Home > Cinema > A Vida De Uma Mulher – A perenidade da esperança!

A Vida De Uma Mulher – A perenidade da esperança!

O cinema intimista de A Vida De Uma Mulher

Se há algo que a existência nos ensina rotineiramente é que a difícil realidade costuma ser indiferente às nossas idealizações. Geralmente, exigir virtudes por parte da vida e das pessoas ao redor é saber, mesmo inconscientemente, que a decepção, além da consequente tristeza, se espreitam nos cantos mais próximos, esperando o momento certo para o abate emocional. Na maior parte das vezes, o Mundo é apenas um matadouro onde sonhos se alinham como gado. Caso alguém coloque em xeque a veracidade de tudo o que acabei de dizer, basta assistir ao dilacerante A Vida De Uma Mulher (Une Vie) para acabar com qualquer dúvida.

Crítica de A Vida de Uma Mulher

A Vida de Uma Mulher

Adaptado do romance homônimo do escritor Guy de Maupassant por Florence Vignón e Stéphane Brizé (que também é a diretor), o roteiro tem como protagonista a jovem Jeanne (Judith Chemla). Filha única de um casal de aristocratas franceses, ela é uma mulher inteligente e vívida que, numa série de desfortúnios, experimenta, ao longo da vida, várias das dores que acompanham a existência humana. De uma maneira ou outra, todos a decepcionam: o marido, a melhor amiga, o filho. Sendo assim, o grande desafio de sua vida é encontrar forças no meio de tantos escombros emocionais.

Em todos os sentidos, A Vida De Uma Mulher é um filme intimista. Cada uma das escolhas feitas por Brizé e a sua equipe parece ter como objetivo principal imergir o espectador no turbilhão interno da protagonista. A razão de aspecto de 1.33:1 e a fotografia granulada de Antoine Héberlé são provas disso. Juntos, eles dão ao espectador a impressão de que estamos vendo uma espécie de filme doméstico. Essa construção é vital não só para criar intimidade entre Jeanne e o público, como também para estabelecer um paralelo com a personagem e a casa onde mora, afinal, quase toda a sua vida transcorreu dentro de ambientes domiciliares.

Crítica de A Vida de Uma Mulher

Dessa maneira, não é à toa que, em um momento de profunda tristeza, a casa esteja com uma goteira, um bonito símbolo para o pranto. Do ponto de vista temático, é perfeitamente natural que haja essa simbiose de Jeanne com o ambiente doméstico, uma vez que um dos poucos papéis que as mulheres podiam exercer nas sociedades ocidentais do século XIX era a de dona de casa. Portanto, nada mais natural que haja essa junção entre ela e a residência. Aliás, essa lógica de associar Jeanne com o ambiente circundante (e que é uma característica marcante do Romantismo, outro acontecimento do século XIX) também se dá através das diferentes iluminações. Nos raros instantes de felicidade, a fotografia é ensolarada, e nos de tristeza, escura e sem vida.

No entanto, com a exceção das referências históricas feitas no parágrafo acima, há um cuidado dos realizadores para transformar a trajetória da protagonista, que se desenrola em um determinado espaço e tempo, em algo universal, válido para todas as épocas (como todas as histórias devem ser). Embora as roupas e os móveis não nos façam esquecer que estamos diante de um filme de época, Brizé faz questão de compor quadros fechados e manter os atores (Chemla está excepcional) sempre muito próximos da câmera. Essa estrutura é condizente tanto com a proposta intimista quanto com a ideia de eliminar, dentro do possível, os elementos que limitam a história (nesse sentido, destaco negativamente a tradução brasileira, pois o título original é muito mais abrangente e pode ser relacionado com mulheres e também homens).

Crítica de A Vida de Uma Mulher

Simbologia cristã

Por fim, para dar os últimos retoques numa obra que beira a perfeição, Brizé compõe um comovente simbolismo envolvendo a fé cristã da personagem e a esperança que esta mantém mesmo quando tudo ao redor a coloca para baixo. Assim como Emily Dickinson em Além Das Palavras, Jeanne, ao ver que nenhuma das pessoas consegue atingir o seu nível de padrão comportamental (em certo momento, ela pergunta para um padre “por que todos mentem?”), sofre por esperar retidão moral num Mundo em que vícios sobrepujam virtudes. Porém, ela nunca para de plantar novas sementes na terra (simbólica e literalmente). Sob a perspectiva cristã, isso pode simbolizar a esperança que a protagonista mantém ainda nesta vida ou que a sua trajetória de dor é o martírio pelo qual precisa passar para atingir a salvação eterna.

Terminando com um plano avassalador, A Vida De Uma Mulher, juntamente com os filmes Frantz Um Instante De Amor, sinaliza uma tendência contemporânea do cinema francês, que consiste em realizar obras narrativas sobre as lamúrias da existência humana, mas sempre com um certo otimismo, enxergando beleza onde, às vezes, parece nem mesmo existir. Que continue assim, pois o ato de viver, entre muitas outras coisas, é uma constante confirmação da perenidade da esperança.

Já leu essas?
Crítica de Não Devore Meu Coração
Não Devore Meu Coração – Experiência fascinante!
Crítica de A Vilã
A Vilã – Uma vida de muita violência!
Elder Fraga premiado melhor diretor por curta baseado em Shakespeare!
Crítica de Uma Razão Para Viver
Uma Razão Para Viver – Estreia frustrada de Andy Serkis na direção!