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O Passado – Como seguir (mesmo) em frente? (Estreia em 08/05/2014)

Por que alguns problemas pessoais, principalmente quando envolvem outros indivíduos, parecem tão difíceis de resolver? O Passado, de Ashgar Farhadi, faz essa pergunta sem resposta fácil, mostrando a travessia de personagens claramente insatisfeitos com a vida que levam, seguindo com seus fardos aparentemente inevitáveis. Esse difícil caminho não é uma jornada inspiradora, muito pelo contrário, mas um exercício de reflexão sobre como alguns relacionamentos funcionam e como somos afetados por eles.

O filme começa com a volta do iraniano Ahmad a Paris, depois de quatro anos, a pedido de sua ex-esposa francesa Marie, para oficializar o divórcio. Ahmad é instalado, a contragosto , na mesma casa que dividia com ela, o que gera um sensível desconforto entre ele e Samir, com quem Marie se relaciona atualmente e espera casar-se. Aumentando a complexa teia de causa e efeito deste trio, ainda moram na mesma casa as duas filhas do primeiro casamento de Marie, Léa e Lucie, esta já adolescente, e Fouad, filho de Samir. Fouad é uma criança compreensivelmente difícil, pois além da complicação que a mudança de lar traz durante a infância, a verdadeira mãe do menino vive há meses em estado vegetativo no hospital. Completando esse pano de fundo já bastante atribulado, Lucie, vivendo sua fase de rebeldia, é contra o novo casamento da mãe, deixando clara sua hostilidade com Samir e aproveitando a presença do ex-padrasto Ahmad para desabafar.

Desenvolvendo a narrativa, é como se esse panorama geral fosse um bloco de mármore e partindo daí o diretor começasse a esculpi-lo, revelando a verdadeira forma deste mosaico inter-relacional. Isso não significa que o diretor optou por sobrecarregar a trama com detalhes excessivos do passado dos personagens, pois em momento algum o tempo é desperdiçado com informações inúteis. Nem mesmo o recurso de flashback é utilizado. Um excelente exemplo disso é a dinâmica entre Ahmad e Marie, cujo período como casal simplesmente não precisa ser detalhado, e em momento algum eles relembram alguma situação direta, aborrecendo o espectador com uma fala descritiva. Na verdade, há algumas informações que chegam e acabam por nos confundir, plantando a dúvida, mostrando que a insinuação faz parte do jogo e que determinadas situações tem uma natureza tão complexa que desafia uma lógica mais direta.

Com uma história assim, O Passado poderia ter seu calcanhar de Aquiles no elenco, não necessariamente nos méritos individuais, mas na interação entre os personagens, bastante contrastantes em termos de comportamento e personalidade. Não foi o caso, pois os atores defendem muito bem seus papéis, inclusive as crianças, expressando todas as nuances que se esperaria de pessoas normais em condições como aquelas, além de funcionarem também dividindo a cena. Ali Mosaffa, como Ahmad, passa a resignação um tanto cansada de alguém que não tem escolha, a não ser encarar o constrangimento da situação, enquanto Bérénice Bejo compõe sua Marie exibindo o peso do estresse, em parte auto-imposto, cujo pico é apenas uma questão de tempo. Pauline Burlet, vivendo a atormentada adolescente Lucie, entrega outra atuação digna, convencendo bastante no sofrimento intrínseco da idade, mas agravado pela falta de unidade familiar. Os pequenos também não decepcionam e deixei Tahar Rahim, por último por considerar seu Samir o personagem mais complexo do filme, muito disso pelo trabalho do ator, que na economia de expressões conseguiu criar um indivíduo que não parece apenas alguém que esconde um profundo desgosto em uma fachada de indiferença. A ambiguidade de Samir tem suas camadas descobertas no decorrer da história, culminando no momento mais surpreendente do filme.

Assistir a O Passado é como ser convidado a acompanhar um caso complicado envolvendo pessoas próximas, onde sabemos que será muito difícil, senão impossível, atribuir os rótulos de culpados e vítimas. Como na vida, não há uma saída clara para determinados tipos de dilemas, e Ashgar Farhadi faz questão de esfregar isso em nossos narizes. A partir disso, é a conclusão individual de cada espectador que realmente importa.

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