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Dunkirk – A Obra-Prima da década no gênero de Segunda Guerra!

Dunkirk vai além das expectativas

Dunkirk (Idem) é uma conquista cinematográfica. Dizer mesmo que é um “excelente filme” ainda seria subestimá-lo. E, exceção feita a algum outro fenômeno cinematográfico que ainda possa ser lançado esse ano – o que sempre torcemos, embora seja improvável – a mais recente obra de Christopher Nolan encerrará o ano como o melhor filme de 2017.

(Confira também o Formiga na Cabine sobre o filme)

Crítica de Dunkirk, de Christopher Nolan

Se o amigo leitor acredita que minha introdução parece por demasiada incisiva, só posso pedir para que ele assista ao filme. Até porque, se descrito de forma linear e estritamente narrativa, o filme sequer parece tão empolgante assim. E é aí que começam os infindáveis méritos de Nolan nessa peça.

A história conta a evacuação do exército britânico na praia francesa de Dunkirk (Dunquerque, na versão histórica aportuguesada), após o rápido avanço das forças do eixo através de táticas como a blitzkrieg. Para quem fugiu das aulas de histórias, após o início da Segunda Guerra em 1939, os alemães avançaram sobre a França, e não encontraram muita resistência, tomando o país em poucas semanas.

Houve poucos focos de combate. A praia de Dunkirk, localizada na fronteira da França com a Bélgica, do outro lado do Canal da Mancha com a Inglaterra, ainda resistiu muito mais do que se esperava. Entretanto, em 1940, os alemães avançaram em definitivo, e um massacre era esperado. No entanto, em algo que Churchill chamou de “Milagre de Dunquerque”, houve uma súbita diminuição na intensidade dos combates, o que permitiu aos ingleses a evacuação de suas tropas de volta para Inglaterra.

O amigo leitor pode achar que essa é a história do filme. Não é. Porque Dunquerque é considerada, militarmente, uma vitória alemã. Ou seja – contrariando os clichês de filmes relacionados a Segunda Guerra, essa não é uma história de resistência gloriosa, de combates vitoriosos, ou de grandes feitos individuais. Tem tudo isso, sim, mas é uma história de fuga e sobrevivência. De corrida contra o tempo. De ao menos tentar evitar o inevitável.

Como dito, a história em si já se diferencia do que costumamos ver sobre o tema. Mas é sua execução sublime que torna Dunkirk o que talvez seja o maior filme do gênero nesta década. Nolan constrói uma história não linear, que tem como escopo três pontos de vista distintos que, de outra forma, não poderiam concluir-se de forma concomitante.

Crítica de Dunkirk, de Christopher Nolan

Os três escopos constituem a distância de uma semana – no molhe, onde soldados aguardam para serem evacuados; um dia – no mar, onde civis são convocados para ajudar na evacuação; e uma hora – onde três aviadores correm contra o tempo para ao menos conter bombardeios alemães contra os soldados encurralados. Dessa forma, nós acompanhamos paralelamente, e de forma naturalmente concomitante, o desenrolar de uma trama que tem intensidade e duração distintas para os personagens, mas não para o espectador.

Desses pontos de vista, Nolan constrói momentos de tensão distintos, com as qualidades que somente cada uma das circunstâncias poderia oferecer. O ambiente e a temporalidade a que cada personagem está exposto faz com que seja um tipo diferente de provação pela qual cada um passa. Em Dunkirk, Nolan ratifica sua posição não apenas como o melhor cineasta da atualidade, mas também como um dos melhores roteiristas. É como se ele tornasse o tempo personagem e mise-en-scène, e todos os indivíduos exibidos na tela fossem apenas coadjuvantes.

Essa mise-em-scène, inclusive, se estende ao contraponto, os supostos adversários do filme. Dunkirk é um filme de Segunda Guerra onde não se vê – considerando-se que os aviões não mostram seus pilotos – um soldado alemão sequer, assim como também não vemos nenhuma gota de sangue. É um filme brutalmente intenso, cuja tensão é oriunda única e exclusivamente das circunstâncias, e não de um inimigo físico. Estupendo.

O que também dá suporte à tese do tempo – e que também é brilhantemente usado como elemento de tensão – é um constante, mas sutil, “tique-taque” do relógio que soa quase que permanentemente durante o filme. Como se trata de um filme de Segunda Guerra, e as cenas de ação, tiro e explosão são muitas, essa sutileza permanece ali quase sempre oculta – mas colaborando eficientemente na construção da tensão, e nos lembrando que o verdadeiro inimigo e protagonista aqui é o tempo.

Crítica de Dunkirk, de Christopher Nolan

Tecnicamente espetacular

Incidentalmente, é de se louvar a edição/mixagem de som e trilha sonora. Os críticos tiveram a oportunidade de assistir ao filme em uma sala IMax (absolutamente recomendada, neste caso), e os trabalhos com som são simplesmente incríveis.

A sensação de ver a sala tremendo nas cenas de maior intensidade, mas sem um som demasiadamente alto ou sem clareza, é uma experiência que só aumenta o impacto do filme. Poder ouvir o tal tique-taque do relógio ainda soando junto com as explosões e tiros, demonstra um esmero técnico daqueles que raramente vemos, e que chegam até mesmo a justificar bobagens como uma premiação de Oscar (mas não muito). A trilha sonora de Hans Zimmer acompanha a trama com a já conhecida sutileza e eficiência de sua parceria com Nolan. Ao término de suas carreiras, não será surpresa para ninguém se esta for colocada em um mesmo patamar de Spielberg/Williams.

Mas não é só o seu elemento “áudio” que torna Dunkirk automaticamente um obra-prima do cinema recente. Seu “visual” também é um espetáculo. A cinematografia de Hoyte van Hoytema respeita os clássicos e o tom do gênero, mas tem sua própria identidade. A fotografia – um primor – não é usada como muleta para escalar a tensão e a gravidade do momento; ao contrário, é discreta e, de forma idiossincrática, marcante ao mesmo tempo, já que ela é bela, mas permite a todos os elementos em tela brilharem mais do que seu aspecto artístico em si. Ela é acima de tudo funcional – sem deixar de ser arte.

Outro tradicional ponto forte de Nolan, sua direção de atores, se mantém aqui. O diretor mantém alguns de seus conhecidos medalhões – como Cillian Murphy e Tom Hardy – e faz algumas apostas, principalmente com os jovens (se o amigo leitor estava preocupado com Harry Styles, relaxe: Nolan é tão bom diretor que consegue arrancar boas atuações até da mediocridade).

Todos os personagens têm um tempo de tela relativamente equilibrado, permitindo a cada um brilhar – embora, pontualmente, alguns se destaquem. E é claro que alguém como Kenneth Branagh sempre irá se sobressair, sendo responsável, inclusive, por um dos momentos mais belos e emocionantes do filme. Como é um filme em que tempo e circunstância são protagonistas, os personagens não têm muito das suas motivações explicadas – algo que pode agradar aqueles que tolamente detratam Nolan por sua suposta “verborragia”. Entretanto, todos têm suas qualidades, falhas e personalidades muito bem definidos.

Crítica de Dunkirk, de Christopher Nolan

Duração enxuta a favor da história

Tudo isso em apenas 1h 46min de filme – outro elemento que contraria os “Nolan tradicionais”. Sua compactação intensifica seu impacto – Dunkirk chega a ser fisicamente extenuante de tão tenso. Mas é uma tensão orgânica, construída de maneira correta e coerente, respeitando seus próprios momentos e características inerentes. Do começo ao fim, é um filme que descreve uma espiral ascendente, até um clímax brilhantemente desenvolvido – mesmo sobre uma história com um fim inevitável.

Dunkirk, de fato, não é nem de perto tão intelectualmente sofisticado quanto obras-primas da ficção do diretor, como A Origem e Interestelar; e provavelmente, a longo prazo, não seja lembrado de forma tão marcante na carreira do cineasta como Batman – O Cavaleiro das Trevas, dado que ainda estamos no auge do gênero dos super-heróis no cinema. De toda forma, esse não é o seu propósito.

É um filme que mostra a envergadura de Nolan como cineasta – alguém que é capaz de produzir melhores exemplares de gêneros distintos, como Interestelar é para ficção científica, como O Cavaleiro das Trevas é para os super-heróis e, agora, como Dunkirk é para o gênero de Segunda Guerra.

Quem quer que ainda afirme que Nolan não é um dos melhores – senão o melhor – cineasta em atividade, é simplesmente tolo.

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