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Cortinas Fechadas – Expondo as entranhas do artista

O diretor Jafar Panahi tem uma história conturbada com o governo do Irã, falando eufemisticamente, já que nenhuma palavra seria adequada para descrever. Mundialmente premiado – como profissional do cinema e humanitário – sua visão crítica do regime fez com que seus filmes fossem banidos do país. Preso por duas vezes, ele encara hoje uma proibição de vinte anos sem poder escrever, filmar, dar entrevistas e viajar ao exterior, uma situação que certamente levaria muitas pessoas a uma depressão suicida, não? Pois foi exatamente o que aconteceu com ele.

A repressão do potencial criativo e suas consequências, no entanto, levaram o cineasta a desafiar essas restrições, realizando secretamente Cortinas Fechadas, co-dirigido por Kamboziya Partov, e o resultado é uma bela catarse alegórica, onde Panahi, também roteirista do filme, expõe algo de seu drama pessoal e suas motivações, frente às condições de viver num regime opressor. O filme estreou hoje no Brasil, primeiro país a recebe-lo, para depois ser lançado na Inglaterra, Grécia, Turquia e Bulgária.

Numa narrativa lenta e intimista, localizada quase toda dentro de uma casa à beira-mar, a história começa com a chegada de um homem e seu cachorro ao local, até então vazio. Mostrando as ocupações mais banais e corriqueiras, a rotina do homem é bastante entediante, mas isso não significa que ele, ou o público, estejam isolados da barbárie do regime iraniano. O clima de uma vida privada de sentido pelo medo é evidenciado por sons externos e pela TV, e o personagem se esconde atrás das grossas cortinas pretas que colocou nas janelas. Essa tranquilidade tensa é abalada pela chegada de uma mulher, cujo acompanhante pede ao relutante morador que a deixe ficar ali, cuidando para que ela não se suicide. Com dois personagens agora ocupando o espaço cênico, começa um interessante jogo metafórico em que o espectador tentará entender o verdadeiro propósito e discurso do filme.

Parece complicado, e até mesmo hermético, mas tomando o cuidado de não tocar em pontos reveladores, o filme não é apenas sobre duas pessoas em uma situação desconfortável, discutindo o sexo dos anjos. Existe um elemento principal e revelador que se apresenta inesperadamente em algum momento desta trama, e vai aos poucos trazendo mais sentido a tudo. Caso eu falasse mais sobre isso e seu impacto na história, estaria privando o leitor do prazer que eu tive assistindo, mas posso afirmar que a organização das informações, em todo este texto, levou em consideração o mínimo que acho conveniente saber antes de embarcar no filme.

Sem nenhum tipo de muleta cosmética na fotografia ou na edição, contando apenas com o som diegético, Cortinas Fechadas conta sua história da forma mais simples possível, procurando envolver o espectador no desconforto e na incerteza que ronda a vida dos ocupantes daquela casa. Acaba trazendo uma reflexão muito profunda a qualquer um que se dispuser a pensar, independente do país em que viva. É um testemunho sincero de alguém que passa por uma situação difícil, além de qualquer coisa que alguém que não more no Irã poderia imaginar. Ao final, ele recompensa bem quem aceitou acompanha-lo nesse caminho, e o melhor é que em nenhum momento subestimou a inteligência alheia, ou apelou para o sentimentalismo fácil.

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  • Gostei demais do seu texto, Daniel!!! Que análise incrível!!! Ainda não vi o filme, mas partindo da leitura do seu texto, somado aos da Kátia, para o Mundo Blá, e do Flávio, para o Fala, Cinéfilo, imagino que seja um filme difícil (no bom sentido) e profundo, algo que sempre representa um desafio ao espectador, já que o tira da condição passiva diante da tela. Parabéns!!!

    • Daniel Fontana

      Opa, muito obrigado!!! Legal ouvir isso de quem também é do ramo hehehe