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Woody Allen hoje e o memorável Crimes e Pecados

Em sua realização mais recente, o drama Blue Jasmine, que ainda está nos cinemas, Woody Allen vem sendo ovacionado por críticos e ganhando prêmios. É uma obra de qualidade superior em relação a muita coisa que vemos por aí, mas não me convenceu por completo. Seus diálogos continuam bem escritos, inteligentes e a atuação de Cate Blanchett merece todos os elogios que vem recebendo, porém ainda prefiro o diretor quando combina drama e comédia. Não é o caso aqui…

Cate Blanchett e seu problemático personagem em Blue Jasmine

Cate Blanchett e seu problemático personagem em Blue Jasmine

Em Para Roma com Amor de 2012, Allen se concentra na comédia romântica. Uma boa comédia, mas fiquei ainda menos entusiasmado com o resultado final, por ser leve e despretensiosa demais. Tem boas piadas, sem dúvida, mas os personagens não encantam o suficiente e o diretor parece querer divertir de forma superficial, deixando pra trás seu lado irônico forte que tanto o caracterizou. No final, ficamos com aquela sensação de que alguma coisa falta para torná-lo um produto consistente ou memorável. De forma alguma é ruim, mas quem aprecia seus trabalhos sempre espera mais. Não precisamos ir muito longe, Meia-Noite em Paris, por exemplo, é recente e bem superior.

Entre acertos e erros nos últimos anos, tomo a liberdade agora para propor uma procura no fundo do baú. Na verdade, nem tão fundo assim. Para um Woody Allen inspirado, vale descobrir ou redescobrir uma preciosidade chamada Crimes e Pecados de 1989, que talvez não faça parte dos mais lembrados clássicos do diretor como Manhattan, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa ou Hannah e Suas Irmãs, mas  é uma de suas principais contribuições para o cinema sem dúvida.

Neste filme, Allen cria duas histórias paralelas. Uma delas conta sobre um oftalmologista (Martin Landau) que, mesmo casado há muitos anos, cultiva um relacionamento com uma amante há um bom tempo. Ela, cansada desta relação, decide infernizar sua vida, caso não largue definitivamente sua esposa. O médico decide então tomar uma atitude mais radical e pede auxílio ao seu irmão.

Na outra história, um diretor de documentários (Woody Allen), tenta há um bom tempo produzir um filme sobre um professor de filosofia, mas não consegue pela falta de interesse dos produtores no assunto. Ironicamente, ele é contratado por seu cunhado (Alan Alda), um produtor de TV muito bem sucedido, mas para fazer um documentário sobre seu próprio sucesso profissional.

O diretor junta as duas fórmulas que sempre o acompanham, a comédia e o drama. Desta vez, dosados perfeitamente. Humor afiado como nunca, Allen sintoniza sua ironia clássica com seu lado dramático e faz duas histórias paralelas equilibradas que juntas formam um filme extraordinário. O roteiro genial entrelaça as histórias e as aproxima de vez no clímax, criando o memorável encontro entre as duas principais figuras do filme. Os diálogos são inteligentes e os personagens inspirados: Woody Allen e Alan Alda, por exemplo, mostram uma rara sintonia entre personagens ideologicamente opostos.

Cena memorável de Crimes e Pecados

Martin Landau e Woody Allen em cena memorável de Crimes e Pecados

Sua vasta filmografia nem sempre trouxe filmes acima da média, mas dá pra entender que não é possível criar obras-primas todos os anos, visto que sua mente criativa impressionante faz filmes anuais mesmo com quase 80 anos de idade. E este filme, entre muitos outros de sua coleção, é uma obra-prima, definitivamente.

Vamos aguardar o próximo trabalho do diretor, Magic in the Moonlight, que já está em pós-produção, e esperar que acerte em cheio.

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