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Um Corpo que Cai – Cores vertiginosas a serviço do roteiro (PARTE 1)

Recentemente alçado ao posto de melhor filme de todos os tempos, segundo a prestigiada lista do British Film Institute, cuja pesquisa é refeita a cada dez anos, o filme Um Corpo que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock, tomou a coroa que pertenceu a Cidadão Kane, de Orson Welles por longos anos. Um fato como esse sempre reaviva discussões a respeito de qualquer obra, mesmo que já tenha sido dissecada por inúmeros estudiosos, em seus mais diversos aspectos, por décadas.

Um Corpo que Cai

Um Corpo que Cai

Aproveitando um oportuno relançamento da cópia restaurada de Um Corpo que Cai nos cinemas brasileiros, a abordagem aqui é sobre um ponto que muitas vezes passa despercebido pelo público em geral, embora seja assimilado inconscientemente, dentro das sensações que o diretor pretendia passar. Hitchcock foi um mestre em manipular a plateia, e como qualquer mestre manipulador, era ardilosamente atento aos mínimos detalhes da construção da narrativa e entendeu como poucos o poder da imagem. Como imagem envolve COR, o que importa aqui é o papel fundamental delas na construção de um todo.

A intenção não é trazer alguma reflexão super-hiper- original que ninguém teve antes, até porque, como já foi dito, Um Corpo que Cai tem sido analisado há mais de cinquenta anos e seria muita pretensão tentar trazer algo de novo agora. Também não há a preocupação em tentar cobrir TODOS os detalhes ou referências relativas às cores dentro filme, afinal, aqui não seria o melhor espaço para isso e seria uma pesquisa mil vezes maior. O que vale na verdade é uma boa conversa sobre um grande filme, e como o bom cinema conta com uma participação mais ativa do espectador, eventualmente você pode ter uma interpretação diferente da minha. Se você nunca pensou em desconstruir filmes e procurar alguns significados mais profundos, talvez aqui encontre um bom estímulo.

NÃO VIU O FILME? VEJA ANTES DE CONTINUAR!

VAI ASSIM MESMO? TUDO BEM…

É necessário um rápido resumo do filme antes de continuar, tanto para quem o assistiu faz tempo como para quem resolveu encarar o texto sem nunca tê-lo visto. Um Corpo que Cai é sobre John “Scottie” Ferguson (James Stewart), um detetive da polícia de San Francisco, aposentado em virtude de um caso que o deixou com acrofobia, medo de altura. Ele é contatado por Gavin Elster, um colega do tempo de faculdade que pede que ele siga sua esposa, Madeleine (Kim Novak), cujo comportamento estranho, diz ele, é fruto de um problema espiritual envolvendo a bisavó dela, Carlotta Valdes, cuja vida terminou em suicídio num rompante de loucura. Elster diz temer que sua esposa, possuída pelo tal espírito, termine da mesma forma. Racional, Scottie aceita a tarefa relutante, não acreditando na explicação do ex-colega. Acaba apaixonando-se por ela e testemunhando seu suicídio, ainda que não diretamente, impedido pelo seu medo de altura. Após um ano, Scottie encontra por acaso uma mulher, Judy, muito parecida com sua paixão.  Aproxima-se dela, que acaba por aceitar sua atenção. Nesta altura da trama, descobrimos que o suicídio de Madeleine, que na verdade era a própria Judy disfarçada, foi uma farsa armada por Elster para encobrir o assassinato de sua verdadeira esposa. Judy, apaixonada por Scottie, se submete à obsessão dele em vesti-la e transforma-la em sua “Madeleine”. Descoberta a mentira, Judy ironicamente tem o mesmo destino da personagem construída por ela.

Parece até bem simples resumido desta forma. Deixando de lado outras particularidades da trama, falar das cores também é valorizar um tema pouco lembrado na produção de um filme ambientado na mesma época em que foi produzido. Normalmente, a maioria das pessoas só comenta sobre detalhes visuais de filmes de fantasia, ficção científica ou de época, sem saber que tudo, independente do tipo de visual, é considerado, discutido e pensado, embora ainda exista quem diga que tudo isso está jogado ao acaso. Aqui, especificamente, a coisa gira em torno de objetos do cenário e dos figurinos. Vamos às imagens, organizadas na ordem do filme, e suas cores:

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O amarelo é uma cor associada à credibilidade e transparência. A blusa de Midge, velha amiga que certamente tem uma queda por Scottie, junto com detalhes de seu apartamento e o pequeno banco-escada que ele usa para testar o grau de seu pavor de altura, nos indica que essa seria uma alternativa, muito provavelmente sólida, de relacionamento amoroso para o protagonista. O amarelo reforça a sensação de segurança dos poucos degraus que Scottie sobe, porém, a fobia ainda se mostra muito forte. Midge é uma mulher real em um mundo idem, sem idealização.

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O escritório de Gavin Elster, com vermelho chamativo no carpete e mobília, já prenuncia a teia de paixão no qual Scottie vai enrolar-se.

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Na cena do restaurante, onde Scottie encontra Madeleine/Judy pela primeira vez, o vermelho que evoca paixão e sexualidade, é muito mais gritante do que na imagem anterior. Scottie é fisgado no primeiro vislumbre dela. Em uma sacada espertíssima, quando ela se levanta da mesa e caminha em direção à câmera, onde por acaso ele também se encontra, um batente é usado como limite de enquadramento, que faz a moça parecer dentro de uma pintura aos olhos do atormentado detetive. Quando ela chega ao limite de proximidade da câmera, é interessante notar que Elster é coberto por uma sombra. O preto é uma cor neutra, mas no vestido também serve para evocar, além de distinção, o mistério que a cerca. As faixas verdes conferem um tom abstrato impressionista. O verde ainda terá um peso bem maior mais à frente. O contraste do figurino com o vermelho das paredes é impressionante.

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No close lateral fechado, com ela cercada pelo vermelho, a ideia da sequencia se completa quanto aos sentimentos de Scottie.

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O carro usado por Madeleine/Judy não é verde por acaso. A cor evoca , além do abstracionismo, conexões emocionais.

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Na próxima cena em que ele a vê, a musa veste um tailleur cinza. É uma característica de Judy, enquanto finge ser Madeleine, vestir apenas cores neutras. Apesar disso, nessa cena temos o verde do onírico, o vermelho da paixão e mais uma vez um limite de enquadramento, pois ele a enxerga por uma porta entreaberta , proporcionando mais uma visão da paixão idealizada.

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Pela mesma linha do raciocínio anterior, novamente ela aparece enquadrada como uma pintura pelo olhar dele, através do reflexo do espelho.

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De novo envolvida pelo peso do vermelho, aqui com a ponte Golden Gate, enquanto é observada.

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Após uma tentativa de suicídio encenada, é acolhida na casa de Scottie. Ele entrega a ela um roupão vermelho, envolvendo-a mais ainda em sua fantasia romântica, enquanto ele, agora tendo contato direto com ela pela primeira vez, usa o verde da conexão emocional.

Leia a SEGUNDA PARTE deste artigo sobre Um Corpo que Cai!

 

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