Home > Cinema > Joaquim – As mazelas do Brasil em um filme irregular!

Joaquim – As mazelas do Brasil em um filme irregular!

O filme Joaquim desconstrói a imagem do herói social

O Cinema, desde que a gramática da sua linguagem foi estabelecida na década de 1910 por filmes seminais como Nascimento de uma Nação (que fez parte de uma seleção em um Formiga na Tela), se apropriou de lendas e mitos criados ao redor de figuras históricas  para narrar eventos cuja magnificência fosse equivalente à capacidade de criar espetáculos visuais e sonoros característicos da sua técnica. Porém, há cerca de sessenta anos, existe um movimento contrário, coabitando paralelamente, que também consiste na apropriação dessas lendas e mitos, mas com a deliberada intenção de desconstruí-los. O filme Joaquim, que aborda parte da vida do inconfidente mineiro Tiradentes, claramente, faz parte desse segundo movimento.

O filme Joaquim desconstrói a figura de Tiradentes!

O filme Joaquim procura desconstruir a figura de Tiradentes!

Nos livros de história e nas representações pitorescas, Joaquim José da Silva Xavier é retratado como um mártir, um genuíno herói social e político – talvez o maior de todos na história brasileira. Além disso, a partir daquilo que se lê, vê e ouve sobre o assunto, ele carregava fervorosamente dentro de si os ideais de liberdade que o transformaram num antecessor de Dom Pedro I. No entanto, no filme de Marcelo Gomes – que mostra o protagonista, guarda oficial da corte portuguesa, tentando reunir uma quantia de ouro suficiente para a compra da escrava pela qual está apaixonado -, descobre-se que, em vez de um herói social ou político, ele era, de fato, um herói às avessas.

Ordinário e com interesses idênticos aos dos seus conterrâneos e contemporâneos, Tiradentes estava muito mais interessado em riqueza material, promoção profissional e em ter para si a escrava da sua preferência do que em ser o líder de uma revolta popular e libertária. Aliás, é somente no momento em que os seus interesses mais imediatos não saem de acordo com o planejado e as pessoas nas quais confiava o traem que ele decide direcionar a sua raiva pessoal para os abusos da corte portuguesa, tentando transformar o sentimento íntimo no disparo inicial de uma comoção coletiva. Até então, a sua consciência política  se restringia a comentários irônicos numa mesa de bar.

Contundente e real, esse retrato do homem por detrás do mito acontece graças às escolhas feitas por Marcelo Gomes. Como roteirista, ele acerta ao omitir informações supérfluas da infância e juventude do protagonista (como qualquer cinebiografia medíocre faria) e concentrar a narrativa na jornada empreendida por ele e outros homens na busca de ouro. Além de fazer referência ao Western e a clássicos do Cinema como O Tesouro de Sierra Madre, essa estrutura reforça a ideia de que é nas tarefas do dia a dia, nos gestos mais sutis e nas interações com as pessoas que estão mais próximas que se revela o verdadeiro caráter de um homem.

O filme Joaquim desconstrói a figura de Tiradentes!

Encontrando reflexo na própria história do protagonista (assistindo a Joaquim, vê-se como as ações grandiosas de Tiradentes pouco serviram para revelar a sua verdade interior), essa estrutura também é essencial para revelar um pouco do panorama social e cultural do Brasil da época. Assim, a jornada do protagonista não gira somente em torno dele, mas também da exploração colonial, da escravidão, do comportamento abusivo dos portugueses, dos quilombos (que talvez tenham sido os primeiros movimentos de revolta coletiva) e dos papéis exercidos pela aristocracia, burguesia e Igreja Católica na sociedade brasileira. Embora não sejam devidamente aprofundados, a mera presença física e cultural desses elementos é suficiente para a elaboração de um retrato abrangente do país.

Já como diretor, Gomes investe corretamente numa lógica visual naturalista que é condizente com a proposta de abordar a vida do protagonista de uma maneira mais real (a fotografia de Pierre de Kerchove trabalha com fontes naturais de luz, além de iluminação à velas e lamparinas) e em um trabalho de câmera que consiste em aproximá-la, através de movimentos sinuosos e intensos close-ups (como Pablo Larraín fez em Jackie e Darren Aronofsky – que foi tema de um FormigaCast – faz em seus filmes) de Tiradentes, tanto nos momentos mais cômicos (a cena em que se aproveita da posição de dentista para chantagear um homem) como nos instantes mais íntimos (a cena de sexo entre ele e a escrava).

As escolhas equivocadas de Marcelo Gomes

Porém, essa desconstrução do mito existente ao redor de Tiradentes só acontece até o terceiro ato. Nos minutos finais, paramos de acompanhar o estudo de personagem que estava sendo realizado e começamos a ver as engrenagens da inconfidência iniciarem o seu funcionamento. E é nesse momento que, infelizmente, o filme perde o seu foco. Com cenas desnecessárias e risíveis, como a que mostra o protagonista gritando debaixo de uma cachoeira (Marcelo Gomes deve ter considerado esse instante poético), o terceiro ato inteiro é construído apressadamente e de uma forma inverossímil (da noite para o dia, o protagonista decide aderir a algo que pode lhe causar a morte).

O filme Joaquim desconstrói a figura de Tiradentes!

No entanto, é justamente no plano conceitual que as escolhas feitas por Marcelo Gomes no terceiro ato se mostram equivocadas. Afinal de contas, qual é o propósito de propor a desconstrução da figura social e política de Tiradentes se, ao final, o filme exibirá o protagonista dando forma à revolução? É fato que o seu envolvimento na revolta se deveu mais ao ressentimento ocasionado pela traição das pessoas em quem confiava do que um sentimento de injustiça social, mas, seja qual for o motivo de origem, ainda assim ele lutou pela independência e liberdade, sacrificando a própria vida. Dessa maneira, Gomes desconstrói o mito para depois recriá-lo parcialmente, ou seja, a proposta principal do filme não encontra justificativa. Do ponto de vista dramático, isso é desastroso.

Todavia, embora altamente problemático, o terceiro ato – e o filme, obviamente – terminam com uma cena alegoricamente poderosa na qual a situação política brasileira de ontem, hoje e, provavelmente, do futuro é perfeitamente resumida: as pessoas no poder mudam, mas as mazelas continuam. Além disso, fica a tristeza de ver que, assim como a carcaça de um boi é usada para distrair um cardume num momento do filme, Tiradentes serviria como bode expiatório dos interesses financeiros da aristocracia e burguesia da época. E é assim, nessa nota triste e anticlimática, que Joaquim finaliza o impactante, mas também irregular, retrato de Joaquim José Da Silva Xavier.

Já leu essas?
Estreias nos Cinemas – 17/08
Crítica de Lady Macbeth
Lady Macbeth – William Shakespeare ficaria orgulhoso!
Crítica de Afterimage, de Andrzej Wajda.
Afterimage – O canto do cisne de Andrzej Wajda!
Crítica de Annabelle 2
Annabelle 2: A Criação Do Mal – A origem da boneca maldita!