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A crítica segundo os críticos: Sérgio Alpendre

O primeiro convidado do nosso especial é o crítico Sérgio Alpendre

Houve uma época em que as críticas eram quase tão importantes quanto os filmes. Nas décadas de 1950 e 1960, os textos das revistas Cahiers du Cinéma e Presénce du Cinéma disputavam protagonismo com as obras cinematográficas. Nos anos 1970, Pauline Kael aumentou consideravelmente o número de assinantes da New Yorker, Já na década de 1990, Roger Ebert tinha a capacidade de decidir o destino de uma produção.

No entanto, isso foi se alterando com o passar do tempo. Descobrir os motivos dessa mudança não é uma tarefa fácil. As pessoas perderam interesse no cinema? A internet banalizou o ofício? O respeito pela opinião alheia diminuiu? Seja qual for a resposta, antes de tudo, é preciso definir no que consiste a crítica e o cenário atual. Portanto, é necessário que voltemos ao elementar.

Para isso foi criado este especial. Os melhores críticos do país responderão a oito perguntas, todas relacionadas à essência da profissão. Quem dá o pontapé inicial desta nossa iniciativa é Sérgio Alpendre. Crítico, professor e pesquisador, ele escreve na Folha de São Paulo e no seu blog pessoal (clique aqui para acessá-lo). Há anos educando o público sobre a história e a arte do cinema, ele atendeu gentilmente ao meu pedido e forneceu a sua visão sobre o assunto.

Sergio Alpendre - Crítico de cinema

Confiram!

FE – Qual é o papel da crítica?

SA: É imenso e foi muito bem delineado, entre outras coisas, no antológico texto “A arte de amar”, de Jean Douchet. Mas, para resumir, creio que a crítica seja fundamental para aguçar uma sensibilidade artística no leitor, um olhar cinematográfico, a atenção para o que faz do cinema uma arte única, para sua forma e não somente para uma historinha que se apresenta com atores. Claro que o leitor da crítica deve estar aberto para a evolução desse olhar enquanto leitor e espectador, e o crítico ser capaz de, com generosidade, rigor e inteligência, oferecer isso a ele.

 

Você acredita em crítica imparcial?

Oscar Wilde diz que nenhuma crítica é imparcial. Acho que ele tem razão no quesito do gosto. O crítico tem sempre sua postura, sua posição diante de um filme, e é essa posição que vai guiar seus escritos, contra ou a favor do filme, ou, eventualmente, uma posição mais complexa, favorável e desfavorável ao mesmo tempo. Mas de um certo ponto de vista, acho que é necessário, por exemplo, julgar um filme brasileiro sem levar em conta que é brasileiro, apenas pelo valor cinematográfico. Por mais que o contexto influencie na confecção de um filme, ele não deve ser levado em conta no julgamento. Isso, de certo modo, é uma imparcialidade. Mas são etapas diferentes.

 

Como você enxerga o atual cenário da crítica nacional e internacional?

Como quase não há mais espaço para a crítica, esta se encontra muito fragilizada. Mesmo bons críticos têm produzido menos e de maneira menos interessante. É assim no mundo todo, e um pouco pior no Brasil, porque não se dá muito valor nem à arte nem à crítica.

 

Quais foram os maiores críticos de Cinema da história? E por que esses nomes?

André Bazin, porque conseguia enxergar além de quase todos os outros críticos e era capaz de analisar brilhantemente o cinema japonês sem ter visto muito mais que 20 filmes;

Jacques Lourcelles, pela incrível independência de seus preceitos e de seus textos;

Jean Douchet, pela clareza de suas palavras;

Robin Wood, pela invejável sistematização de seus pensamentos;

Inácio Araujo, por ter me influenciado bastante, sobretudo nos anos 90

Há muitos mais, mas por enquanto podemos ficar com esses, que de algum modo muito me influenciaram.

 

Se um filme apresenta uma visão de mundo totalmente oposta à sua, você o critica por isso?

De jeito nenhum. Isso seria um disparate. Posso criticar a maneira com que essa visão de mundo foi exposta, mas isso não pode ser confundido com uma critica à visão de mundo.

 

Antes de escrever um texto, há coisas que você tenta evitar?

Muitas. Mas a principal é evitar ser desonesto comigo mesmo e com o que senti vendo filme. Isso já me causou alguns problemas (risos).

 

Qual é a sua opinião sobre o cinema contemporâneo?

Não me agrada. Muitas fórmulas e pouca invenção. O bom cinema ainda existe, mas é cada vez mais exceção.

 

É possível fazer alguma previsão sobre o futuro do Cinema?

Difícil, hein? Talvez vire videogame. Esse parece ser o triste caminho. Mas estou sendo pessimista. Pode ser que tenha alguma mudança nos próximos anos. Vamos acreditar. Tudo é possível.

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