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Macbeth: Ambição e Guerra – Shakespeare sombrio e feroz!

Macbeth

Ao longo da História, poucas pessoas conseguiram dividir o mundo (ou mesmo o próprio campo de atuação) entre antes e depois. Fora dos campos religiosos, políticos ou militares, essa lista fica ainda mais exígua, mas o nome de William Shakespeare é um divisor de águas para a cultura universal, inegavelmente. A obra do dramaturgo possui uma influência tal que qualquer um, até mesmo quem sequer ouviu falar dela, pode estar envolvido em algum produto cultural inspirado na estética e no drama shakespeariano. Telenovelas, filmes, romances de todas as qualidades e até mesmo música pop e HQ’s devem muito ao bardo inglês. E o que pode tornar as peças teatrais de um autor do século XVI uma referência de cultura para o Homem moderno? A primazia e o talento em tratar dos sentimentos mais sombrios e ocultos do ser humano, mostrando como os desejos mais mundanos são assombrados pelas perturbações que a alma de cada indivíduo carrega de maneira exclusiva (um mal que é a chave que separa humanos de animais), abriu as portas para que a cultura de entretenimento mergulhasse nos segredos mais profundos do Homem, independente das condições de vida.

Macbeth

Um dos trabalhos mais aclamados de Shakespeare, Macbeth já foi diversas vezes adaptado para cinema e televisão do mundo todo. Serviu de referência aberta para produções desde o Brasil, como no recente A Floresta que se Move (Vinícius Coimbra, 2015), ao Japão, com Trono manchado de sangue (Akira Kurosawa, 1961), que ao lado de Macbeth (Roman Polanski, 1971) e Macbeth – Reinado de Sangue (Orson Welles, 1948) são consideradas como algumas das melhores adaptações de Shakespeare para as telonas. Também não são poucos os que dizem que essa peça gerou os melhores frutos cinematográficos entre os muitos nascidos da obra do dramaturgo, mas é uma discussão que iria longe para os cinéfilos também amantes do teatro clássico.

A versão da vez, Macbeth: Ambição e Guerra, é dirigida pelo australiano Justin Kurzel (Snowtown, 2011) que traz uma versão ainda mais sombria e gélida que os predecessores, porém com uma riqueza estética hipnotizante. A fotografia, muito escura e fria, que reforça não apenas a temperatura ambiente das charnecas escocesas, como também a frieza da alma de todos os personagens, pode causar certo estranhamento na assimilação do filme, mas é fundamental para a composição sensorial que a obra exige.

Na trama, o valoroso general Macbeth, ao lado do amigo Banquo, vence com bravura uma batalha monumental contra os noruegueses, ganhando o respeito e admiração de todo reino da Escócia, inclusive do próprio rei Duncan. No fim dessa guerra, os dois combatentes encontram no caminho de volta três bruxas que profetizam que Macbeth será nobre, herdará o título de senhor da região e se tornará rei da Escócia, enquanto que Banquo será o pai de uma nova linhagem de reis. Em pouco tempo, ao saber das profecias e testemunhar que Macbeth realmente se tornara Barão de Condor por ordem direta do monarca, sua esposa engendra um plano para que a segunda revelação também se concretize e o marido enfim se torne rei. Lady Macbeth o contamina com sua ambição e o convence a trilhar um caminho de assassinatos e traições, que não respeitaria limites de gratidão, confiança e amizade.

Sob a força de persuasão arrasadora dela, o guerreiro, até então íntegro e cheio de valores, se torna um homem frio e violento. Chega ao trono após matar o rei que o recebia como hóspede. Para se manter no poder, orquestra a morte de todos que ameaçam seu posto, inclusive mulheres e crianças e até do próprio amigo Banquo e sua família. Todas as passagens são mostradas de forma poética pelo diretor, porém sem perder a dureza que o momento demanda.

Macbeth

No texto de Shakespeare, culpa, ambição e a óbvia frustração corroem a alma de todos os envolvidos até às raias da loucura. Em Macbeth – Ambição e Guerra, essas nuances são primorosamente representadas não apenas pelo acurado trabalho de direção, mas, sobretudo, pelo brilhante desempenho do fabuloso elenco. A vencedora do Oscar Marion Cotillard (Piaf: Um Hino ao Amor) está impecável no papel de uma das personagens coadjuvantes mais importantes da história da dramaturgia. Com olhar frio e penetrante como uma faca, além de uma voz suave e ao mesmo tempo intimidadora, a atriz consegue transmitir com rara competência os conflitos de desejo e desgosto e os sentimentos de manipulação de uma mulher condenada à infelicidade por sua ambição sem limites. Michael Fassbender (12 anos de escravidão), como protagonista, viaja da integridade moral inicial do seu personagem ao sadismo, à culpa e à loucura com expressividade penetrante, levando o espectador à dúvida entre a solidariedade e a revolta. O elenco de apoio também está fantástico, com destaque para Sean Harris, como o cavaleiro Macduff, um ator pouco valorizado mas que já demonstrou evidente talento para compor personagens emocionalmente complexos. Haja visto seu ótimo Michelleto, na série canadense Os Bórgias (2011-2013), cujo perfil até muito lembra o par cinematográfico.

Macbeth

Ao trabalhar com uma adaptação, Kurzel optou por ser o mais fiel possível ao texto teatral. Os textos são praticamente os mesmos presentes na peça, porém em forma mais enxuta e resumida. Na verdade, passagens e personagens importantes para a peça foram retirados do longa, o que pode incomodar alguns por passar uma impressão de incompletude em certos momentos. O diretor, no entanto, optou por manter a esfera teatral para a estética final, destacando cenários imponentes, porém simples, desprovidos de elementos que não fossem rigorosamente necessários à narrativa. A direção de elenco buscou atuações fisicamente contidas, similar às adotadas outrora por Robert Bresson (Batedor de Carteiras, 1959), em que a dramaticidade está concentrada muito mais em olhares e expressões do que em gestos explosivos. De fato, os diálogos são quase sempre sussurrados e as movimentações muito vagarosas para uma história de guerra. O excesso de câmeras lentas também impõe freios dispensáveis para uma história dessa magnitude, em que a força dramática já estaria muito bem conduzida pelos atores, fotografia e, claro, pela própria história. Esses recursos, infelizmente, acabam desviando a atenção do espectador das reais qualidades que o filme possui.

Macbeth

Apesar de estar longe de ser uma obra de arte, Macbeth – Ambição e Guerra pode sim ser um filme de arte, ao assumir o desafio de ser uma nova adaptação honrosa da já tão adaptada e tão respeitada peça de Shakespeare. Nos teatros do mundo, existe a lenda de que a encenação de Macbeth, ou até mesmo a mera citação do seu nome em uma estreia qualquer, é sinal de mau agouro, de fracasso certo ou de acidentes e empecilhos que infernizarão a vida dos envolvidos. O cinema parece não se preocupar muito com essa crença, ao aproximar o mundo dessa obra valiosíssima com filmes surpreendentes e emocionantes. Em uma era de baixa criatividade na sétima arte, torçamos para que Shakespeare continue sendo fonte de recriações que nos façam questionar nossos lados mais sombrios, mas, por outro lado, trazendo também aquela luz que acompanha o conhecimento e a cultura.

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