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Sicario – Terra de Ninguém | Um mundo cinzento!

Sicario – Terra de Ninguém

O cineasta canadense Dennis Villeneuve não é um iniciante, embora alguns possam ter essa impressão. O ano de 1998 marcou sua estreia nos longas, mas vem chamando atenção mesmo desde 2010, quando Incêndios foi lançado, concorrendo ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Após rodar mais dois curtas, em 2013 emplacou dois trabalhos muito elogiados: Os Suspeitos e O Homem Duplicado, ambos com Jake Gyllenhaal. Três acertos seguidos, provando de uma vez por todas que ele é bom (algo que também é possível atestar através do curta Next Floor), mas também gera uma expectativa considerável sobre o que vem a seguir, o que nem sempre ajuda.

Que bom que em Sicario – Terra de Ninguém (Sicario) o diretor confirma as boas previsões, entregando um belo exemplar de thriller com ação bem pontual. O trailer pode enganar o público que busca algo mais movimentado, mas o objetivo do filme é carregar na tensão e na ambiguidade moral do mundo ali retratado. Missão cumprida! O desgaste infligido no espectador é psicológico, muito distante de correrias frenéticas que divertem durante suas projeções e são esquecidas logo depois.

Sicario – Terra de Ninguém

O roteiro escrito por Taylor Sheridan, ator da série Sons of Anarchy que estreia na função, abre a narrativa mostrando Kate Macer (Emily Blunt), agente de campo do FBI na divisão antissequestro, durante uma invasão a um cativeiro. A descoberta e as consequências deste caso a levam a aceitar um convite para integrar uma força-tarefa conjunta, criada para pegar um chefão de um cartel mexicano de drogas. O cínico Matt Graver (Josh Brolin) é o contato que faz o recrutamento, sem nunca deixar claro para qual órgão trabalha, algo que incomoda Kate e seu parceiro Reggie (Daniel Kaluuya) desde o começo. Se Graver já era uma incógnita, o misterioso Alejandro (Benicio Del Toro) é uma presença espectral, piorando muito o desconforto, já que não demora muito e Kate questiona os motivos pelos quais foi recrutada, além da própria missão.

Simples e direto: Elenco impecável! Emily Blunt está perfeita, evidenciando um estresse de longa data, com os prejuízos óbvios à aparência. Sua Kate é alguém já visivelmente combalida, apesar de idealista, aceitando participar de algo que, já sabemos, só vai piorar sua vida. Josh Brolin, cuja fachada já é naturalmente irônica, foi uma escolha perfeita para Matt Graver. O ator tem aquele tipo de sorriso com algo de sutilmente desdenhoso, deixando claro que confiar nele não é uma atitude inteligente. Finalmente, Benicio Del Toro dá um show com o olhar e a postura de cansaço resignado do seu Alejandro, um personagem cujos motivos serão revelados na hora certa, assim como sua real utilidade na missão. Embora a causa que impulsione Alejandro não seja realmente muito complexa, a dimensão geral do personagem vai além, graças ao ótimo trabalho do ator.

Sicario - Terra de Ninguém

Na questão visual, Sicario também é maravilhosamente bem resolvido, com o desenho de produção de Patrice Vermette, repetindo a parceria com Villeneuve pela terceira vez consecutiva, e – principalmente – pela fotografia do fantástico Roger Deakins. A textura poeirenta da imagem dá a sensação de calor e cria um diálogo muito interessante, e pertinente, entre os locais por onde o filme passeia, sempre próximo à fronteira entre EUA e México (afinal, é uma história sobre cruzar limites), e o próprio caráter nebuloso da trama.Os acordes graves da trilha sonora de Jóhann Jóhannsson complementam a imagem, aumentando a tensão dos eventos, de um jeito que humilha uma quantidade enorme de filmes de terror.

Com tudo isso trabalhando a seu favor, Dennis Villeneuve conduz o filme de forma segura e sutil, sem perder o controle durante seus 121 minutos, até um desfecho cujo sabor já foi pressentido no início, mas nem por isso é menos satisfatório. O conjunto só não é perfeito por uma subtrama que toma mais tempo do que o necessário, além do parceiro de Kate ser um tanto descartável e pouco desenvolvido no cenário geral. Nada que seja muito comprometedor e arranha pouco o resultado final, além de perdoável por ser o roteiro de um estreante.

Sicario - Terra de Ninguém

Sicario – Terra de Ninguém reafirma o talento do cineasta canadense, criando mais expectativa pelo próximo trabalho. A boa arrecadação doméstica trouxe notícias de uma possível retomada deste universo, com a volta de um dos personagens, pelo menos. Villeneuve também já foi anunciado no comando da questionável continuação de Blade Runner, acompanhado por Roger Deakins, mas por mais que se rejeite a ideia, é difícil conter a curiosidade sobre o que essa dupla pode realizar ali. De qualquer forma, trabalho é o que não vai faltar.

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  • Boa crítica, o filme é excelente.
    Dois pontos já no final do texto, discordo da questão do personagem do Daniel (parceiro), além de ele representar a ética e o direito, é ele que proporciona aquele desenrolar da cena do bar, não vejo necessidade de um desenvolvimento maior que esse, por isso, não descartável. O segunda é a subtrama, sinceramente não me lembro de nenhuma, me relembra, por favor.
    Gostei demais da sua análise da fotografia, muito precisa.

    • Daniel Fontana

      Olá, Vinícius! Obrigado pelos elogios. A subtrama a qual me referi é sobre o policial corrupto e sua família, que achei ter tomado mais tempo que o necessário. Creio que esses trechos poderiam ser mais enxutos, sem comprometer a cena final, que achei fantástica.
      Novamente, muito obrigado pela audiência e por comentar.
      Abraço!