Home > Cinema > Artigos > ACESSÓRIOS DE SUPER-HERÓI: Vigilantes Mascarados (Parte 1)

ACESSÓRIOS DE SUPER-HERÓI: Vigilantes Mascarados (Parte 1)

No final de 2013, Alan Moore deu uma entrevista – alardeada como “a última” – ao escritor Lance Parkin, que também é seu biógrafo. Parkin é autor de Magic Words: The Extraordinary Life of Alan Moore, da Aurum Press. Não é nada estranho que o roteirista tenha desqualificado os super-heróis e as grandes editoras de alguma forma (novamente), mas foi criada uma nova controvérsia que, até então, parecia pesada demais até para os padrões do roteirista de Northampton.

Lance Parkin escreveu um artigo, a partir da declaração polêmica, para o site Sequart Organization, analisando alguns fundamentos desta visão. A primeira parte “Vigilantes Mascarados” tem foco nesta discussão e será publicada aqui dividida em duas postagens, que o FORMIGA ELÉTRICA traduziu na íntegra!

Confira:


Talvez a crítica mais contundente que Alan Moore fez sobre os super-heróis tenha sido ignorada, no meio de toda a controvérsia sobre a “Última Entrevista”:

“A origem das capas e máscaras como acessórios onipresentes do super-herói pode ser deduzida olhando mais de perto ‘O Nascimento De Uma Nação’ de D.W. Griffith”

Muitos fãs do Batman vão achar o poster original de O Nascimento De Uma Nação estranhamente familiar…:

…e como ele se parece com uma página splash de O Cavaleiro das Trevas:

Frank Miller citou conscientemente o pôster do filme? Não sei, e também não sei se podemos concluir com certeza o que ele queria dizer, caso o tenha feito. A trilogia dos filmes do Batman de Christopher Nolan certamente cita Frank Miller, e – importante – Nolan disse à revista Empire, enquanto promovia O Cavaleiro das Trevas Ressurge:

“É tudo sobre épicos históricos na concepção. É um filme de guerra. É um épico revolucionário. Olhando para trás para os épicos em grande escala do passado -mesmo -e para mim vai até os filmes mudos. Estive assistindo um monte de filmes mudos em blu-ray com meus filhos. “

Nolan não mencionou diretamente O Nascimento De Uma Nação (1915), mas ele pode ser qualificado como “épico histórico”. Com três horas de duração, é conscientemente o primeiro blockbuster. Tecnicamente, é uma surpreendente e inovadora peça de cinema que custou $ 112.000, quase dez vezes mais o que os filmes tipicamente custavam à época. É visualmente estonteante mesmo hoje, com sequencias de batalha épica apresentando grandes exércitos e uso extenso de edição rápida e closes. Enquanto é notadamente difícil comparar a arrecadação dos filmes através das décadas, não há dúvida que O Nascimento De Uma Nação permaneceu como maior bilheteria nos EUA por mais de vinte anos, até Branca de Neve e os Sete Anões em 1937. Arrecadou $ 10 milhões em 1915, dez vezes mais do que qualquer filme feito antes. Teve grandes relançamentos em 1924, 1931 e 1938. Em 1950, ele já havia arrecadado cerca de $50 milhões. Colocando em perspectiva, o quarto maior filme de 1915, Enganar e Perdoar, fez $137.364. O Nascimento De Uma Nação foi, em termos de proporção entre população e público, pelo menos tão grande quanto Star Wars.

Como o crítico Joel Bocko observou em 2008, um resumo de O Nascimento… poderia ser facilmente aplicado a O Cavaleiro das Trevas (o filme):

“Nosso herói, um vigilante mascarado, elabora um disfarce que irá incutir um sentimento de medo nos inimigos percebidos em sua comunidade. Em oposição a um vilão extravagante e impelido pela morte de sua amada, o herói ataca em nome da ordem. Mas a cruzada do herói pela justiça extralegal é instigada por forças externas, que introduzem o elemento do caos e anarquia na comunidade, e o herói precisa quebrar a lei, no objetivo de apoia-la.”

O Cavaleiro das Trevas Ressurge

O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Há uma semelhança ainda maior com último filme da trilogia de Nolan, O Cavaleiro das Trevas Ressurge. A segunda metade de O Nascimento…  mostra uma máfia invadindo uma cidade fictícia, mas bastante identificável, onde uma vez no poder, eles ocupam a prefeitura e instauram uma legislação punitiva enquanto vivem na libertinagem. O sistema de justiça é agora controlado por homens maus. Quando o herói, filho de um homem rico assassinado, vê que essas pessoas são covardes e supersticiosas, veste um capuz e uma capa esvoaçante, se tornando um vigilante noturno para acabar com a corrupção. Ele inspira a criação de um exército inteiro de cidadãos decentes, e retoma a cidade, liberta a população e resgata a linda mulher que havia caído nas garras do arqui-vilão.

A mosca na sopa aqui é… os heróis em O Nascimento De Uma Nação são a Ku Klux Klan, e os malvados são escravos libertos afro-americanos (A maioria interpretada por atores brancos maquiados) decididos a confiscar a propriedade dos brancos e legalizar o casamento inter-racial para legitimar seus estupros contra mulheres brancas. Uma legenda informa que essa é uma “cidade tomada por negros enlouquecidos”, outra diz “ A Ku Klux Klan, a organização que salvou o Sul da anarquia do jugo negro”. A legenda no fim do filme, logo removida depois de protestos de grupos de direitos civis, dizia que a paz só poderia ser conseguida se ex-escravos e suas crianças fossem deportados para a África.

Há pouca ou nenhuma base histórica para os eventos da segunda metade do filme (a primeira trata da Guerra Civil Americana). A Klan original nunca reuniu um exército de centenas de milhares, nunca foi mais do que um conjunto de táticas comuns que brancos usavam para atacar escravos libertos e aqueles que os auxiliavam. Normalmente, um punhado de mascarados poderia invadir a casa ou estabelecimento de alguém. Começou quando seis ex-oficiais jovens perceberam que suas brincadeiras, envolvendo disfarces e cavalgando pela cidade à noite, estavam assustando ex-escravos (Fãs de Batman podem inclusive ver ecos de “um bando covarde e supersticioso”  no fato de que –na realidade e na ficção – a vestimenta da KKK era daquele jeito porque eles acreditavam que os negros tinham medo, principalmente, de fantasmas). O movimento expandiu-se pelo Sul começando no Tennesee em 1865, e matou cerca de três mil pessoas, mas não durou muito. A história de Sherlock Holmes “As Cinco Sementes de Laranja” (The Five Orange Pips -1891) trata a KKK como uma obscura sociedade secreta e Holmes – que precisa pesquisar em um livro – percebe que em 1869 o movimento subitamente entra em colapso. Uma série de leis locais e federais levou a uma repressão que teve centenas de prisões, e a perda de seu apoio “respeitável”.

O Nascimento…  teve um apelo vasto e deixou um legado como a própria Klan, até mesmo inspirando a criação de uma nova KKK. A pessoa por trás disso foi William J. Simmons, que foi fisgado pela visão idealizada da força de algo que ele chamou de “Americanismo Compreensivo”. Sua campanha  inicial de recrutamento começou com um anúncio próximo à lista de cinemas que exibiam o filme, em um jornal de Atlanta. Era um grupo com raízes no Sul, cujos membros eram exclusivamente brancos, protestantes e homens. Era sem dúvida racista pelos padrões da época, cerca de cem anos atrás. Não era, apesar de tudo, uma gangue secreta de vigilantes, e sim uma organização fraternal convencional, embora com uma agenda anti-imigração. Muito dos seus esforços (públicos, pelo menos) foram gastos em atividades anti-católicas e a favor da Lei Seca. Dez anos depois, chegou a ter cinco milhões de membros – mais do que um em cada dez americanos elegíveis. Essa KKK fracassou no começo da década de 1930, perdendo membros após uma série de escândalos envolvendo a liderança. A Ku Klux Klan que opera hoje é uma terceira organização, com vagas memórias do grupo de Simmons , que emergiu para se opor à legislação pelos direitos civis na década de 1960.

Muito da plateia de O Nascimento… não hesitaria em chamar a KKK de “heróis mascarados”. É forçar a barra dizer que isso faz do filme um ancestral espiritual direto de O Espetacular Homem-Aranha 2, mas ele teve um efeito no cinema americano. Como Hollywood percebeu a sabedoria em abraçar a mensagem espiritual de Joseph Campbell, quando Star Wars arrecadou um bilhão, o cinema americano tirou lições de O Nascimento…  Enquanto o cinemamudo francês fez filmes épicos sobre a Primeira Guerra, como J’Accuse de Abel Gance (1919), filmado no campo de batalha real e terminando com uma cena macabra dos mortos levantando-se  em massa para julgar os que sobreviveram, os épicos de guerra americanos eram mais histórias simples de heroísmo e de alianças contra um inimigo comum, claramente perverso. Um dos poucos filmes que chegou perto do sucesso de bilheteria de O Nascimento… foi Os Quatro cavaleiros do Apocalipse de 1921, um filme sobre a Primeira Guerra que agradou multidões e fez de Rodolfo Valentino uma estrela, com uma subtrama envolvendo um número de Tango que não estava no romance original.

O super-herói de quadrinhos original foi bastante influenciado pelos filmes – não é uma coincidência o Superman morar em Metropolis. A influência do cinema mudo é particularmente óbvia em Batman, e estudiosos tem frequentemente observado que o Coringa deve seu visual a Conrad Veidt, protagonista de O Homem Que Ri. Toda versão de Batman para as telas, incluindo Adam West, foi influenciada pelo cinema mudo, com Tim Burton tendo isso muito mais óbvio do que Nolan (e reconhecido abertamente).

Influências do cinema mudo! O filme O HOMEM QUE RI foi a inspiração para o Coringa!

Influências do cinema mudo! O filme O HOMEM QUE RI foi a inspiração para o Coringa!

Então, Alan Moore pode ter encontrado algo: há algo da Klan nas origens do Batman. Está presente porque a KKK oferece um dos poucos exemplos, no mundo real , de vigilantes usando máscaras para assustar pessoas; está presente porque O Nascimento… foi uma peça seminal do cinema blockbuster.

Mas descobrir que o bisavô de uma pessoa fez parte da KKK não significa que essa pessoa seja racista. Não quero sugerir que O Cavaleiro das Trevas, quadrinhos ou filmes, e seus criadores estão advogando a favor da deportação em massa dos afro-americanos ou lutando contra o casamento inter-racial. A missão do Batman nunca foi motivada por raça ou posições anti-imigração (seu melhor amigo é, cunhando uma expressão, um imigrante de primeira geração). Eu não acho que seja produtivo tentar entrar na cabeça dos escritores de Batman – existem muitos deles, e eu suspeito que estão em cada canto do espectro político – mas eu acho que o que podemos dizer  é que existem fatores comuns por todo o longo caminho desta série ficcional que, no caso do Batman, atualmente convergem para uma direção. E isso faz as histórias apoiarem posições políticas que são tipicamente identificadas com grupos e facções de direita, muitas vezes extremistas. Vivemos em um tempo onde estamos, quase sempre por razões sensatas, suspeitando de sistemas que prometem um código moral milagroso. Muitos de nós tomam cuidado com termos como Bem e Mal, então devemos ter cautela com mundos ficcionais que dividem personagens perfeitamente em super-heróis e super-vilões.

SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE AQUI!

A série ACESSÓRIOS DE SUPER-HERÓI continua em:

VERDADE, JUSTIÇA, TODA ESSA COISA: parte 1parte 2

O BAT-DINHEIRO – Completo

Já leu essas?
Formiga na Tela falando de algumas duplas criativas das HQs.
Duplas criativas das HQs no Formiga na Tela!
Flash: Renascimento - Vol. 1
Flash: Renascimento – Satisfaz fazendo um bom básico!
Snoopy, autor de Batman – Uma história curta, por Len Wein!
Tom Strong Panini Vol. 6
Tom Strong: Nos Confins do Mundo – Final digno!
    • Daniel Fontana

      O ACESSÓRIOS DE SUPER-HERÓI é uma série de 3 artigos, mas somente o primeiro falou dessa polêmica. Dependendo dos acessos, quem sabe nós não traduzimos as continuações…(hehe)

    • Daniel Fontana

      Opa, muito obrigado, Carlão! Nós é que agradecemos a audiência e continue conosco!