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O Futuro Perfeito – O fim do realismo cinematográfico!

O Futuro Perfeito é um pastiche do realismo no Cinema

Nos primeiros anos de sua história, o Cinema deu os primeiros passos através de registros documentais de situações normais do cotidiano. Foi somente nas décadas posteriores que a narrativa se desenvolveu e as histórias de ficção monopolizaram o interesse dos realizadores. Porém, por uma série de fatores, a partir do surgimento do Neorrealismo italiano na década de 1940, a obsessão dos diretores por filmar a realidade da maneira como esta se apresenta só aumentou, a ponto de termos o lançamento de O Futuro Perfeito (El Futuro Perfecto), uma obra na qual não há, praticamente, nada capaz de indicar que estamos diante de um filme.

Crítica do filme Futuro Perfeito

O Futuro Perfeito

Dirigido e escrito por Nele Wohlatz (Pío Longo também colaborou no roteiro), o longa – ou média-metragem, já que os 65 minutos de duração, de acordo com diferentes definições, podem ser categorizados de uma maneira ou outra –  narra o dia a dia de Xiaobin (Xiaobin Zang), uma jovem chinesa morando ao lado dos pais em Buenos Aires. Trabalhando numa mercearia e estudando a língua espanhola para se inserir na nova sociedade que acaba de lhe acolher, ela é obrigada a lidar com as barreiras da linguagem e a solidão proveniente delas.

Nos dias de hoje, um dos assuntos mais discutidos mundialmente é o da imigração, e, embora não haja nada de original em abordá-lo a partir da perspectiva do estrangeiro (isso foi feito por quase todos filmes que giravam em torno da questão), O Futuro Perfeito tem o mérito de analisá-lo pelo viés da linguagem. Assim como o recente A Chegada, a obra de Wohlatz também lança mão de um tópico relevante e atual para usá-lo como pontapé inicial de uma reflexão sobre as construções lógicas, verbais, escritas e gramaticais que usamos para nos comunicar. Por fugir do óbvio e tentar trilhar um caminho ainda pouco desbravado, o filme merece louros.

Crítica do filme Futuro Perfeito

No entanto, como disse anteriormente, não há nada na produção que seja minimamente cinematográfico ou chame atenção pela técnica envolvida. Excetuando-se a ótima ideia de manter fora do quadro todos os argentinos (ouvimos apenas as suas vozes) e mostrar somente aqueles que são estrangeiros (ao fazer essas duas coisas, a diretora, por um lado, ressalta como a protagonista se sente intimidada no novo país, e, por outro, revela a existência de um certo companheirismo entre os imigrantes), todo o resto é insuficiente para explicar o porquê dessa história ter sido contada através do Cinema.

Da maneira como foi realizado, O Futuro Perfeito é uma espécie de anti-filme. Os enquadramentos meramente informativos, a fotografia e as atuações naturalistas, o ritmo lento e a duração excessivamente curta dão a impressão de que a diretora desejou fazer uma experiência doméstica e, para isso, se municiou de uma câmera e passou a acompanhar uma garota (a protagonista da história). Já em relação ao roteiro, a ausência de conflitos dramáticos, a falta de aprofundamento psicológico e a maneira que os acontecimentos vão sendo jogados dentro da narrativa (talvez, numa tentativa de recriar a casualidade da própria vida) ajudam a corroborar essa sensação de “amadorismo”.

Crítica do filme Futuro Perfeito

Um flerte equivocado com o documentário

Aparentemente, a intenção de Nele Wohlatz foi de eliminar a barreira que separa a ficção do documentário (como o brasileiro Era o Hotel Cambridge tentou fazer e falhou imensamente). Até o nome da protagonista é o mesmo da atriz que a interpreta (não sei dizer se as situações são parecidas também).Todavia, o que a diretora parece não entender é que, apesar de os dois gêneros se apoiarem na realidade para contar as suas histórias, cada um deles possui as próprias convenções e códigos narrativos. Não respeitá-los ou não se lembrar deles nem mesmo para subvertê-los é ficar perdido entre duas direções, ou seja, não se tem uma história de ficção nem um registro documental.

Assim, a cada ano que passa, fica evidente que, atualmente, o que temos é um pastiche do realismo cinematográfico fundamentado na Itália dos anos 1940. De certa maneira, podemos dizer que voltamos a um ponto muito similar ao do início do Cinema (em essência, não há muitas coisas separando os curtas dos irmãos Lumière do filme de Wohlatz). Como tudo que é original, a proposta realista surgiu, gerou grandes movimentos, porém, acabou se tornando uma sátira de si mesma. Escolas absurdas, como o Dogma 95 e filmes no estilo de O Futuro Perfeito – e que parecem proliferar como coelhos – não deixam a menor dúvida a respeito disso. Quando um filme é chamado de filme somente pelo fato de se ter uma câmera captando imagens, sem nenhuma estética ou técnica narrativa por detrás, é porque está na hora de repensarmos seriamente sobre o estado atual da arte cinematográfica.

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