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Sob Pressão – Uma tola tentativa de fazer um “E.R.” à brasileira!

Sob Pressão

Não há situação mais complicada do que pegar certas fórmulas que ficaram famosas em produções norte-americanas, tentando adequá-las à outra cultura. Pois não é apenas uma questão de se apropriar de um conceito e inserí-lo em uma realidade diferente, já que é preciso criar verossimilhança e coerência para que o conjunto faça sentido. Basta ter como exemplo a série Sessão de Terapia, dirigida por Selton Mello, baseada na série In Treatment, da HBO. Não foi apenas um caso de fazer a mesma série com outros atores e falada em português, mas houve um cuidado com a construção de um universo que correspondesse ao Brasil, evitando a armadilha citada no início. Pois bem, em Sob Pressão, novo trabalho do diretor Andrucha Waddington, a ideia é refazer a formula do “médico norte-americano” com personagens brasileiros… e o resultado é um desastre.

O longa retrata um dia na vida de Evandro (Júlio Andrade, de Maresia), um médico que trabalha em um hospital público em condições precárias, localizado perto de uma favela no Rio de Janeiro. No começo de um expediente, aparecem três casos que colocarão o médico e sua equipe à prova: um policial e um traficante gravemente feridos, mais um menino que foi vítima de uma bala perdida.

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Havia material para os roteiristas elaborarem uma trama envolvente, mas preferiram tentar recriar a fórmula vista em séries de médicos como House, E.R. e Chicago Med, entre outras. Não apenas em situações, mas também nos personagens. Quem já viu um episódio de qualquer um desses seriados vai reconhecer os tipos: um médico que segue as regras, enquanto outro faz operações arriscadas; a novata que quer provar o seu valor; o diretor que treinou os médicos e acredita neles; a pessoa que controla a parte financeira; um membro da equipe que é inseguro, etc… Não bastando que esses personagens sejam estereótipos, são muito mal escritos, mal desenvolvidos e suas relações são extremamente artificiais, sem qualquer sinceridade aparente. Se esse fosse o único problema desse “roteiro”, já seria o suficiente, mas nada no texto se salva: os diálogos são péssimos e as situações  – que deveriam criar tensão – são clichês e suas resoluções variam entre o óbvio, o estúpido e o absurdo.

Andrucha Waddington já provou ser um diretor talentoso em Eu, Tu, Eles e Casa de Areia, mas em Sob Pressão faz um trabalho pavoroso. A câmera não para de se movimentar e, por conta disso, a mis-en-scène – a disposição dos elementos em cena – acaba ficando confusa, dificultando o entendimento, além do cineasta não conseguir fazer com que o espectador crie algum relacionamento com os personagens. Fora isso,  a escolha de Waddington, junto ao seu diretor de fotografia, de utilizar filtros que drenam as cores do que está em tela, cria um visual sem vida.

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Somando-se a esses problemas técnicos, o cineasta acaba desperdiçando o seu grande e talentoso elenco, preso à atuações caricatas, sem sutileza alguma. Júlio Andrade, Andrea Beltrão, Stepan Nercessian e Marjorie Estiano são atores de presença forte e carismáticos, mas nenhum deles tem desenvolvimento dramático e ficam o filme todo com a mesma expressão facial. A impressão é que não vemos personagens críveis, mas apenas pessoas declamando suas falas.

E para piorar, o geralmente excelente Antonio Pinto (Central do Brasil) faz a sua pior trilha sonora. É musica repetitiva, chata e que grita o tempo todo. No fim, ele mais atrapalha do que ajuda. E, de novo, mais um filme que tenta usar sua trilha como muleta emocional. É preciso entender que esse elemento deve adicionar um sentimento ao espectador, não dizer a ele o que sentir em tal cena.

Acho que não há mais o que falar sobre Sob Pressão, a não ser repetir o que disse no começo: desastroso. Tem um diretor talentoso e um elenco ótimo, mas que – por algum motivo – não deu certo. Acredito que seja o erro desta tola tentativa de emular fórmulas dos americanos. Enquanto o pessoal não entender que não é tão simples assim essa adaptação, mais tiros no pé, como esse filme, acontecerão.

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