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Representatividade Importa – Exemplos do Presente e Desafios do Futuro!

Como a representatividade estimula as possibilidades da arte

Em uma época em que se fala muito em representatividade, ter uma protagonista de HQ adolescente e mulçumana é uma importante quebra de tabus. Em Ms. Marvel, escrito por G. Willow Winson e ilustrado por Adrian Alphona, a jovem Kamala Khan é adorável, com todas as incertezas da juventude, e os dilemas de viver os costumes de sua religião ou dos demais colegas.

Esse estilo de publicação é um importante passo para as mulheres – principalmente as mais jovens – cuja formação cultural em muito será influenciada pelo o que elas leem. Eu mesma, já adulta, me inspirei pela jovialidade desta que é uma personagem que atende a todos os públicos, mas é focada em leitores (homens e mulheres) mais jovens.

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Martha Washington em ação!

Para mim, como adolescente negra, me vi representada pela primeira vez ao ler, aos 12 anos, o primeiro volume de Give Me Liberty, série distópica criada por Frank Miller e ilustrada por Dave Gibbons.

Além da personagem intrinsecamente forte (Martha Washington, a protagonista, torna-se guerrilheira antes mesmo dos 18, além de ser uma mulher extremamente inteligente, com QI acima da média e aptidões para informática), o fato de ela ser uma adolescente negra cujo pai for morto em uma manifestação contra a segregação, é um reflexo, mesmo que fantasiado, do que poderia ter acontecido em inúmeras manifestações ocorridas nos Estados Unidos nos últimos anos.

A história evoluiu, e ganhou mais quatro capítulos, até a morte oficial da protagonista, em Martha Washington Morre, de 2007, em uma história que deixa, em seu arco concluído, uma importante mensagem sobre lutar pelo que se acredita. Não é necessária uma continuação, mas a existência de uma seria muito inspiradora, não só, mas principalmente, para as jovens mulheres negras.

Até assistir ao primeiro filme da franquia Harry Potter, Harry Potter e a Pedra Filosofal, de 2001, eu já havia lido os dois primeiros livros. Me imaginei como Hermione Granger, afinal, ela era a amiga inteligente e perspicaz do trio de protagonistas.

Não consigo criticar a atuação de Emma Watson, que se tornou a cara da personagem nos oito filmes da franquia, jogos de videogame, livros ilustrados e atrações de Harry Potter em todo o mundo. Ela foi uma escolha perfeita, funcionou muito bem. Mas tive que buscar outras referências para me identificar no universo cinematográfico. Automaticamente, passei a amar Quadribol, afinal, Angelina Johnson era uma jogadora talentosa. E negra.

Amadurecimento da (e na) representatividade

Ao entrar na fase adulta, a busca por referências também amadureceu. E então eu descobri Xica da Silva. Que mulher! Tanto a Francisca real, quanto as retratadas no filme de 1976 (dirigido por Cacá Diegues e com Zezé Motta como protagonista), e na novela exibida de 1996 a 1997 (escrita por Walcyr Carrasco, sob o pseudônimo Adamo Angel, e com Taís Araújo no papel principal), eram personagens incríveis da história (do Brasil, do cinema e da teledramaturgia).

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Taís Araújo encarna essa importante personagem histórica!

Xica era a mulher negra alforriada de um homem branco e tinha escravos, status ostentado pela elite branca da época. Foi acolhida como benemérita de instituições vinculadas à Igreja e cuja maioria das mulheres vinculadas era da alta sociedade, também majoritariamente branca. Era uma mulher forte, consciente de seu corpo, de sua voz e de sua capacidade.

Na interpretação de Taís Araújo, ganhamos a primeira protagonista negra de uma novela no Brasil. A mesma Taís, anos depois, foi também protagonista de Da Cor do Pecado, novela de João Emmanuel Carneiro, também fazendo par com um homem branco, interpretado por Reynaldo Gianecchini. Ela também protagonizou a primeira Helena negra em uma novela do autor Manuel Carlos.

Apesar da audiência ruim, o papel em Viver a Vida foi importante por colocar uma mulher negra como protagonista no horário nobre da televisão brasileira. Uma personagem estudada e bem-sucedida, e que chegou a esse ponto sem depender de um homem. Um grande passo em um país em que mulheres negras com nível superior ainda ganham cerca de 60% menos que homens com a mesma graduação.

Se falarmos em cinema, então, a disparidade de papéis para mulheres negras é ainda maior. A primeira vez que lembro de ter percebido que não havia um personagem negro na história foi ainda criança, assistindo Cinderella. E a diferença se refletiu em outros desenhos (a Disney somente viria a ter uma protagonista negra em 2009, com a Princesa Tiana de A Princesa e o Sapo).  Também fiquei, por muitos anos, obcecada por Pam Grier, após assistir Jackie Brown. A primeira cena do filme ainda é uma das minhas favoritas na obra de Quentin Tarantino, e demonstra a força na expressão da veterana atriz.

Mulheres negras no comando

Também temos mulheres poderosas na direção. Ava DuVernay, diretora de Selma e do ainda inédito Uma Dobra no Tempo, da Disney, foi a primeira mulher negra a ser indicada ao Oscar na categoria Melhor Documentário em Longa Metragem (por A 13ª Emenda, da Netflix) e teve, em Selma, a primeira indicação a melhor filme de uma produção dirigida por uma mulher negra.

Hoje temos um grande movimento de empoderamento da mulher na indústria pop, inclusive da mulher negra. Um ótimo exemplo, Shonda Rhimes, criadora de Grey’s Anatomy, How To Get Away With Muder e Scandal, colocou mulheres negras e empoderadas em todas as suas séries, sendo que em HTGAWM e Scandal, elas são as protagonistas.

Todas as séries têm audiência constante e são sucesso de crítica. Black-ish, produzida e protagonizada por Anthony Anderson, é uma série focada em uma família afrodescendente, com a esposa (Tracee Ellis Ross) e a filha (Yara Shahidi) protagonizando excelentes sequências, em nada deixando a desejar para outras séries de temática semelhante e elenco predominantemente caucasiano.

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O elenco de Black-ish!

A representatividade importa. E muito. E este é um assunto sobre o qual devemos falar. Sou negra, mulher, independente financeiramente, com ensino superior completo. E vejo poucos personagens com um perfil semelhante ao meu (as mais conhecidas estão aqui mencionadas). Mas uma menina jovem não se vê devidamente representada. Uma senhora idosa não se vê representada.

Enquanto os papéis sejam especificamente escritos para mulheres brancas, ao invés de escritos para mulheres, apenas, a representatividade deve ser abordada. Espero que eu tenha a oportunidade de revisar este artigo no futuro, com mais mulheres negras em mais papéis incríveis. Porque somos TODAS incríveis, brancas, negras, asiáticas, de todas as raças. O que falta, para as negras, como dito por Viola Davis em seu discurso de vitória no Emmy de 2015, são oportunidades.

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