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A Vida Após A Vida – A boa estreia de Zhang Hanyi!

A Vida Após A Vida é a estreia de Zhang Hanyi na direção

A Vida Após A Vida (Zhi Fan Ye Mao) é o primeiro longa metragem do cineasta Zhang Hanyi e, como tal, contém algumas indefinições comuns em debutes, como comprometimento do ritmo em razão de planos que se estendem mais do que o necessário e a ultrapassagem da linha tênue que separa as influências artísticas da emulação de um estilo e temas alheios. Em contrapartida, também tem um número razoável de qualidades que garantem o seu sucesso e a atenção do espectador, além de apontarem para o surgimento de um possível talento. De fato, em razão da sua estreia, Zhang Hanyi é um nome que merece ser acompanhado com cuidado.

Crítica do filme chinês A Vida Após A Vida

A Vida Após A Vida

Escrito pelo próprio diretor, o roteiro do filme gira em torno de dois personagens, Ming Chui (Zhang Mingjun) e Leilei (Zhang Li), pai e filho, respectivamente. Quando este último é tomado pelo espírito da mãe, os dois partem em uma jornada que inclui visitar os parentes e entrar em contato novamente com a árvore que está plantada no jardim da família. Enquanto eles realizam a sua viagem, o espectador tem a chance de conhecer um pouco mais das paisagens rurais e urbanas da China.

Obviamente, é muito cedo para fazer afirmações definitivas sobre o estilo, as preocupações temáticas e influências cinematográficas de Zhang Hanyi. No entanto, por outro lado, já é possível enxergar algumas das características que parecem mover o seu trabalho. A principal delas são os planos gerais longos que acompanham os personagens e a ação (ou a falta dela), enquanto revelam as paisagens mortas e miseráveis em que a história se desenrola. E, apesar de alguns desses planos, como já foi mencionado, se alongarem demasiadamente, a fotografia nublada e a rica exploração das particularidades visuais das locações são suficientes para hipnotizar o espectador.

Porém, essa preferência estilística não exclui os eventuais movimentos de câmera, que, por não serem comuns, quando são empregados, potencializam o drama. Aliás, um dos momentos mais fortes do filme ocorre logo no início, quando um complexo travelling mostra, em primeiro plano, galhos secos de uma floresta morta, e, ao fundo, Ming Chui ouvindo os lamentos do personagem cuja morte dá pontapé à trama. Essa cena é essencial para mostrar como o diretor usa inteligentemente os elementos paisagísticos para revelar não só a realidade externa circundante, como a vida interior dos personagens.

Crítica do filme chinês A Vida Após A Vida

Outras características de Hanyi que também chamam atenção são as formas como ele manipula o som – empregando os barulhos e o silêncio para causar desconforto -, o extra-campo (é fascinante perceber como um dos principais acontecimentos da história – a transmigração da alma da mãe para o corpo do filho – ocorre fora dos olhos do protagonista e, portanto, fora do quadro), a câmera, fazendo de suas lentes um olhar de cumplicidade (nesse sentido, a quebra da quarta parede no momento final ganha um significado maior), e até mesmo os créditos iniciais e legendas, que surgem em momentos inesperados, deslocando o espectador.

Os temas e as influências de Zhang Hanyi

Já no que diz respeito aos temas abordados por Hanyi, quando a narrativa se concentra na dualidade campo x cidade e mostra como o progresso urbano está aniquilando as partes rurais do país (inclusive, quase todo o visual do filme é trabalhado de uma forma a indicar a morte acelerada daquelas regiões), o filme ganha força (a panorâmica que vai de um campo até uma usina na cidade é um dos instantes mais belos do ano) e possui um simbolismo rico (apesar de óbvio, não há como deixar de admirar a cena em que um trator “obriga” o pai a descer uma rua ou o uso das árvores como uma representação das raízes familiares que estão sendo decepadas pelo desenvolvimento tecnológico; não é à toa que as relações emocionais entre parentes são extremamente problemáticas).

Crítica do filme chinês A Vida Após A Vida

Porém, nos momentos em que a fantasia e a espiritualidade tomam conta, a narrativa se torna muito irregular. Embora Hanyi comande a história com uma admirável austeridade (a reação indiferente dos personagens frente aos eventos sobrenaturais não só revela um elemento comum da cultura chinesa, como é cômica e curiosa), a forma como ele trata dessas questões mais metafísicas é vaga (um conhecimento mais aprofundado das crenças chinesas talvez melhore a compreensão) e muito similar à de Apichatpong Weerasethakul, o que, precisamos admitir, é uma péssima fonte de inspiração (cheguei a mencionar na crítica de A Mulher Que Se Foi como considero o cineasta tailandês um enganador).

No entanto, esses são percalços naturais de um diretor de primeira viagem. Em longas de estreia, é muito raro que se tenha de imediato uma obra-prima. Geralmente, o que se vê são irregularidades e um excesso de influências. Porém, o mais importante é encontrar ao lado dos erros elementos positivos que mereçam ser destacados. E A Vida Após A Vida, do promissor Zhang Hanyi, contém um número considerável deles.

(Se você se interessa pelo trabalho de diretores chineses, talvez goste de A Grande Muralha, de Zhang Yimou.)

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