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Além Das Palavras – A história de Emily Dickinson!

A cinebiografia de Emily Dickinson, uma gigante da poesia

Emily Dickinson foi uma das maiores poetisas da história. Os seus versos modernos para a época em que vivia e a sensibilidade através da qual olhava para as pessoas, os animais, a natureza e os sentimentos lhe garantiram um lugar especial no panteão dos grandes poetas de língua inglesa. No entanto, esse cuidado com as palavras e a imersão que costumava realizar dentro de si mesma lhe custaram muito caro, principalmente, no que diz respeito à vida social, uma vez que a sua famosa solidão lhe garantiu o apelido de a “Grande Reclusa”. É praticamente essa dualidade entre a riqueza da sua vida interior com a escassez de acontecimentos externos que move a narrativa de Além Das Palavras (A Quiet Passion).

Além das Palavras, cinebiografia de Emily Dickinson

Além das Palavras, cinebiografia de Emily Dickinson

Como o próprio título brasileiro indica, a cinebiografia de Emily Elizabeth Dickinson – que foi escrita e dirigida por Terence Davies (cineasta inglês famoso por seus melodramas) –  oferece a oportunidade do público mundial e até mesmo norte americano conhecer um pouco mais sobre a pessoa por detrás dos versos poéticos, além de ter constituído um difícil desafio para os realizadores, já que a tarefa de narrar a vida de uma pessoa que optou por ficar fechada dentro de casa durante toda a sua existência deve ter resultado em um trabalho complexo de análise interior. Sendo assim, Além Das Palavras poderia facilmente ser descrito como um drama doméstico e psicológico.

E também familiar, afinal de contas, os seus pais, Edward Dickinson (Keith Carradine) e Emily Norcross (Joanna Bacon), e os dois irmãos, Austin (Duncan Duff) e Vinnie Dickinson (Jennifer Ehle, que esteve em Cinquenta Tons De Cinza e o Robocop de 2014), tiveram um papel de destaque na vida da protagonista (que é interpretada pela atriz Cynthina Nixon, da série Sex And The City). Morando na casa dos pais – mesmo depois de eles terem falecido – até o seu último suspiro, ela deu aos familiares uma importância maior daquela que lhes cabia, e o resultado disso foi uma existência ressentida e dedicada aos problemas alheios, nunca olhando para as próprias conquistas e se dando a devida importância.

Sofrendo de cálculo renal (o que lhe causava dores horríveis), Dickinson também se ressentia do fato de não ser tão atraente quanto os irmãos. Isso, juntamente com uma inclinação natural para a poesia e um sentimento pulsante de rebeldia (ela queria ser livre, acima de tudo), fez com que ela encontrasse conforto apenas na riqueza de existir dentro de si mesma e dos altos padrões de comportamento que exigia das pessoas que estavam ao redor. Pois, se ela não se curvava às necessidades mais básicas, por que deveria esperar menos dos outros? Claramente, como os seus familiares e amigos (Vrylling Buffam também teve um papel crucial na sua vida) não tinham a mesma força interior, ela se via constantemente decepcionada com as suas ações.

Além das Palavras, cinebiografia de Emily Dickinson

Mas é interessante notar como essa decepção se devia muito mais à ausência de acontecimentos românticos ou empolgantes na sua vida, do que ao comportamento alheio propriamente dito. Na cena em que flagra o irmão tendo relações sexuais fora do casamento, a raiva que sente não é ocasionada somente por aquilo que acabou de ver, mas também pelo fato de que esse tipo de coisa não acontecia na sua vida. Isso terminava por criar o pior tipo de mentira que existe: a interior. Como ela não conseguia achar um marido, justificativa a própria solidão dizendo para si mesma que os homens não gostavam de mulheres inteligentes e, por incrível que pareça, afastando os poucos pretendentes que estavam realmente interessados (por achar que eles queriam se relacionar com a poetisa e não com a mulher que era).

A estética de Além Das Palavras

Quando o filme se concentra nessas situações, se transformando, portanto, num estudo de personagem da protagonista, a narrativa é bem sucedida. Com a exceção de algumas escolhas equivocadas de Davies, como a opção de dar ao texto e às atuações um caráter teatral (para recriar o espírito da época retratada, as falas são exacerbadamente floridas e as atuações exageradas lembram os espetáculos de teatro antigos) e de intercalar a narrativa com versos de Emily Dickison narrados em off pela própria personagem (como não há tempo de refletir sobre o que ela diz, o recurso se mostra desnecessário), a história engaja o espectador na maior parte do tempo.

Junte a isso a fotografia naturalista de Florian Hoffmeister, colaborador contumaz de Davies (as cenas noturnas, que foram filmadas à luz de velas, são soberbas, e o momento em que a câmera dá um giro de 360º, mostrando todos os familiares reunidos numa sala e revelando um pouco da personalidade de cada um, é inexplicavelmente comovente), e alguns momentos brilhantes, como aquele em que, para indicar a passagem do tempo, a câmera se aproxima dos personagens e, depois de um efeito digital impecável, vemos que os seus rostos estão mais envelhecidos, e o que se tem é um filme estética e intelectualmente recompensador.

Além das Palavras, cinebiografia de Emily Dickinson

Porém, em uma tendência moderna irritante, Davies, por vezes, decide usar a história de Emily Dickinson para fazer um comentário feminista. Por que hoje em dia tudo precisa ter uma ressonância política? Se, ao menos, a história da poetisa servisse para apoiar essa posição, o filme teria menos problemas, porém, nada na sua vida indica que ela tenha sofrido algum tipo de machismo. Quando quis sair do ensino religioso, o seu pai permitiu. No momento em que quis publicar os seus poemas, novamente o seu pai não se opôs e o editor do jornal não criou nenhum tipo de empecilho. Dessa maneira, para reforçar o seu comentário, o diretor e roteirista teve de criar situações (a mãe que mais parece uma boneca de cera do qualquer outra coisa) e falas maniqueístas (Dickinson dizendo ingratamente que era difícil ser mulher naquela época).

Assim, a soma final de Além Das Palavras é irregular. Quando quer ser uma cinebiografia aprofundada sobre Emily Dickinson, apesar de ter alguns problemas, o filme funciona, e, para quem já leu muitos versos da poetisa, é a chance de conhecer um pouco mais da mulher que criou poemas tão belos. Mas, quando se percebe que talvez a intenção dos realizadores tenha sido a de usar a história da figura real para esconder uma espécie de manifesto feminista, o projeto, como um todo, fica perto de se tornar completamente descartável. Desde quando a missão de simplesmente contar uma história, não tendo de dar a ela uma relevância política ou social, se tornou algo tão raro?

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