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Apesar Da Noite – Uma tentativa fracassada de emular David Lynch!

Apesar Da Noite tenta ser um filme lynchiano

Todos os diretores, ao realizarem um filme, têm em mente uma série de referências cinematográficas, além de trazerem consigo a influência de outros cineastas. É natural que as coisas sejam assim, afinal de contas, os artistas precisam partir de algum ponto na hora de criar uma obra. No entanto, a linha que separa essa realidade da produção de uma cópia é tênue. É preciso ficar atento para que um filme nunca ultrapasse os limites e pareça ser a emulação do universo criativo de um outro diretor, caso contrário, tem-se um resultado parecido com o de Apesar Da Noite (Malgré La Nuit), uma obra que nega o seu caráter autoral ao tentar ser uma espécie de projeto perdido do cineasta David Lynch.

O francês Apesar da Noite copia David Lynch na cara de pau!

Apesar da Noite

Escrito por Philippe Grandrieux (que também é o diretor), Bertrand Schefer, Rebecca Zlotowski e John-Henry Butterworth, o roteiro do filme tem início no momento em que Lenz (Kristian Marr) volta a Paris para tentar reencontrar uma figura do seu passado. Porém, no meio de sua busca, acaba se envolvendo com Heléne (Ariane Labed, vista recentemente em Assassin’s Creed), uma mulher que, além de estar num relacionamento com outro sujeito, leva uma segunda vida que consiste de encontros sexuais e sadomasoquistas com homens desconhecidos no calar da noite. Obcecado com a nova paixão, ele, a fim de salvá-la desse meio, acabará por entrar cada vez mais no mundo doentio da pornografia underground.

Quinto longa de ficção do diretor, Apesar Da Noite não parece ser o filme de um cineasta experiente, mas sim o primeiro projeto de um jovem estudante de Cinema ansioso por recriar o estilo dos seus mestres. É sabido que Philippe Grandrieux é um artista de vanguarda, com um vasto repertório técnico, que vai desde experimentações para televisão até vídeo arte, passando pela produção de filmes tese e documentários. Porém, apesar de permearem toda a narrativa do seu atual longa, as ousadias narrativas do cineasta não dão a impressão de serem elementos definidores do seu estilo. Pelo contrário, ao longo da projeção, tive a importuna sensação de estar assistindo a uma obra de outro artista, mais precisamente, do diretor David Lynch.

Para esclarecer esse ponto, darei alguns exemplos. Analisando o roteiro em primeiro lugar, não há como não enxergar na trama principal do filme uma semelhança inquietante com a de Veludo Azul (que foi tema de um Formiga Na Tela). Assim como Apesar Da Noite, o longa de 1986 também narra a história de um personagem masculino cuja obsessão por uma mulher sexualmente submissa termina por fazer com que ele adentre num mundo de psicopatia e perversidade. Até mesmo a resolução de alguns segredos e o caráter um tanto onírico dos instantes finais são perturbadoramente parecidos entre os dois filmes.

O francês Apesar da Noite copia David Lynch na cara de pau!

Já do ponto de vista técnico, as similaridades são ainda mais alarmantes. Aos que já tiveram o prazer de assistir a Império Dos Sonhos, peço que comparem os experimentos que Lynch fez com a câmera digital (que inclui efeitos visuais e diferentes tipos de fotografia) com os que Grandrieux realiza em seu longa, com especial atenção para as cenas noturnas que se passam numa floresta. Nesses momentos em particular, o diretor francês opta por não iluminar a totalidade do ambiente, jogando apenas uma intensa luz de refletor no rosto dos atores. Os instantes em que ocorre o emprego dessa técnica são idênticos a de outros presentes no longa do cineasta norte americano (durante a narrativa, a face de Laura Dern, indevidamente, teimava em reaparecer para mim).

O mesmo problema acontecia nas cenas que mostravam Lena, a personagem interpretada por Roxane Mesquida, cantando. Realizados por Grandrieux com a intenção de serem momentos em que um tipo de beleza rara invade por alguns minutos a sordidez do universo retratado, esses instantes, por mais comovente que sejam (e, de fato, o são), também são idênticos à aparição de Julee Cruise na série de televisão Twin Peaks (que também foi tema em nosso videocast). Aliás, o próprio conteúdo das canções (versos que retratam as emoções e o desejo de fuga dos personagens principais) e a forma como as duas cantoras são focadas e iluminadas (como se fossem anjos caídos) geram a constante impressão de que o filme não consegue caminhar com as próprias pernas, precisando “emprestar” concepções visuais e sonoras de obras alheias.

Um filme que não acredita no próprio potencial

E é uma pena que seja assim, pois o filme tinha potencial para se transformar numa obra mais autoral e bem-sucedida. Se passando num universo melancólico e sem esperança (a tristeza de algumas cenas é inquietante), a história de amantes tentando construir o seu amor num mundo moralmente destruído possui um valor universal e atemporal que, caso seja bem trabalhada, pode se transformar num conto poderoso. Até certo ponto, pode-se dizer que ela funciona em Apesar Da Noite. Graças ao razoável trabalho na construção dos personagens (é interessante ver como o roteiro explica a obsessão de Hélène por sexo como uma tentativa de substituir a dor e auto punição pelo prazer instantâneo), o relacionamento entre os dois sempre soa real e verossímil.

O francês Apesar da Noite copia David Lynch na cara de pau!

Além disso, Philippe Grandrieux mostra saber como construir uma cena cinematográfica e tematicamente impactante. Vejam, por exemplo, como no momento em que acompanhamos Hélène dando banho em um idoso, a câmera do diretor, ao focar na feiura de um corpo envelhecido, não só nos hipnotiza (assim como a beleza, o horrendo chama nossa atenção) como nos mostra que a personagem não se choca com o horror moral ao qual está acostumada, porque a feiura é um elemento constantemente presente no seu cotidiano. Já na cena em que Lenz está à procura do próprio passado enquanto conversa com uma prostituta, a fumaça que invade o ambiente é essencial para reforçar a neblina que costumeiramente envolve a lembrança de tempos pretéritos.

Porém, em vez de salvarem o filme do fracasso, esses momentos autorais e de impacto cinematográfico servem somente para nos fazer lamentar o fato de que o diretor não confiou no material que tinha em mãos, sentindo a necessidade de evocar em várias cenas ao longo da narrativa elementos característicos da filmografia de outro cineasta. Se tivesse acreditado na própria qualidade e talento (que já foram vistos nos seus outros filmes), Philippe Grandieux teria feito de Apesar Da Noite uma das obras mais peculiares do ano. Infelizmente, ao tentar ser o que não é, transformou o seu atual longa numa constante decepção.

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