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Steve Jobs – Uma Visão do Futuro!

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“Todas as casas terão um computador conectado ao mundo todo. Você poderá checar seus extratos bancários, comprar ingressos de cinema, etc”. É com essa entrevista do visionário escritor Arthur C. Clarke, realizada em 1974, que se inicia Steve Jobs (idem), o mais novo filme do consagrado diretor britânico Danny Boyle. Não à toa, a frase de Clarke é mais do que sobre computadores. É sobre um tempo, uma época e uma geração inteira que, graças ao trabalho do genial co-fundador da Apple, pôde acontecer. Nosso cinebiografado já havia sido retratado em outra produção – Jobs, estrelada por Ashton Kutcher em 2013 – que em momento algum iguala-se a esta nova, seja pelos aspectos técnicos ou atuações.

Steve Jobs

O filme possui uma estrutura narrativa inusitada. Sem história de origem ou final onde somos levados a seus últimos dias de vida, acompanhamos Jobs (Michael Fassbender) em três importantes momentos de sua carreira: O lançamento do McIntosh em 1984, o lançamento da plataforma NeXT em 1988 e o lançamento do Imac em 1998. Sempre acompanhado por sua assessora e “voz da razão”, Joanna Hoffman (Kate Winslet), ele enfrenta problemas familiares e corporativos sempre nos bastidores dos eventos, revelando mais sobre sua perspicácia e caráter.

A direção de Danny Boyle é extremamente coerente com as situações com as quais nos deparamos. Como é 98% rodado em ambientes fechados, o diretor sempre faz o uso de planos e enquadramentos que evidenciam a situação, aumentando a sensação claustrofóbica. Outro recurso muito bem utilizado é a montagem paralela, que confere agilidade ao ritmo do filme, consequentemente transitando entre passado e futuro, o que explica – por exemplo – a rixa de Jobs com o ex-CEO da Apple, John Sculley (Jeff Daniels), responsável direto por seu afastamento da empresa.

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Escrito pelo experiente Aaron Sorkin, o roteiro opta por nunca nos mastigar demais as informações, tornando as elipses entre um evento e outro meros boletins informativos. Tal opção tem prós e contras, pois exige do espectador um conhecimento mínimo dos eventos ocorridos, por outro lado, faz com que apenas o que é extremamente relevante para a trama venha à tona. Outro artifício usado por Sorkin é o drama que o cabeça da Apple vive com sua filha, que por vezes beira o clichê, algo que torna-se necessário por fazer com que o espectador não necessariamente simpatize demais com o protagonista, já que o mesmo sofria por seus problemas de temperamento.

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Michael Fassbender (obviamente) e Kate Winslet tem os personagens com maior tempo de cena, portanto, são eles que conseguem desenvolver melhor seus papéis. Fassbender entrega um Jobs que parece sempre estar um passo à frente dos outros – muito sagaz, porém arrogante e péssimo pai. O ator consegue conciliar qualidades e defeitos, entregando uma atuação muito mais crível do que a de Kutcher, indo além da mera mudança física evidente. Kate Winslet – que também mudou bastante para o papel – tem como grande mérito  transmitir uma sensação de lealdade muito grande, facilitando assim a identificação do espectador. Seth Rogen, que interpreta Steve Wozniak, tem provavelmente o personagem mais mal aproveitado do filme. Apenas com a função de pedir créditos pela criação do Mac II, Rogen faz o que pode com seu material, porém sem muito sucesso. Katherine Waterston consegue brilhar em seus momentos em tela. A atriz, que interpreta a mãe da filha do protagonista, transmite uma preocupação urgente com o futuro da garota, mas sempre com um tom de desequilíbrio. Por fim, Jeff Daniels também se sobressai ao conseguir transmitir, nos dois primeiros terços do filme, um ar de executivo astuto, transformando isso em arrependimento no final.

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Alwin H. Küchler assina a direção de fotografia e não faz feio. Enquanto acompanhamos a história na década de 80, as cores mais quentes de destacam e se mostram mais vivas. Uma textura é perceptível na imagem, gerando imperfeições propositais. Quando somos levados à década seguinte, a imagem ganha um aspecto muito mais “clean”, com tons mais acinzentados.

Steve Jobs não é um filme fácil para a maioria. Seu ritmo acelerado, além da ausência de uma trama mais comum, pode trazer uma sensação estranha a um espectador acostumado a roteiros mais tradicionais. Caso esse mesmo espectador, com um olhar carinhoso, der uma atenção especial para o trabalho de Boyle e Fassbender, pode surpreender-se e – com toda certeza – entender um pouco mais sobre a importância do trabalho desse homem, percebendo como o mesmo está presente hoje, na vida de todos.

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