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Em Ritmo de Fuga – Edgar Wright reverenciando gêneros!

Em Ritmo de Fuga comprova o talento de Edgar Wright

O diretor inglês Edgar Wright (que participou de uma coletiva de imprensa em SP) é um dos profissionais mais talentosos da última geração. Claramente alinhado com seus contemporâneos do cinema mais pop britânico (como Danny Boyle e Guy Ricthie), Wright conseguiu criar uma assinatura própria com a sua Trilogia do Cornetto, na qual cada filme homenageava um gênero diferente: os filmes policiais de ação (Chumbo Grosso), de zumbis (Todo Mundo Quase Morto) e os de invasão alienígena (Heróis de Ressaca). Esses filmes demonstram que ele tem um grande domínio de ritmo, é inventivo e entende como poucos como criar humor usando câmera e montagem. Todas essas características se mantêm em Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), seu trabalho mais maduro.

Crítica de Em Ritmo de Fuga

Em Ritmo de Fuga

A história é a clássica de filmes de roubo: Baby (Ansel Egort) é um jovem que se mostra um motorista muito habilidoso. Tanto que trabalha como piloto de fuga em ardilosos assaltos, todos planejados pelo mafioso Doc (Kevin Spacey). Quando o rapaz conhece a garçonete Debora (Lilly James), ele se apaixona perdidamente e decide sair da vida de crimes. Claro que Doc não aceita a demissão de Baby e o força a fazer trabalhos com o casal de bandidos, Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza González), além do psicótico Bats (Jamie Foxx).

Por mais que a escaleta e o desenvolvimento do roteiro, também assinado por Wright, seja bem simples, as características dos personagens os tornam marcantes. Principalmente o protagonista, que, por mais que tenha suas excentricidades – fala pouco e sempre está com um iPod, não importa a situação –, traz consigo pequenos detalhes que o valorizam, com o roteiro justificando suas peculiaridades. Ainda que os outros personagens variem entre o arquétipo e estereótipos (só notar o figurino e a composição de cada um), são funcionais e tem peso para o desenvolvimento do protagonista. É importante também como Wright dá pequenas pistas sobre as naturezas deles de maneira sutil, que transparecem em momentos cruciais. Exemplo: a verdadeira personalidade do personagem de Jon Hamm no ato final.

O roteiro também se mostra muito consistente nos diálogos. São rápidos e inteligentes, com apenas o que é necessário para cada personagem, evitando a exposição gratuita (Aliás, há uma excelente piada envolvendo Kevin Spacey sobre essa exposição). A maioria dos diálogos funciona tanto para criar tensão quanto para gerar os momentos cômicos. Nesse segundo ponto, é importante mostrar o quanto Wright é inteligente ao deixar as piadas em momentos pontuais.

Crítica de Em Ritmo de Fuga

Quando a música não é um mero enfeite!

A principal característica do longa é o uso da trilha sonora. Como Baby está sempre com seu iPod, ele precisa das músicas para lhe dizer a emoção daquele determinado momento, mesmo que o filme estabeleça que ele escuta para ajudar a sua audição prejudicada. A lista de músicas escolhidas por Steven Price é excelente. É uma trilha eclética que vai desde músicas melosas como Easy do Lionel Ricthie a Hocus Pocus do Focus. E o importante é como Wright usa as músicas não apenas para dizer o que o personagem está sentindo, mas vai além: assim como fez em Todo Mundo Quase Morto, onde a ação dos personagens em cena ficava sincronizada com a música diegética.

O mesmo recurso aparece em todas as cenas de perseguição de Em Ritmo de Fuga. Os cortes, os movimentos de câmera e até as batidas são sincronizadas com a música em questão. É um trabalho muito bem feito da dupla de montadores Paul Machliss e Jonathan Amos, antigos parceiros do diretor. Nessas sequencias, os trabalhos de mixagem e edição de som também merecem destaque, por deixarem o barulho da ação limpo, sem exagerar no volume. É um trabalho impressionante.

O elenco se mostra muito bem entrosado e à vontade. O jovem Ansel Elgort (Homens, Mulheres e Filhos) compõe Baby de maneira muito eficiente. Apesar de interessante já em sua concepção, foi necessário um cuidado do ator para não cair no caricato. Elgort acerta no ponto, mostrando que mesmo que Baby não tenha um rosto expressivo (característica do personagem, não do ator), ele se expressa com o corpo e com as músicas. É um trabalho calculado e que funciona muito bem. Lilly James continua com a mesma delicadeza e graça que mostrou em Cinderela, mostrando-se um interesse romântico encantador. Por mais que seja a mocinha em perigo em boa parte do longa, também mostra força em alguns momentos.

Crítica de Em Ritmo de Fuga

Os atores veteranos estão claramente se divertindo em seus papéis: o maravilhoso Kevin Spacey cria um Doc de fala calma, mas que varia do compreensivo e atencioso para o aterrorizante sem perder a pose de cavalheiro; Jaime Foxx cria um personagem que no começo aparenta ser apenas mais um criminoso e vai se tornando mais violento e imprevisível durante a projeção; Eiza Gonzales se mostra a mais caricata, mas consegue deixar uma impressão forte com Darling; e o ótimo Jon Hamm rouba o filme no terceiro ato.

Por fim, o grande destaque do longa é a direção precisa de Edgar Wright. O diretor demonstra os mesmos maneirismos que o caracterizaram, mas, como ele está emulando filmes de assalto da década de 70,  acaba obrigando-o a moderar seu estilo de filmar. Além de colocar as suas assinaturas visuais, Wright tem o desafio em deixar o longa tenso, engraçado e emocionante. E ele faz isso muito bem, sabendo pontuar cada momento em que precisa de uma determinada emoção para a trama. O seu único defeito é no terceiro ato, quando ocorre um excesso de clímax. Não incomoda por ser muito bem conduzido, mas percebe-se que há mais confrontos além do que o filme precisava.

Dito isso, Em Ritmo de Fuga é mais uma prova do grande talento desse diretor. É um filme ágil, tenso e muito divertido. Quem é fã de Wright não tem como se decepcionar.

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