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Amityville: O Despertar – A mesma história contada mais uma vez!

Amityville: O Despertar menospreza a inteligência do espectador

Nos dias de hoje, a lógica de mercado por trás de quase todas as decisões tomadas por executivos de Hollywood – e que consiste em reiterados investimentos naquilo que deu certo uma vez – já se tornou uma realidade aceita pelo público mundial. Dessa maneira, quando aparece a sequência de um filme financeiramente bem-sucedido, o remake de uma obra que fez sucesso no passado ou o reboot de uma franquia milionária, as pessoas não se sentem muito enganadas ou ofendidas. Na verdade, o conflito ético e artístico surge somente quando a linha que separa essas estratégias comerciais desaparece e se tem um filme como Amityville: O Despertar (Amityville: The Awakening), que nada mais é do que uma espécie de remake transvestido de sequência.

Crítica de Amityville: O Despertar

Amityville: O Despertar

Neste longa que se passa 40 anos depois dos eventos reais narrados no primeiro filme e na refilmagem com Ryan Reynolds, o título, a equipe técnica e os atores são diferentes, mas a história, em essência, é exatamente a mesma: família se muda para uma casal mal-assombrada e um dos seus membros, possuído por uma entidade maligna, é forçado a assassinar todos os moradores. Trocam-se os personagens, a roupagem e parte da ambientação, no entanto, não se alteram o pontapé inicial e a sucessão dos eventos.

Analisando sob outra perspectiva, não podemos esquecer que os gêneros artísticos estão repletos de clichés e convenções. Com o horror não é diferente. Aliás, no caso deste último, as características principais saltam aos olhos, o que é fortemente responsável pela sensação de que todos esses filmes parecem iguais. Todavia, uma coisa é recorrer aos elementos  responsáveis pelo estabelecimento de um tipo de produção para contar uma determinada história (vide os recentes Annabelle 2: A Criação do Mal It – A Coisa), outra completamente diferente é tomá-los como se fossem do mesmo material do qual a trama é composta.

Crítica de Amityville: O Despertar

Não me entendam mal, Amityville: O Despertar é um amontoado sem fim de clichés cinematográficos. Há de tudo: o cão que late ao sentir a presença de demônios, inúmeros establishing shots da casa – uma maneira preguiçosa de tratá-la como uma personagem da história -, a protagonista rebelde (a sua caracterização física, feita a partir de roupas, esmaltes e batons pretos, é amadora), problemas de relação entre pais e filhos, uma matriarca fanática em suas intenções – a personagem interpretada por Jennifer Jason Leigh (de Os Oito Odiados) – e jumpscares completamente desprovidos de qualquer propósito narrativo.

No entanto, é a tentativa de recontar a história original que acaba gerando uma ojeriza por parte do espectador em relação a uma obra como esta. Sempre que é lançado um filme com o nome da infame cidade no título, sabe-se que, em linhas gerais, será contada a mesma trama. Em Amityville: O Despertar, no momento exato em que a família surge e a sua dinâmica é apresentada, juntamente com cada um de seus membros – inclusive, o irmão incapacitado fisicamente -, antecipamos passo a passo do que transcorrerá futuramente, como quem serão as vítimas, os vilões e o que acontecerá a eles. Ou seja, não há mistério algum em um filme cujo gênero é fundado sobre essa característica.

Crítica de Amityville: O Despertar

Uma regressão técnica

Para piorar, Frank Khalfoun, o roteirista e diretor, nesta última função, mostra não ter a menor noção de como realizar um filme de terror. Ele falha na construção da atmosfera, na composição dos planos (a profundidade de campo é inexistente), no flerte com as sombras (antecipa-se pouco e revela-se muito), no estabelecimento do ritmo (como não há cadência na sua condução, tudo acontece antes do tempo certo), no emprego da trilha sonora (esta se transforma em um mero conduíte para o susto) e na direção de atores, já que Bella Thorne não apresenta o carisma necessário para ser a protagonista da história, Leigh já surge em cena caricata e vilanesca e Thomas Mann oferece algumas das expressões faciais mais hilárias dos últimos anos (ele devia se envergonhar por carregar esse nome). Além do mais, os efeitos digitais são precários, revelando baixo orçamento da produção.

Assim, torna-se claro que, se for para continuar na mesmo toada, não há mais espaço para filmes dessa franquia. Contudo, conhecendo Hollywood, nunca podemos duvidar de sua infinita capacidade de reciclar materiais prévios. Ao menos, resta uma esperança: como o longa de Khalfoun ultrapassou o fundo do poço e atingiu um possível magma no centro da terra, é quase impossível que a obra seguinte seja pior, a não ser que a cidade dos sonhos nos surpreenda novamente. Mas até aí poderemos contar com o fator da surpresa. Às vezes, um filme é tão ruim que tudo ao redor soa positivo. Amityville: O Despertar é um desses casos.

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