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Atenção, contém cenas de sexo – A sexualidade representada no cinema!

Sexo e cinema, uma relação que sempre provocou incômodo – mas também encantamento

Quando eu tinha 14 anos, ao ingressar no Ensino Médio, tive o melhor professor de filosofia que qualquer um pode ter. Professor Edvar Goulart, obrigada! Ele, sabendo das dificuldades para abordar assuntos tão específicos com uma molecada que mal tinha saído da infância, decidiu se apoiar em uma ferramenta mais do que eficaz: o cinema.

Nos primeiros meses de aula, ao abordar o Mito da Caverna platônico, assistimos Matrix. As inúmeras reflexões possíveis, e o filme cheio de efeitos especiais, agradaram tanto que ele foi mais corajoso da segunda vez: o estudo da humanidade em Blade Runner, o Caçador de Androides. Essas aulas não foram tão leves e fáceis como as anteriores, mas prepararam o terreno para o que viria a ser a pièce de résistance. Laranja Mecânica, adaptação de Stanley Kubrick para o livro de Anthony Burgess, chocou muitos colegas meus.

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Laranja Mecânica!

Alguns não entendiam o que estava acontecendo, outros simplesmente acharam o filme um lixo. Quanto a mim, eu estava tão em choque que fui correndo para o banheiro, e passei bem uns dez minutos tentando entender o que estava sentindo. Não sabia se era nojo, medo – sim, medo – ou simplesmente aquele tipo de pavor do desconhecido, que a gente sente quando está jogando Resident Evil e não sabe o que tem do outro lado da porta. Achei muita informação para a minha mente de 14 anos.

Era para analisarmos os aspectos do condicionamento clássico estudado por Ivan Pavlov e que estavam ali representados no Tratamento Ludovico, mas eu só conseguia me fixar no sexo. Tinha sexo em todo lugar! Sexo recreativo (com as moças da loja de discos), sexo punitivo (o chocante estupro ao som da inocente Singin’ in the Rain), sexo expositivo (um assassinato com um objeto fálico em um quarto com desenhos de mulheres nuas na parede).

Tinham corpos expostos – o próprio protagonista, Alex, interpretado brilhantemente por Malcolm McDowell, ao chegar à prisão, tem de ficar nu para ser lavado por jatos de água fria, além de ter, como principal figurino, uma roupa de montaria com uma proteção para a área íntima que mais salientava a sexualidade do que a escondia. O final, com uma cena de orgia, era tão condizente com a obra quanto o resto.

Ali, naquele momento das incríveis quatro aulas nas quais estudamos essa obra, eu simplesmente já não sentia nada além de uma curiosidade imensa sobre o que o autor queria falar. E, por autor, falo aqui de Kubrick. Do porquê das cores, trilha sonora e, principalmente, do sexo. Eu entendia que quase tudo alí estava no material original, mas foram escolhas incríveis de estilo (que depois eu aprendi a reconhecer em outras obras dele) que me chamaram atenção.

Esse filme continua sendo uma das experiências mais chocantes em termos visuais já produzidas no cinema, talvez, guardadas as devidas proporções de gênero, comparáveis somente a Holocausto Canibal e Saló, ou os 120 Dias de Sodoma. Em Lolita, há sempre uma insinuação que busca consternar o espectador assim como o protagonista Humbert Humbert, que ficava cada vez mais obcecado pela jovem Dolores Haze. Você se sente hipnotizado e seduzido por ela quanto ele.

Sensações

O que é sentido não é visto, mas as referências estão lá. A sexualidade está lá. Ela era jovem, mas sua sexualidade, extremamente madura. Em De Olhos Bem Fechados, que me reuni para ver com as amigas de escola porque tinha gente pelada (ah, meus 15 anos…), haviam muitos assuntos relacionados à sexualidade – fidelidade, fantasias sexuais, voyeurismo, etc.

Foi, porém, a imagem de mulheres nuas, cujos rostos estavam cobertos por máscaras, que impressionaram a maior parte do público. Eu, inclusive. A escolha estética de Kubrick reforçava a temática (o prazer anônimo, muito frequente nos diálogos, colocado em uma cena) e a tornava mais palatável.

Voltando aos meus 14 anos, me lembro da constrangedora vez em que aluguei Auto Focus, autobiografia do ator Bob Crane dirigida por Paul Schrader (roteirista de Taxi Driver). Era um filme sobre um viciado em sexo e um amigo que gostava de registrar as orgias. E eu chamei meu pai para ver porque, afinal, tanto ele quanto eu éramos fãs de Guerra, Sombra e Água Fresca, série protagonizada por Crane.

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Auto Focus!

Eu simplesmente não sabia onde enfiar a minha cara. Imaginem a Fernanda de 14 anos assistindo um filme com cenas de sexo por duas horas, na presença do próprio pai idoso! Apesar do desconforto dessa lembrança, assisti ao filme uma segunda vez, sozinha, alguns anos depois. Queria tentar entender as escolhas de Crane. Ele era bem casado, mas gostava de sexo com mulheres diferentes (“Eu gosto de seios. Gosto deles grandes, pequenos, redondos, de qualquer jeito”, dizia o protagonista em uma das primeiras cenas).

Entenda, o gosto sexual é individual, e que ninguém tem direito de opinar ou criticar, e o filme é muito eficaz em não transformar Crane em um vilão, se resumindo a mostrar os impactos de sua opção sexual no dia-a-dia. As escolhas de Crane, principalmente a de registrar as orgias, não é nada diferente do mandar nudes desta última década. Seria uma ótima forma de estudar, em aulas de mídia, as mudanças na diferença do registro da pornografia doméstica dos anos 60 para hoje em dia.

Eu também passei a assistir, conforme os anos passavam, filmes mais difíceis. Irreversível, do argentino Gaspar Noé, é um baita soco no estômago, e aborda a sexualidade de forma crua e fria. Possui uma cena de estupro longuíssima, sofrida de ver. Vi uma vez para não ver mais. Por coincidência, o mesmo Noé filmou Amor, com cenas de sexo explícito e em 3D. Mais água com açúcar, e com uma mensagem menos impactante, serviu basicamente para mostrar as possibilidades do 3D em filmes deste gênero.

Outro polêmico é Lars Von Trier. Anticristo ainda é difícil de assistir. É um filme chocante – duvido que qualquer filme com mutilação genital possa ser considerado razoavelmente leve-  e com mensagens que vão além do sexo, com a coisa descambando para religião e bruxaria. Ninfomaníaca, tem força na atuação da sempre ótima Charlotte Gainsbourg. Simplesmente segue a mesma linha de Auto Focus, com a diferença na forma como o sexo ocorre.

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Ninfomaníaca!

No primeiro, Crane, homem bonito e famoso, interpretado por Greg Kinnear, tem mulheres lindas ao seu redor, que o procuram. Por outro lado, Joe, personagem de Gainsbourg (e Stacy Martin, na juventude), basicamente busca e seduz as pessoas com quem quer transar. O sexo nem sempre é bom, mas precisa acontecer. É mais uma necessidade fisiológica, como comer ou tomar água. Demonstra bem a ninfomania. E só.

O cinema também adora retratar a sexualidade como ferramenta de escape da rotina. O mestre, nesse caso, é o diretor Adrian Lyne. 9 e Meia Semanas de Amor, Atração Fatal, Proposta Indecente, e Infidelidade, são todos filmes dirigidos por ele, em que o sexo é uma ferramenta de escape (desejos sexuais reprimidos, uma escapadinha que vai mal – coitado do coelho – problemas financeiros e um relacionamento morno).

As cenas de sexo são bem montadas, para excitar o espectador e, em seguida, chocá-lo de alguma forma com as consequências inesperadas daquelas relações sexuais. Obviamente, o elenco é bonito e o sexo, selvagem e pouco natural, mas todos foram sucesso de bilheteria, a prova de que a sexualidade, independentemente da forma como é explorada, garante audiência.

Sexo enquanto ferramenta

A diferença entre estes filmes será sempre como a sociedade se comporta ao assisti-los. Até porque, o sexo foi e continua sendo amplamente registrado culturalmente. Laranja Mecânica, em exibições em vários países do mundo na época de seu lançamento, teve a colocação de tarjas nos órgãos sexuais dos personagens nus, de forma a cobri-los. Kubrick proibiu a exibição do filme por anos na Inglaterra por conta dessa polêmica.

Acusados, um dos primeiros filmes a abordar de forma séria os estupros coletivos (realidade tão frequente em todo o mundo, assim como no Brasil), foi criticado, elogiado, amado e odiado, e rendeu o primeiro Oscar para Jodie Foster. Saló ou os 120 de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, é chocante (mesmo) por combinar sadismo, escatologia e tortura em um contexto político-religioso do final da 2ª Guerra Mundial, em uma fictícia ilha italiana.

O Segredo de Brokeback Mountain, bela história sobre o amor dirigida por Ang Lee, polemizou por conter cenas de sexo homossexual entre os protagonistas interpretados por Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Nada novo, considerando que o próprio Lee já havia dirigido O Banquete de Casamento, com um casal gay como protagonista.

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Brokeback Mountain!

Em uma época em que temos vídeos caseiros de sexo de Kim Kardashian e Paris Hilton circulando na Internet, recebemos o “gemidão” e registros audiovisuais de estupros coletivos em comunidades carentes no Whatsapp, assistimos séries de TV com alta carga sexual, e uma audiência constante ou crescente e sólida base de fãs (como, por exemplo, Game of Thrones, Spartacus, Shameless ou Californication) e existem premiações 100% voltadas para o cinema erótico, não deveria ser surpresa uma exposição abordando a sexualidade, como a Queermuseu, que foi cancelada pelo Santander Cultural de Porto Alegre por, supostamente, incentivar e glorificar, por exemplo, a prática de zoofilia e pedofilia.

Pensando em cinema e TV, teríamos que tirar pelo menos dois episódios de Black Mirror do ar e filmes com o já citado Acusados não poderiam ser transmitidos em canais a cabo. Temos que esclarecer: o que é produzido culturalmente, pode ter o intuito de chocar mas, sobretudo, tem o intuito de fazer refletir. Eu entendo porque as pessoas pensam na sexualidade como algo polêmico. O sexo é visceral, impactante, gostoso. Mas, às vezes, também é sujo, violento, ruim.  Mas, como qualquer outro assunto, temos que falar sobre o sexo. Seja para excitar, polemizar ou discutir.

 

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