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X-Men: Apocalipse – Já deu!

X-Men: Apocalipse foi comentado no Formiga na Cabine!

X-Men: Apocalipse

Muita gente lamenta que o Universo Marvel nos cinemas esteja hoje, de certa forma, fragmentado, com algumas marcas de peso da editora ainda nas mãos de outro estúdio, graças a contratos firmados muito antes da Disney obter o controle deste catálogo de personagens e investir pesado nas adaptações dos mesmos para as telas. O desgosto dos executivos da casa do Mickey, e muitos fãs ao redor do mundo, deve ser enorme, já que a Fox não apenas mantém os direitos do Quarteto Fantástico, mas também dos X-Men, um dos supergrupos dos quadrinhos mais populares de todos os tempos, senão o maior entre eles.

No caso destes últimos, depois de deflagrar a febre de filmes de super-heróis em 2000, com um então improvável Bryan Singer na direção, os personagens fizeram uma boa estreia e surpreenderam na continuação três anos depois. Após a saída de Singer, a década seguinte da franquia se resume a um terceiro filme abaixo da média, um reboot disfarçado – Primeira Classe – e dois filmes solo de Wolverine que nem valem o comentário. Em 2014, o diretor voltou ao universo que o tornou conhecido, com X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, trama de viagem no tempo que servia como uma luva para consertar algumas incoerências criadas ao longo da série. Entregou outro bom filme, ainda que inferior ao segundo. Como sua carreira, no geral, não andava tão bem, natural que ele topasse comandar a aventura seguinte, o que nos traz a X-Men: Apocalipse (Apocalypse), que tem a missão de estabelecer um novo elenco, ambientando novamente a trama no passado, mais precisamente no começo da década de 1980.

X-Men: Apocalipse

Apocalipse (Oscar Isaac) ladeado por Tempestade e Psylocke!

Em Apocalipse, encontramos as já conhecidas versões mais jovens de Magneto, Charles Xavier e Mística (Michael Fassbender, James McAvoy e Jennifer Lawrence) encabeçando o núcleo principal. Xavier tem sua escola para mutantes estabelecida, enquanto o mundo já sabe da existência dessas pessoas com poderes. Magneto vive escondido com uma nova família na Polônia e Mística mantém uma cruzada pessoal de libertar mutantes em situação difícil, o que aumenta a lenda em torno dela, iniciada durante os eventos do filme anterior. Em meio a isso, chegam à escola os adolescentes Ciclope e Noturno, Scott Summers (Tye Sheridan) e Kurt Wagner (Kodi Smit-McPhee), logo conhecendo a problemática Jean Grey (Sophie Turner), ainda lutando para controlar seu poder mental.

O evento que desencadeia a trama é a ressurreição de Apocalipse (Oscar Isaac), um super mutante milenar, adorado como um deus no Egito antigo, que sempre dispõe de quatro acólitos aos quais consegue “turbinar” os poderes. O objetivo do vilão naquele presente é, literalmente, alcançar a divindade, plano que tem Xavier como uma peça fundamental. O quarteto de Apocalipse forma-se com Anjo (Ben Hardy), Psylocke (Olivia Munn), Tempestade (Alexandra Shipp) e o próprio Magneto, o que não é spoiler, correto? Do lado dos heróis, outros personagens já apresentados em outros filmes, como Moira MacTaggert (Rose Byrne), Fera (Nicholas Hoult) e Mercúrio (Evan Peters), também estão presentes para ajudar na batalha contra o mal.

X-Men: Apocalipse

Novo elenco juvenil!

A simplicidade do roteiro escrito por Simon Kinberg, a partir de uma história desenvolvida por ele mesmo, Bryan Singer, Michael Dougherty e Dan Harris, é um tanto incômoda, quando comparada aos bons exemplares da franquia. Basicamente, o que temos é um vilão malvadíssimo, com um nível de poder estupidamente alto e querendo dominar o mundo, contra um bando que precisa detê-lo. Apesar de serem filmes de super-heróis, nunca vimos um maniqueísmo tão descarado e vazio em um exemplar desta série (descartando os filmes solo do Wolverine, claro), mas não é apenas nisso que ele falha. X-Men, seja nos quadrinhos, animação ou cinema, sempre teve a discussão do preconceito entre seus elementos fundamentais, característica que rendeu ótimos diálogos e situações nos filmes anteriores, talvez ajudados pela condição de Singer como homossexual. No entanto, a questão da discriminação e perseguição é nula por aqui. Por exemplo: um mutante com transformações físicas radicais, Noturno, vai ao cinema sem o menor problema, desperdiçando um elemento dramático consistente e característico sem motivo algum.

X-Men: Apocalipse

Jennifer Lawrence, à direita, tem mais tempo em cena com esse visual!

O texto também peca pela obviedade com a qual lida com pontos de virada. O destino da nova família de Magneto é telegrafado a partir do momento em que aparece na tela, pois era preciso justificar a sanha terrorista deste personagem oscilante no comportamento. Impossível não se admirar com tamanho azar de alguém, um detalhe que derruba qualquer pretensão de verossimilhança. A transmorfa Mística é outro caso de peça mal encaixada. Anteriormente transitando no limite entre o bem e o mal, a personagem agora tem muito mais destaque do que se poderia esperar, transformada em uma heroína com valores nobres, inicialmente relutante em aceitar a jornada. O status atual de Jennifer Lawrence – aparecendo mais com seu rosto verdadeiro do que com a maquiagem azul e pesada que o papel exige – na indústria explica a mudança de tom.

X-Men: Apocalipse

Reciclando situações, como Jean em conflito com seu poder, e até falas antigas declamadas no mesmo contexto, o resultado é um déjà vu desagradável que ignora qualquer sutileza. Era certo que Mercúrio teria mais destaque depois de haver agradado no filme anterior, então ganhou mais tempo em cena e atua em situações maiores e mais explosivas. O impacto já não é o mesmo, pois é claro que ele faz exatamente a mesma coisa que já foi vista. Nem mesmo a amizade abalada entre Xavier e Magneto – ou suas ideologias distintas – consegue algum peso, apesar de contar com intérpretes do calibre de McAvoy e Fassbender. O que estas construções de personagem tinham de mais fascinante, valorizado pelos atores, também acaba perdido em um roteiro – ou seria pastiche? – que mais parece uma fanfic escrita por uma tiete dos X-Men do cinema. A ligação formada entre Scott e Jean, ao se conhecerem, é o único ponto positivo na dinâmica entre personagens.

X-Men: Apocalipse

Mercúrio corre mais desta vez!

Ainda que limitado pelo conteúdo, Bryan Singer continua um bom diretor. Mesmo abaixo do que já mostrou em outras ocasiões, ele consegue impor seu estilo clássico de filmagem, com uma câmera firme no decorrer da história, mas que aposta, e acerta, em ângulos interessantes para as sequências de ação. A experiência mostra a cara aqui, sem precisar recorrer a uma edição epilética e picotada, conferindo um valor indiscutível ao filme. Esse detalhe é complementado pela fotografia de Newton Thomas Sigel, entregando um trabalho com personalidade, cada vez mais raro neste tipo de cinema. Além do cuidado com a saturação, já que é um filme mais colorido que os outros, Sigel tem experiência com visuais à la 80’s, pois também foi diretor de fotografia no espetacular Drive, de 2011.

X-Men: Apocalipse

A direção geral e fotografia, infelizmente, não encontram algo correspondente nos efeitos visuais. Como parece que a primeira diretriz aqui era criar algo bem mais bombástico, a escala das batalhas e da destruição é realmente gigantesca, mas, no meio de tanta câmera lenta, o filme se atrapalha e acaba por lembrar alguns planos de 300, de Zack Snyder, com uma separação entre primeiro plano e fundo sem uma sensação de profundidade real. Com Leônidas e seus guerreiros esse tipo de visual fazia sentido, mas aqui não conseguiram evitar que algumas sequências lembrassem um videogame.

Mesmo que a parte visual tenha esse defeito, o desenho de produção de Grant Major, da trilogia O Senhor dos Anéis, realmente se destaca. Um belo trabalho na construção dos vários ambientes, bastante diversos, com seus objetos de cena característicos, cada um convincente como parte daquele mesmo mundo. No figurino, a própria estilista responsável pelos uniformes de couro preto, Louise Mingenbach, presente desde o primeiro filme, vai apagando esse conceito aos poucos, seguindo a vontade do estúdio. De qualquer forma, exceto pelo próprio Apocalipse, o trabalho dela é bem satisfatório.

X-Men: Apocalipse

Afastando-se daquele interessante tom de ficção científica que lançou a franquia e procurando se enturmar com os outros filmes de super-herói, X-Men: Apocalipse não acerta em profundidade, já que sua seriedade é só na pose agora, e fica no meio do caminho em termos de diversão. Já queima uma porção de ideias legais dos quadrinhos em fan services – nada contra eles, quando bem utilizados – e faz o espectador pensar na provável continuação, perguntando-se qual ameaça superaria o perigo e a destruição mostrados aqui. Bem, melhor do que pensar nisso é rever X-Men 2, torcendo para que Bryan Singer procure um outro caminho a partir de agora.

P.S.: Com esse novo enfoque, seria melhor que os direitos voltassem para a Marvel, que poderia entregar esse universo a Joss Whedon. Sim, eu sei que é sonhar demais…

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