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Charles Chaplin – O Gênio das Mil Faces 40 anos depois!

A contribuição de Charles Chaplin para as artes

A primeira vez que vi Charles Chaplin foi na capa de um VHS velho, na casa de uma amiga de minha mãe. O filme era Tempos Modernos (Modern Times, 1936). Li a sinopse e, ainda criança, assisti ao filme. Fui tocada pelas acrobacias feitas pelo Vagabundo, que me fizeram rir e querer saltitar (não com a mesma perícia, claro).

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O Carlitos de Chaplin!

O contexto da história, porém, tornou-se compreensível somente quando adolescente, ao analisar o filme em sala de aula. Chaplin criou uma fábula moderna sobre a industrialização e seu poder esmagador sobre os homens. O filme foi feito em 1936 – mas parecia ter sido feito em 2006, quando o assisti pela primeira vez. E essa era, talvez, a maior qualidade dele: fazer suas histórias tão bem estruturadas que elas sempre serão atuais.

Sir Charles Spencer Chaplin, KBE, foi um diretor, roteirista produtor, ator, compositor, empresário, dançarino e editor britânico (ufa!) nascido em 1889. Ainda criança, mesmo em um ambiente familiar pouco propício à criatividade (seu pai era alcoólatra e sua mãe tinha problemas mentais), desenvolveu um peculiar talento para a dança, o canto e a pantomima que o tornariam famoso no futuro.

Junto de seu meio-irmão Sidney, atuou em shows de Vaudeville, que o introduziram profissionalmente no meio dos espetáculos. Em 1910, imigrou para os Estados Unidos para atuar, ainda no teatro, com shows de comédia e dança (junto com a trupe de Fred Karno, onde também estava um então desconhecido Stan Laurel). A partir de 1913 inicia no cinema, como ator de comédia pastelão, nos estúdios Keystone, de Mack Sennett.

Esse trabalho, gradualmente ampliado graças ao incrível talento físico do ator, que migrou de coadjuvante para protagonista e principal estrela do estúdio, garantiu que ele passasse a ter autonomia para produzir seus filmes após o término de seu contrato com Sennett.

Em 1916, ao assinar um contrato de 12 filmes com a Mutual Film Corporation, estabeleceu uma equipe praticamente fixa (inclusive já contando com sua primeira musa, Edna Purviance, que atuou em diversos filmes dele) e teve autonomia para cuidar de várias etapas do processo criativo (algo muito visto atualmente, mas, até então, extremamente raro na indústria).

Em 1917, ao assinar um contrato com a First National, optou por fazer filmes de longa-metragem, indo contra o planejado pelo estúdio, que queria curtas-metragens. O que se mostrou uma excelente decisão: entre os clássicos desta época, ganhamos O Garoto (The Kid, 1921), que, apesar de mudo e com uma criança como co-protagonista, ainda faz muita gente rir e chorar, simultaneamente, e cimentou o caminho de Chaplin como um artista multifacetado e de alto retorno.

A fundação da United Artists e a importância dessa ação para o futuro da indústria

Em 1919, aos 30 anos, funda a United Artists juntamente com Mary Pickford, a primeira “Queridinha da América”, figurinha carimbada nos filmes românticos e que desejava papéis de mulheres mais fortes e independentes; Douglas Fairbanks, um dos primeiros galãs de Hollywood, associado a filmes de capa-e-espada como Robin Hood e Zorro; e D.W. Griffith, diretor já renomado na época pelos filmes O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation, 1915) e Intolerância (Intolerance, 1916), obras de qualidade inquestionável e pontos de vista ainda hoje extremamente discutidos.

Esses quatro artistas, de perfis tão diferentes, cimentaram algo que vimos, mais fortemente, nos anos 1970 e vemos mais comumente nos dias atuais: a autonomia dada aos cineastas para a produção de suas obras. Com a UA, Chaplin passou a também controlar a distribuição de seus filmes, tornando-se o detentor de praticamente 100% das etapas de produção de seu material.

Melhor sucedido neste sentido do que os colegas, ele dirigiu desde o excelente drama Casamento ou Luxo? (A Woman in Paris, 1923) até as agora consagradas comédias O Circo (The Circus, 1928) e Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925). É nesta produção, a favorita de Chaplin, em que primeiramente se visualiza o apreço técnico dele, ao criar uma plataforma móvel para uma das filmagens em movimento (a da cabana que se desloca na tempestade de neve) – algo que, certamente, não seria aprovado por outros estúdios por encarecer a produção. Também estão neste filme a dócil sequencia da dança com pãezinhos e da sopa de botas. Antológico!

O Circo!

Uma grande sacada da United Artists, que foi administrada por Chaplin até os anos 1950, foi começar a produzir filmes de outros cineastas, garantindo, assim, rentabilidade para que os próprios fundadores pudessem produzir seu conteúdo. Um clássico surgido na gestão de Chaplin foi o ótimo Scarface – A Vergonha de uma Nação (Scarface, 1932), dirigido por Howard Hawks. A UA ainda é associada, a partir dos anos 60, aos filmes de James Bond (produziu todos do cânone oficial até Quantum of Solace, de 2008) e aos cinco primeiros filmes da franquia Rocky, de Sylvester Stallone.

A contextualização de Tempos Modernos

A história, aparentemente simples, do Vagabundo em sua rotina frenética de trabalho, coincide com o final da Segunda Revolução Industrial, onde os processos de larga escala, como a linha de montagem Fordiana, apesar de trazerem significativas mudanças para o consumo de uma forma geral, também eram prejudiciais para os empregados, que cumpriam escalas de trabalho sobre-humanas, em péssimas condições e sem nenhum benefício.

Além disso, o filme, produzido em 1936, tinha cunho altamente comunista, algo mal visto nos Estados Unidos, que estabeleceram, para todo o mundo, o modelo de linha de produção criticado no filme – e, portanto, uma ideologia puramente capitalista.

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Tempos Modernos!

Chaplin soube ser hilário (quem nunca se imaginou, ao trabalhar muito, na posição de Carlitos ao ser literalmente engolido pelo maquinário?), soube ser crítico (a quantidade e circunstâncias em que o protagonista é preso, sempre envolvem política, de alguma forma) e soube ser tocante (o final é particularmente bonito).

Não foi preciso explicitar tais assuntos – eles estavam presentes em cada gag, em cada música (apesar da trilha sonora ter sido lançada somente na versão distribuída seis anos depois). A leveza com que ele abordou os temas de tempos modernos, para o padrão de 1936, cabem em qualquer época. Roteiro e edição foram tão bem estruturados que não foi preciso nem um diálogo falado.

Essa é uma importante questão envolvendo a indústria cinematográfica da época. Ao optar por abordar um assunto bastante atual sem diálogos falados, Chaplin foi na contramão de seus colegas, que já faziam uso do filme falado há bastante tempo, com sucesso de público e crítica. Por isso, esta é última representação em tela de seu Carlitos. Chaplin considerou que o personagem, produto da pantomima, perderia força se precisasse falar.

A crítica à Guerra que serve para qualquer Guerra

Em uma situação um tanto quanto hilária, um barbeiro judeu, que teve amnésia após a queda do avião onde esteve durante a guerra, é confundido com um tirânico estadista que pretende dominar o mundo. O histérico Adenoid Hynkel, de bigodinho, uniforme e oratória semelhante à de Hitler, foi duramente criticado quando as primeiras imagens de O Grande Ditador (The Great Dictator, 1939) foram divulgadas.

Muitos, antes mesmo de assistirem, entenderam o filme como uma ode ao Nazismo crescente e perigoso que já era uma ameaça real às minorias (notadamente os judeus, mas não somente eles). Na verdade, em seu primeiro filme totalmente falado, Chaplin faz, mais uma vez, uma comédia contextualizada, onde há o intuito de fazer rir, mas, sobretudo, há um poderoso discurso sobre o que faz uma guerra e quais são os caminhos para a paz.

Repleto de gags físicas e visuais, o filme também conta com trilha sonora composta por Chaplin. O trabalho dele, aqui, também é um interessante exercício de atuação. Na pele de Hynkel e também do barbeiro, ele faz dois personagens totalmente diferentes (o ditador, de trejeitos afetados e fala gritada, e o barbeiro, de feição expressiva, muita agilidade física e falas pontuadas pela trilha sonora). O que facilita para nós, que estamos assistindo, a não achar inverossímil que ninguém em todo o núcleo do gueto judaico, não tenha reparado na incrível semelhança entre eles.

O filme conta com algumas cenas bastante memoráveis, até hoje no imaginário popular. Hynkel brincando com um globo representando o planeta que ele pretende dominar (essa cena é tão icônica que se tornou, também, a abertura da novela O Dono do Mundo, exibida pela Rede Globo entre 1991 e 1992), a briga de comida que concretiza um acordo militar e, talvez, um dos discursos mais antológicos da história do cinema, na sequência final. O texto, escrito por Chaplin especialmente para este filme, é uma poderosa declaração sobre a guerra, mas, sobretudo, sobre os caminhos da paz.

Particularmente aqui, ao contrário da sutiliza que permeia toda a sua obra, ele optou por um texto mais direto, que, apesar de não fazer menção explicita ao Nazismo, é bem claro no intuito de conscientizar o público sobre sua mensagem de paz – sobre como o ser humano é quem busca os caminhos tortuosos, sobre como cada indivíduo pode contribuir para o bem coletivo. O texto foi escrito considerando o contexto da 2ª Guerra Mundial, mas serviria, sem dúvidas, para abordar os diversos confrontos militares em curso em 2017.

Ele também escreveu e compôs a música Smile, que se tornou extremamente reproduzida em todo o mundo, com diversas versões, inclusive em português, na voz de Gal Costa. A versão do filme foi cantada pelo próprio Chaplin e por Paulette Goddard, que interpreta a jovem Hanna.

Perseguição e Exílio

Chaplin nunca escondeu que simpatizava com os princípios comunistas. O comunismo é um tema presente, mesmo que não explicitamente, na maior parte de sua obra. E exatamente essa simpatia pela ideologia que custou sua presença nos Estados Unidos, após uma determinação do Serviço de Imigração para revogação de seu visto, o que impossibilitaria sua volta ao país (ele havia viajado para estreia londrina de Luzes da Ribalta, com os filhos e sua então esposa, Oona O’Neal, filha do dramaturgo Eugene O’Neal).

Eram os anos 1950, e o FBI fazia sua caçada aos comunistas, inscrevendo em uma Lista Negra todos aqueles com algum relacionamento com o Partido Comunista. Muitos foram presos ou exilados comercialmente, sem possibilidade de conseguirem um emprego, mesmo sem comprovação de filiação com o partido ou, até mesmo, com os ideais. Chaplin foi um desses e, em virtude dessa perseguição, optou por viver na Suíça.

O final de sua carreira for marcado, do exílio, com produções menores, porém, não menos marcantes. O Rei de Nova York (A King in New York, 1957), é o primeiro feito na Europa, e é uma crítica direta à Lista Negra. Chaplin também contou com a colaboração de Marlon Brando e Sophia Loren em A Condessa de Hong Kong (A Countess from Hong Kong, 1967), uma comédia romântica que marca a última aparição dele como ator, interpretando um mordomo.

Cinco anos depois, Chaplin recebe um Oscar Honorário, com a ovação mais longa da história da Academia, por doze minutos, das mãos do ator Jack Lemmon. Uma recompensa pelos anos de exílio forçado por uma perseguição injustificada.

Chaplin é, sem dúvidas, um daqueles gênios que nascem para fazer a diferença. Sua atuação em diversos campos da indústria cinematográfica, a diversidade de suas obras e seu talento para a sensibilidade tornam sua filmografia uma das mais ricas da história. É como disse o barbeiro no discurso final de O Grande Ditador:

“Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Saiba, Chaplin, que onde estiver, teremos sempre uma dívida de gratidão. Sua doçura nos tornou mais doces, sua visão nos tornou mais sábios. Muito obrigada!

Charles Chaplin faleceu em 25 de dezembro de 1977.

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