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O Chamado 3 – E que não chame pela quarta vez!

O Chamado 3 é uma comédia involuntária

Depois de fazer muito sucesso no Japão, o filme Ring: O Chamado, de 1998, teve uma versão americana. Lançada em 2002, essa versão era, assim como o original, um filme de terror que apostava mais na atmosfera melancólica e opressora do que nos sustos fáceis. Eficiente e assustadora, a obra foi tão bem sucedida que, três anos depois, saiu nos cinemas O Chamado 2. No entanto, ao contrário do que fizeram no primeiro, os realizadores resolveram abraçar algumas convenções do gênero, além de darem ao filme e à história maiores proporções. O resultado foi desastroso e a franquia foi colocada na gaveta, sem previsão de retorno. Porém, 12 anos depois, ela foi ressuscitada, e eis que temos, em 2017, o lançamento de O Chamado 3 (Rings). Entretanto, para a surpresa de todos, abandonaram o terror e resolveram transformar o filme em uma comédia!

(Se bem que terror tranqueira é o artigo mais desovado no mercado, não? O Quarto dos Esquecidos, Quando as Luzes se Apagam, o remake de Martyrs….)

A volta de Samara em O Chamado 3

A volta de Samara em O Chamado 3

Estou brincando, obviamente, mas a brincadeira não foge muito da realidade, dado que as reações mais comuns durante a projeção serão a gargalhada e o riso em vez do medo e a apreensão. No filme, a comédia é involuntária, já que a trama do filme tenta ser levada a sério o tempo todo. Nela, Julia (Matilda Lutz) e Holt (Alex Roe) são um casal apaixonado. Tendo de viver longe do namorado por causa da faculdade, Julia fica assustada quando descobre que Holt desapareceu.

Investigando sobre o seu paradeiro, ela descobre que ele está participando de um experimento baseado na infame fita que mata as pessoas que a veem. Depois de reencontrá-lo, ela decide participar também do experimento e opta por assistir à fita. No entanto, diferentemente de todos os outros, ela passa a ser atormentada por visões cujo verdadeiro significado é um mistério.

Já iniciando com uma cena repleta de diálogos expositivos e que desperdiça todo o seu potencial (por mais ridícula que seja, a ideia de mostrar um sujeito sendo morto por Samara em pleno voo comercial podia ser muito melhor explorada), O Chamado 3 já apresenta, logo no começo, alguns dos elementos que estarão presentes por toda a obra. Ao longo da narrativa, o espectador será bombardeado por falas estúpidas e repetidas que tem o único propósito de expor ao público o que está acontecendo (como se a história fosse complexa a ponto de precisar ressaltar verbalmente os caminhos que estão sendo trilhados) e ideias que são apresentadas para simplesmente serem abandonadas momentos depois (a figura do cientista louco que faz experimentos com a fita podia ser uma inteligente referência ao gênero do terror).

A volta de Samara em O Chamado 3

Também apresentando conceitos que são jogados durante a narrativa sem a mínima explicação (por exemplo, ao sabermos que o personagem cego interpretado por Vincent D’Onofrio não pode ser morto porque, segundo ele, Samara não consegue atacar as pessoas que não a enxergam, não nos é mostrado o porquê disso), o filme tenta introduzir na trama dispositivos tecnológicos para se aproximar dos dias atuais. Assim, em alguns casos, Samara não liga mais pelo telefone, mas sim pelo celular. Os seus vídeos não são mais vistos através de fitas de VHS, agora, eles são copiados e reproduzidos em computadores. Além disso, por um poder que só pode ser de telecinese, ela consegue mandar inúmeros e-mails com o conteúdo assassino. Nem preciso dizer que esses momentos em O Chamado 3 são indevidamente hilários (os minutos finais são, especialmente, vergonhosos).

Um filme de terror que não dá medo

No entanto, nada é pior do que a estrutura adotada pelo roteiro de David Loucka, Jacob Estes e Akiva Goldsman, a partir de uma história imaginada pelos dois primeiros. Construindo a trama sobre uma sequência de visões que atormentam a protagonista, os roteiristas compõem uma lógica que consiste em deixar claro para o espectador que todas as ameaças enfrentadas por Julia nada mais são do que ilusões criadas por Samara para mostrar quais são os próximos passos a serem tomados pela protagonista.

Com uma estrutura dessas, é impossível fazer com que o público sinta em algum momento que a vida dos personagens corre perigo (o desenvolvimento pífio de cada um deles aumenta ainda mais a nossa indiferença com os seus destinos), uma vez que sabemos que aquilo que está sendo mostrado é uma visão. Ademais, se Samara quer que a protagonista a ajude, por que ela continua fazendo de tudo para assustá-la? Essa é uma pergunta que o filme, obviamente, não responde.

Já os sustos, por sua vez, são mal construídos e ineficazes. Compondo planos que exploram pobre e previsivelmente a profundidade de campo, F. Javier Gutiérrez e Sharone Meir, o diretor de fotografia, mostram não ter o conhecimento técnico necessário nem timing para causar surpresa no público ou brincar com as expectativas. Todos os sustos são antecipados e, portanto, ineficientes.

A volta de Samara em O Chamado 3

Quem também mostra não ter esse conhecimento são Steve Mirkovich e Jeremiah O’Driscoll, os montadores. Nunca realizando o corte na hora certa (nos momentos mais “apreensivos”, as transições de cena são sempre atrasadas), eles também são prejudicados pelo design de som, que, para fazer o espectador pular na cadeira, ressalta os sons “assustadores” de guarda-chuva abrindo ou pessoas entrando num quarto.

Com atuações fraquíssimas, uma virada de roteiro absurda no final e mostrando Samara inúmeras vezes ao longo da narrativa (um conceito básico do gênero de terror é o de causar medo através da ausência ou dos mistérios ao redor da figura do vilão), O Chamado 3 falha em tudo. Não consegue assustar o espectador, não gera medo, tem um clima pouco claustrofóbico (nem mesmo a constante chuva contribui para a criação de atmosfera), ideias são apresentadas e depois abandonadas e a história flerta constantemente com o risível e o absurdo.

Com a presença massiva de momentos cômicos no filme, é melhor os roteiristas e diretor desta atrocidade migrarem para a comédia, já que, em matéria de terror, eles mostraram não ter o mínimo domínio sobre o gênero.

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