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Immortel (Ad Vitam) – Quadrinho francês filmado!

Immortel

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Sabe aquele filme que em circunstâncias especiais – tarde da noite e já com um pouco de sono – você descobre zapeando pela TV? Daquele tipo onde algum detalhe chama atenção e você deixa no canal para ver do que se trata. O lance parece meio surreal, mas a curiosidade é grande, embora você tenha perdido boa parte dele e o que está vendo não faz sentido sem o início. O sono vence e no dia seguinte, em algum horário do dia, você se lembra daquelas imagens, sem ter muita certeza se era mesmo um filme ou parte de um sonho.

Com toda certeza, Immortel (Ad Vitam), de 2004, se encaixaria perfeitamente na situação descrita acima por causa de algumas particularidades:

1-      Apesar dos diálogos em inglês, é uma co-produção francesa de ficção científica nunca lançada aqui, o que a torna bem pouco conhecida.

2-       Há alguns anos, andou passando bastante na TV paga antes de sumir.

3-      É bastante estranho, tanto no visual como na história.

O filme é uma adaptação de um clássico dos quadrinhos franceses, ou melhor, de dois terços deste clássico. Immortel tem seu roteiro baseado nos dois primeiros álbuns da Trilogia Nikopol, A Feira dos Imortais e A Mulher Armadilha, do quadrinhista Enki Bilal, que co-escreveu o roteiro da versão cinematográfica de sua obra, assim como assumiu o risco de ocupar a cadeira de diretor da produção. Se você já teve o prazer de ler os álbuns, ou mesmo se teve algum contato com os quadrinhos franceses de FC, já deve ter uma ideia do quanto é complicado adaptar material tão complexo conceitual e visualmente.

Jill Bioskop e Nikopol.

Jill Bioskop e Nikopol.

O filme se situa em Nova York de 2095 e conta a história de Jill Bioskop, uma mutante de passado misterioso, ajudada por uma médica que impede que ela caia nas mãos da Eugenics, uma corporação geneticista corrupta. O povo vive num regime ditatorial, sob um governo subserviente aos interesses corporativos. Mutantes alienígenas são comuns, graças a uma fenda dimensional em pleno Central Park. Uma pirâmide flutuante, ocupada por deuses egípcios, se instala nos céus da cidade. Hórus, deus dos céus na mitologia egípcia, é advertido que tem sete dias na Terra antes que sua sentença de morte seja cumprida, então acaba encontrando Nikopol, um prisioneiro dos tubos criogênicos, libertado por um acidente. Sob influência direta de Hórus, Nikopol é usado por ele para aproximar-se de Jill.

Divindades egípcias e muito mais!

Divindades egípcias e muito mais!

Immortel talvez tenha o discutível mérito de ser a primeira produção a trabalhar com cenários totalmente digitais, com os atores filmados com telas verdes ao fundo. Ainda há discussão sobre qual foi o primeiro de fato, já que no mesmo ano de 2004 também estrearam Capitão Sky e o Mundo do Amanhã, nos EUA, e Casshern, no Japão. No fim das contas, não vale muito ser o primeiro se o resultado final, visualmente falando, tem falhas que poderiam ser evitadas. O filme curiosamente utiliza-se não só dos cenários digitais, mas até alguns personagens humanos são inexplicavelmente digitais, numa época em que mesmo Hollywood, torrando dinheiro a rodo, não tinha como atingir um grau satisfatório de realismo nesse quesito. Isso faz com que o filme acabe virando uma mistura bizarra de animação com atores, prejudicando muito a interação entre alguns personagens.  Falando em interação, era evidente desde o começo de que em alguns momentos a trucagem do fundo verde se mostrasse pouco verossímil, o que realmente acontece, mas é menos grave que o outro caso.

Ainda assim, é possível desfrutar de um desenho de produção fantástico. Os carros voadores, naves e paisagens urbanas são realmente um show e me fizeram pensar em como o livro de concept art do filme, caso exista, deve ser espetacular. A fotografia com matizes em cores frias combina bastante com os objetos e os figurinos do filme, além de servir bem ao clima da história, ainda que esse detalhe visual seja diferente das HQ’s, onde a frieza estava mais restrita ao comportamento dos personagens principais. Aliás, no filme os personagens mantiveram essa característica, o que torna difícil definir isso como opção diretor ou inabilidade mesmo. Talvez isso seja até menos estranho ao público francês, mas de qualquer forma também acaba prejudicando a narrativa, pois em momento algum se sente que alguém corre perigo.

Cenas de encher os olhos de qualquer fã de FC.

Cenas de encher os olhos de qualquer fã de FC.

Surpreendentemente, o roteiro é mais “comportado” e mais linear do que se poderia imaginar pela sua fonte, o que pode frustrar os fãs do quadrinho. Ainda que existam detalhes aos montes, cuja finalidade é apenas informar o espectador sobre a situação geral daquele mundo fictício, mais alguns pontos indefinidos, existe uma linha narrativa relativamente simples do início ao fim do filme. Talvez essa seja a principal falha de Immortel. Com um orçamento apertado para algo tão ambicioso visualmente, essa limitação poderia ter sido compensada com um roteiro mais engenhoso e estimulante, já que houve liberdade para mudar o que fosse preciso em relação ao original.

Esta foi a última incursão de Enki Bilal como cineasta e a única que conferi até hoje. O sujeito tem mais dois longas e um curta, até elogiados segundo o Imdb, portanto, deixarei qualquer consideração direta sobre seu talento como diretor para outra ocasião. O veredito? Acredito que pela curiosidade, quem já leu e gosta dos quadrinhos do cara vai se divertir um pouco abstraindo algumas coisas e deixando-se levar pelo visual. Quem ignora quadrinhos, se curte cinema de ficção científica, também tem o incentivo de conhecer um filme de pegada bem diversa se comparado com produções de Hollywood. Veja o filme completo aí embaixo.

Nunca ouviu falar de coisa alguma citada neste artigo? Confira a postagem sobre os álbuns da Trilogia Nikopol, depois procure para ler e então volte aqui e dê uma olhada no filme.

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TRILOGIA NIKOPOL – O surreal e o simbólico na ficção científica européia!