação. Como se sabe, na obra de Lynch o realismo não costuma passar nem no portão, quanto mais entrar em cena.

A reverência a essa obra vai além da presença do diretor no elenco, está também em uma sequência de sonho, numa clara referência a seu estilo, e na própria essência do personagem que interpreta.

Mas o filme é, sobretudo, uma grande homenagem a Harry Dean Stanton. E sua interpretação desse veterano da Segunda Guerra, cético sobre a espiritualidade, é um pequeno achado existencialista.

A fisicalidade de sua atuação carrega os anos de sobrevivência e solidão em cada passo, em cada gesto. Sua transitoriedade no mundo e a ausência de significado disso é emoldurada pela paisagem. Há a natureza resistente e dura do deserto, uma aridez indiferente que permanece enquanto ele passa. E há, por outro lado, um certo abandono na desolação da pequena cidade pela qual ele transita, onde vive.

Melancolia sem tristeza

São elementos que, reforçados pela melancolia sutil de suas relações e pela misteriosa persona com quem ele supostamente fala ao telefone, nos mostram um personagem alheio, em princípio, à sua própria condição. Isso, porém, muda depois da queda. Até então, do ponto de vista da existência humana, de seu sentido ou significado, quase tudo em Lucky nos leva a certo vazio, mas sem tristeza.

Crítica do filme Lucky, com Harry Dean Stanton.

Participação especial de David Lynch!

Carrol Lynch capta tudo isso com competência, leveza e sobriedade. Sua direção preserva a simplicidade que o fio de roteiro exige. Afinal, não há necessariamente uma trama, mas um arco dramático inteiramente passado na vivência íntima do protagonista. Uma estreia arriscada pela complexidade de capturar essa essência com sentimento e sem artificialismo, algo que ele consegue fazer muito bem apostando na economia.

Apesar de algumas filosofadas baratas, o que Lucky realiza como drama é convincente e, sobretudo, sincero. O processo pelo qual seu personagem vai passar nem sempre preserva a sutileza pretendida, mas exprime uma autenticidade cujo maior mérito está no seu ator, naquilo que representa seu personagem e também o homem real por trás dele.

A sorte maior, no caso, é alguém ter feito um filme para homenagear um Stanton ainda vivo, dando a ele a chance de deixar na tela sua marca – e suas marcas, com todas as histórias que elas carregam. Se há algum significado ou sentido nisso tudo é uma questão que o filme coloca à sua maneira e essa descoberta depende, naturalmente, de assisti-lo. A experiência, contudo, tende a ser recompensadora, prazerosa e divertida.

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