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Paraíso – “Não há Paraíso sem o Inferno”!

Paraíso mostra o Inferno na Terra

“Não há Paraíso sem o Inferno”. No filme, essa frase é dita por um oficial da Gestapo para justificar o genocídio cometido pelo Terceiro Reich como uma etapa necessária para o estabelecimento de um Paraíso terrestre. Nesse contexto, obviamente, essa fala é uma profunda falácia, como a História tratou de comprovar. No entanto, ela não deixa de ser verdadeira para um dos três personagens principais, e, curiosamente, fazendo uma analogia, também é verdadeira em relação à experiência de assistir ao filme, uma vez que a aparente arbitrariedade de algumas escolhas feitas pelos realizadores – que podem incomodar o espectador durante a projeção – não só são plenamente justificadas no terceiro ato, como também altamente recompensadoras.

(A Segunda Guerra também é o pano de fundo de O Filho de Saul e 13 Minutos. Confira também essas críticas)

Paraíso, filme de Andrey Konchalovskiy

Paraíso, filme de Andrey Konchalovskiy

Como dito acima, Paraíso (Ray), o novo filme do cineasta russo Andrey Konchalovskiy, concentra a sua narrativa em três personagens: Jules (Phillippe Duquesne), um delegado de polícia francês colaborador dos nazistas; Olga (Yuliya Vysotskaya), uma condessa russa, membro da Resistência e que abriga em sua casa crianças judias; e Helmut (Christian Clauss), um oficial importante da Gestapo. No começo da narrativa, Olga é presa pela polícia francesa. Interrogada por Zhyul, que deseja obter informações sobre as atividades da Resistência, ela é eventualmente enviada para um campo de concentração. Lá, enquanto trabalha compulsoriamente, ela encontra Helmut, uma figura do seu passado.

Escrito por Elena Kiseleva e pelo próprio Andrey Konchalovsky, Paraíso retrata a Segunda Guerra Mundial como uma espécie de Inferno na Terra. Dedicando momentos intensos e chocantes para mostrar os abusos físicos cometidos pelos nazistas (mas nunca transformando esses momentos em meros veículos de violência gratuita), o filme mostra os tormentos externos e internos enfrentados pelos personagens. Cada um deles, à sua maneira, tem a vida alterada ou prejudicada pelo advento da guerra. Jules mente para a família e usa a esposa como um mero objeto sexual para aliviar a tensão que sente no trabalho; Olga, do alto de sua nobreza, se rebaixa ao nível de um animal ao roubar as vestimentas de uma prisioneira que acabou de falecer e oferecer o corpo em troca de alguma mercadoria; e Helmut luta com a própria consciência quando percebe as mentiras vendidas pelo discurso utópico do Nazismo.

Paraíso, filme de Andrey Konchalovskiy

No entanto, apesar de parecer simples dizer que numa situação como a Segunda Guerra Mundial o certo e o errado são cristalinos e que os heróis e vilões são facilmente reconhecíveis, o filme nos revela que até mesmo em situações dessa natureza os comportamentos humanos são complexos e que há uma zona moral cinzenta onde o Homem transita indefeso. Não há como não ficar perplexo e, ao mesmo tempo, desolado, ao ver uma alma pura como Olga tendo de se submeter aos comportamentos mais primitivos apenas para poder sobreviver por mais alguns dias, ou sentir empatia por Helmut, que, mesmo sendo antissemita e assassino, é um admirador das artes e trata os seus servos com educação e muito carinho (na  belíssima cena em que ele doa roupas para a empregada, a sua figura não aparece no plano, indicando que essa bondade está escondida em algum lugar dentro dele).

Construído sobre uma narrativa que funciona em duas instâncias distintas, Paraíso intercala o desenrolar da história com depoimentos dados à câmera e a um interrogador invisível pelos três personagens principais. Através desses depoimentos, sabemos algumas informações sobre o passado de cada um e algumas das sensações sentidas durante a guerra. No entanto, ao longo do primeiro e segundo atos, essa intercalação incomoda, atrapalhando o ritmo do filme e dando a impressão de que foi adotada pelo roteiro e montagem para funcionar como um recurso expositivo, já que, na maior parte do tempo, os personagens dizem aquilo que foi mostrado ou está subentendido em outras cenas da obra. Porém, os minutos finais chegam, e como sobreviventes do Inferno que enfim chegam ao Paraíso, somos presenteados com a justificativa terna e comovente dos roteiristas para o emprego desse recurso.

Paraíso, filme de Andrey Konchalovskiy

O final é sublime!

(Caso queira evitar SPOILERS, pule os dois parágrafos seguintes)

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No terceiro ato, descobrimos que os personagens já morreram e estão no Purgatório. Os depoimentos deles são confissões (como são momentos de verdade interior, as falas deixam de ser expositivas e se tornam confessionais) dadas para Deus ou alguma outra entidade metafísica que decidirá se eles vão para o Inferno ou o Paraíso. Como os arrependimentos de Jules são irrisórios (em certo ponto, ele lamenta não ter dormido com Olga) e Helmut reafirma a ideologia do Estado Nazista, Olga é humilde até mesmo quando reconhece os seus atos históricos (ela dá um passe livre para uma amiga e sacrifica a própria vida para salvar duas crianças) e é única cujo rosto é banhado pela luz divina e para qual os portões do Paraíso são abertos. Afinal, se nos assuntos mundanos, a moral humana pode ser cinzenta, no plano sobrenatural, o certo e o errado são opostos bem distintos.

Eu não traria para o texto o parágrafo acima se ele não fosse importante para explicar alguma escolhas estilísticas de Andrey Konchalovskiy e Aleksandr Simonov, o diretor de fotografia. No filme, a câmera funciona como um julgador onisciente do comportamento dos personagens. Se, nos depoimentos dados à câmera, isso fica claro pela revelação de que a câmera são os olhos do Ser que decidirá o futuro espiritual de cada um, existem dois outros momentos mais sutis em que um plano plongée (que olha de cima para baixo) observa primeiramente Jules e depois ele e Olga no instante em que os dois participaram de uma situação moralmente repreensível. Além disso, isso também justifica a fotografia do filme, uma vez que, aos olhos divinos, o certo e o errado são como o branco e o preto, respectivamente. E não é à toa que, ao entrar no Paraíso, a luz que reflete no rosto de Olga é de um branco translúcido. Ademais, a razão de aspecto menor (1.37:1) usada no filme simboliza a visão precisa dos olhos que sabem exatamente onde olhar.

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Paraíso, filme de Andrey Konchalovskiy

Com planos elegantes e que ilustram mais de uma ação (como o enquadramento que mostra tanto o reflexo de Olga vomitando quanto ela se lavando na pia posteriormente, ou a cena da briga entre Helmut e Olga que ocorre em primeiro plano no lado esquerdo do quadro, para depois mostrar o oficial nazista gritando e andando em segundo plano, dessa vez no lado direito do quadro) e uma narrativa que opera simbolicamente em três partes (Jules – Olga – Helmut e Inferno – Purgatório – Paraíso) – fazendo referência à Divina Comédia, de Dante Alighieri (aliás, o célebre trecho “Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança” é proferido por uma personagem) -, Paraíso é um daqueles filmes que confirmam o bom senso de que uma história precisa ser acompanhada até o final. Se tivesse saído no meio da sessão, teria achado o filme ruim e repleto de equívocos. Porém, como fiquei até o fim, fui recompensado e tive a certeza de que o novo filme de Konchalovskiy é uma obra-prima legítima.

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