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Moonlight: Sob A Luz Do Luar – Um drama humano sem muitas sutilezas!

Moonlight: Sob A Luz Do Luar pesa a mão em alguns momentos

Dramas que buscam retratar a vida de uma maneira real, como se fossem uma espécie de documentário ficcional, exigem dos realizadores um olhar aprofundado e sensível às sutilezas humanas. Os personagens nunca podem ser enxergados como arquétipos e as situações construídas de maneira maniqueísta. Afinal, é impossível definir seres humanos por uma única característica ou imaginar situações reais que não tenham um desenvolvimento natural, seguindo o ritmo comum ao nosso dia a dia. Moonlight: Sob A Luz Do Luar (Moonlight) é um desses dramas que buscam ser um retrato fiel da vida, porém faltou à obra um número maior de sutilezas ao longo de sua narrativa.

Moonlight: Sob a Luz do Luar - Barry Jenkins

Moonlight: Sob a Luz do Luar

Mostrando a vida de seu protagonista através de três momentos distintos intitulados Little, Chiron e Black (Chiron é interpretado por Alex Hibbert na infância, Ashton Sanders na adolescência e Trevante Rhodes na vida adulta), o filme apresenta, na primeira parte, a relação conflituosa do personagem com a mãe drogada (Naomie Harris, que esteve em Beleza Oculta) e mostra a sua amizade com um traficante de drogas chamado Juan (Mahershala Ali, que pode ser visto em Estrelas Além Do Tempo, além da série Luke Cage). Na segunda, é narrada a descoberta do desejo homossexual e o preconceito que sofre na escola por causa disso. Por fim, na terceira parte, acompanhamos o personagem retornando à acontecimentos e pessoas do seu passado.

Construído sobre uma narrativa que em momento algum esconde a sua natureza episódica, o roteiro de Moonlight: Sob A Luz Do Luar (adaptado pelo próprio diretor, Barry Jenkins, a partir de uma história escrita por Tarell Alvin McCraney) opera dentro de três blocos que estabelecem consideráveis elipses temporais na história do protagonista. O primeiro bloco introduz, através de um econômico e inventivo plano longo, Juan e o ambiente que o circunda. Traficante de drogas e, ao mesmo tempo, fazendo de tudo para manter Chiron longe das bocas de fumo, o personagem carrega dentro de si uma contradição acachapante.

Brilhantemente exposta na intensa cena que o mostra pedindo para Paula, a mãe do protagonista, não fumar no bairro comandado por ele (ao passo que a repreende por ser uma figura materna negligente, ele é o sujeito que se beneficia financeiramente do seu vício), essa contradição interna de Juan é o elemento mais sutil trabalhado pela narrativa.

Moonlight: Sob a Luz do Luar - Barry Jenkins

No entanto, além de cometer o erro crasso de abandonar o personagem mais interessante da história logo depois do primeiro ato (ele não aparece no restante do filme), Jenkins, ao sentir a necessidade de expor essa contradição de Juan através de falas expositivas proferidas por Paula (ao invés de deixar o espectador chegar a essas conclusões por conta própria), já oferece um indicativo de que, para reforçar as mensagens do filme, abandonará a sutileza em alguns momentos.

Também pesando a mão na figura caricata da mãe (Naomie Harris abusa no overacting, soando estridente e escandalosa na maior parte do tempo) e na situação clichê de mulher drogada, Jenkins, ainda na primeira parte, falha sobremaneira na tentativa de mostrar para o espectador que a homossexualidade de Chiron já era latente na infância. Como ele usa momentos que poderiam ser facilmente vistos durante os primeiros anos de qualquer criança (meninos descobrindo os seus membros sexuais ou a tiração de sarro entre eles), confesso ter percebido que o protagonista era gay somente em um dos diálogos de Juan com Paula. Uma vez que há uma série de cenas filmadas com o propósito de revelar a sexualidade do personagem, o fato de isso ser percebido pelo espectador através de uma fala é um sinal colossal de fracasso do roteirista e diretor.

A segunda parte de Moonlight, por sua vez, exagera na vitimização do protagonista. Caminhando sempre de cabeça baixa e quase nunca reagindo às provocações, Chiron é um daqueles personagens que inspiram pena ou, no pior dos casos, raiva, já que a sua passividade extrema acaba gerando um sujeito que nunca se impõe frente às provações da vida, se enxergando constantemente como um coitado.

Moonlight: Sob a Luz do Luar - Barry Jenkins

Aliás, um outro elemento que chama atenção negativamente é o valentão que persegue o protagonista por causa de seus trejeitos. Ao contrário do que acontece com todos os outros personagens, não há uma única cena dedicada a mostrar ou explicar os motivos por detrás de seu comportamento torto. Para Jenkins, ele é ruim simplesmente por ser ruim. Para um filme que deseja ser tão humano, esse determinismo soa preguiçoso e incondizente.

Inclusive, a briga no final do segundo ato envolvendo o valentão e uma brincadeira que ele costumava fazer com Kelvin, o melhor amigo de Chiron (assim como o protagonista, ele é interpretado por três personagens diferentes em três momentos distintos da vida), é extremamente forçado, além de ter sido jogado dentro da narrativa. Claramente, Jenkins a introduziu na narrativa para criar um conflito entre Kelvin e Chiron e apresentar o acontecimento que será determinante para o futuro do protagonista. Um dos únicos momentos realmente eficientes e sutis do segundo ato é a poética, porém, desconfortável, cena de sexo na praia. Filmada com um realismo e intensidade impressionantes, essa cena é um dos poucos instantes que elevam o filme cinematograficamente.

Moonlight: Sob a Luz do Luar - Barry Jenkins

O fracasso do terceiro ato.

Já revelando logo no seu começo a posição marginalizada de Chiron na fase adulta (além de ser um desenvolvimento ilógico, gerando a dúvida no espectador sem satisfazê-la, Jenkins e o diretor de fotografia, James Laxton, reforçam desnecessariamente a aproximação do destino do protagonista com a situação de Juan ao mostrar os dentes de ouro e, em um close up, a coroa de rei no painel do carro), o terceiro ato é quase que inteiramente construído sobre um longo clímax cuja pobreza atmosférica (o espectador não anseia o próximo passo) só pode ser comparada com a incapacidade de Jenkins de decupar a cena de uma maneira interessante e rica (há dois planos repetidos do sino da porta!).

Além disso, mantendo a redundância de outros inúmeros momentos, depois do clímax começar com o uso brilhante do som de mar e vento (fazendo uma referência à cena da praia), há um corte para uma subjetiva do protagonista, o que reforça mais uma vez a insegurança do cineasta na transmissão de suas mensagens.

Embora tenha alguns elementos técnicos que atinjam a excelência (a iluminação azulada reflete magistralmente o discurso de Juan no primeiro ato) e atuações exuberantes (Maharshala Ali mostra ter muito carisma e os três atores que interpretam Chiron mantém ao longo do filme a mesma postura e olhar), Moonlight: Sob A Luz Do Luar é um filme cuja temática tem se beneficiado da presença maciça dos argumentos progressistas na mídia e no próprio meio cinematográfico. No entanto, na ânsia de transmitir a sua mensagem sobre identidade de gênero e diversidade, acaba por se perder na redundância de certos momentos e no exagero de alguns elementos, o que é inteiramente contrário à sua intenção humanista.

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  • Muito interessante o seu ponto de vista. Eu vejo esse filme de uma forma muito subjetiva e tento compreender a subjetividade do diretor também. Parabéns pelo texto.